O integrante do The Doors que admitia ter inveja de Jim Morrison
Por Bruce William
Postado em 21 de setembro de 2025
Jim Morrison encarnava como poucos o estereótipo do frontman de rock: carismático, provocador e, ao mesmo tempo, autodestrutivo. Sua voz poderosa e sua presença de palco transformavam cada show em um espetáculo, mas o pacote vinha acompanhado de excessos. Álcool, drogas e comportamento errático acabaram comprometendo apresentações e, em 1971, levaram o cantor a uma morte precoce em Paris, aos 27 anos.
O fascínio em torno de Morrison era inevitável. Para o tecladista Ray Manzarek, essa atenção foi decisiva para o destino trágico do amigo. "Ele recebe toda a atenção, mas também é quem é preso. Ele recebe toda a merda, recebe todos os malucos que aparecem, gente com drogas e bebida: 'Vamos, Jim, beba comigo'. E eu juro que toda essa atenção não acabou matando ele também no fim", disse em entrevista de 1998 resgatada pela Far Out.

Essa aura magnética gerava desconforto dentro da própria banda. Enquanto Manzarek aceitava que Morrison seria sempre o centro das atenções, outros integrantes tinham mais dificuldade para lidar com a disparidade. "Eu sabia desde o início: as garotas vão adorar esse cara. Eu não ligo pra isso, cara. A gente vai fazer música incrível, poesia e música juntas, absolutamente brilhante", explicou.
O baterista John Densmore, porém, não conseguia esconder o incômodo. Segundo Manzarek, ele chegou a admitir que "odiava" Morrison pelo simples fato de que o vocalista atraía todas as mulheres. "Pobre John. Ele perguntava: 'Por que ele consegue todas as garotas?' E eu respondia: 'John, porque ele é o bonito da banda. Você não é feio, mas, pelo amor de Deus, você não é o Jim Morrison'", disse o tecladista.
Com o tempo, Densmore falou mais abertamente sobre sua relação conturbada com Morrison. Os dois nunca chegaram a resolver de fato essas diferenças, e o baterista sequer compareceu ao funeral em Paris. Mais tarde, porém, admitiu sentir falta do colega "pela sua arte", mesmo que a vida em comum tenha sido marcada por tensões.
O passar dos anos colocou um fim na disputa por atenção e ressentimentos. O que permaneceu foi o legado artístico, tanto da bateria firme de Densmore quanto da voz incendiária de Morrison - lembrança que resiste mais que os conflitos que os afastaram em vida. As tensões internas e a sensação de desigualdade foram passageiras, enquanto as músicas atravessaram décadas e continuam a ser revisitadas.
Hoje, é difícil pensar na sonoridade do The Doors sem o peso dramático da interpretação de Morrison ou sem a base precisa que Densmore oferecia em cada canção. A discografia da banda acabou sendo maior que as vaidades individuais, mantendo viva a memória de um grupo que transformou os limites entre poesia, rock e rebeldia juvenil.
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