A música do The Who que nasceu para celebrar a vida, mas virou hino do declínio juvenil
Por Bruce William
Postado em 17 de setembro de 2025
Poucas músicas traduzem tão bem o fim das ilusões dos anos 1960 quanto "Baba O'Riley", faixa de abertura de "Who's Next" (1971). A canção nasceu do projeto abortado Lifehouse, escrito por Pete Townshend, mas acabou condensando um retrato brutal da juventude que cresceu acreditando que a contracultura seria um caminho de salvação. Em vez disso, Townshend via o cenário marcado pela desolação depois de eventos como Woodstock e o segundo festival da Ilha de Wight, onde, segundo ele (via Rolling Stone), "vinte pessoas tiveram danos cerebrais" em meio ao abuso de drogas.
O título da música junta duas influências diretas de Townshend: seu guia espiritual, Meher Baba, e o compositor minimalista Terry Riley. O efeito hipnótico que abre a faixa, criado em um órgão Lowrey no modo marimba repeat, serviu de base para todo o arranjo, relata a Songfacts. Dave Arbus, convidado do grupo East of Eden, foi quem gravou o violino que encerra a canção - - ideia de Keith Moon, que queria um final com clima de dança celta. Essa combinação inusitada ajudou a firmar "Baba O'Riley" como um dos marcos do uso de teclados na construção rítmica de uma canção de rock.

A letra fala de um "fazendeiro no campo", personagem do Lifehouse, mas logo se abre para um comentário mais amplo sobre a geração do pós-festival. O verso "teenage wasteland" sintetiza esse sentimento: um terreno devastado pela desilusão e pelo abuso, no qual restava pouca esperança de transformação. A frase "we're all wasted" ("estamos todos desperdiçados") ganhou peso ainda maior décadas depois, quando Townshend admitiu que poderia ser lida como um lamento por uma oportunidade perdida de realmente mudar o mundo.
Com o tempo, "Baba O'Riley" passou a ser conhecida pelo próprio subtítulo não oficial, "Teenage Wasteland", justamente por capturar esse espírito de declínio juvenil. O que começou como uma peça de ficção em um roteiro nunca filmado acabou se tornando um espelho incômodo da realidade, onde os jovens buscavam salvação em festivais e comunas, mas encontravam desgaste físico e mental. Ao mesmo tempo, musicalmente, a faixa mostrou como o The Who podia unir experimentação e força bruta, mantendo-se relevante em uma era em que o rock precisava se reinventar.
Décadas mais tarde, em entrevista à Billboard, Townshend reconheceu que a canção havia ganhado novos significados. "A música ali falava de viver o presente e se perder no momento. Agora isso mudou. O que tememos é que, de fato, tenhamos desperdiçado uma oportunidade", disse, refletindo que o verso antes visto apenas como celebração juvenil agora soa como epitáfio de uma geração. Assim, "Baba O'Riley" acabou permanecendo como um hino paradoxal: nasceu para simbolizar vitalidade e esperança, mas hoje ecoa como lembrança amarga do que a juventude perdeu pelo caminho.
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