A única vez na história que os Titãs discordaram por razão moral e não estética
Por Gustavo Maiato
Postado em 23 de outubro de 2025
Durante os anos 1980, o rock brasileiro viveu um de seus momentos mais intensos, e os Titãs estavam no centro dessa efervescência. Em meio à prisão de Arnaldo Antunes e à busca por uma nova identidade sonora, o grupo preparava o álbum "Cabeça Dinossauro" (1986), que se tornaria um marco do rock nacional. Foi nesse cenário que surgiu "Igreja", composição de Nando Reis que, mais do que dividir opiniões artísticas, colocou em rota de colisão as convicções morais de alguns integrantes da banda.
A letra de "Igreja" é uma crítica direta à religião institucionalizada, expressa em versos como "Eu não creio na graça / Do milagre de Deus / Eu não gosto da igreja / Eu não entro na igreja / Não tenho religião". A contundência do texto gerou desconforto em parte do grupo, especialmente em Arnaldo Antunes e Paulo Miklos, que se recusaram, a princípio, a gravar a faixa. Segundo Nando, em vídeo publicado em seu canal no YouTube, a música nasceu de uma indignação pessoal: ele havia lido um artigo de Roberto Carlos defendendo a censura ao filme Je Vous Salue, Marie, de Jean-Luc Godard, por motivos religiosos. "Me enfureci com aquela posição de censura. Resolvi extravasar essa indignação com a igreja", contou o músico.

Titãs e "Igreja"
No livro "Titãs: A vida até parece uma festa", a tensão interna é descrita em detalhes. Nando já se mostrava distante dos colegas, tomado por um sentimento de melancolia e desinteresse. "Não gostava do clima", relata o autor. "Igreja" foi a gota d'água de um processo de afastamento que não se dava por brigas ou egos, mas por diferença de visões - algo raro na história do grupo. Pela primeira vez, a discordância não era estética, e sim moral.
Apesar da resistência inicial, a canção acabou aprovada pela maioria e entrou no repertório. "O Arnaldo e o Paulo não queriam gravar, porque não se identificavam, não queriam compactuar com o que dizia a música. Mas a maioria ganhou", recordou Nando. Paulo, mesmo contrariado, tocou baixo, enquanto o próprio autor assumiu os vocais. Já Arnaldo levou sua postura ao limite: durante as apresentações ao vivo, deixava o palco quando "Igreja" era executada. "Ele não compactuava com aquilo e saía com toda razão", reconheceu Nando.
Com o tempo, a relação dos Titãs com a faixa mudou. Em um especial de Natal exibido pela Rede Globo em 1986, o grupo convidou Caetano Veloso para cantar "Igreja". O episódio marcou a reconciliação interna. "Depois disso, o Arnaldo passou a cantar também", contou Nando. Mesmo assim, o músico admite que hoje vê a canção com outros olhos: "Ela generaliza e tem uma certa arrogância, que hoje não tenho mais. Desdenha um pouco da crença das outras pessoas, o que acho tolo".
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