O hit dos Titãs de Nando que Arnaldo saía do palco por não compactuar com dura mensagem
Por Gustavo Maiato
Postado em 08 de julho de 2022
Ao longo dos anos 1980, os Titãs lançaram alguns de seus principais hits e um deles foi a música "Igreja", do álbum "Cabeça Dinossauro" (1986). Nessa letra, escrita por Nando Reis, há uma forte crítica contra a igreja, que pode ser observada, por exemplo, nos versos a seguir.
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"Eu não creio na graça / Do milagre de Deus / Eu não gosto da igreja / Eu não entro na igreja / Não tenho religião".
Em vídeo no seu canal no YouTube, Nando Reis contou curiosidades sobre a composição de "Igreja" e uma delas é o fato de Arnaldo Antunes, durante um bom tempo, decidiu deixar o palco durante a execução dessa faixa, por não concordar com essa dura mensagem.
O contexto do álbum "Cabeça Dinossauro"
"Essa música é controversa desde que nasceu. Para quem não sabe, ‘Cabeça Dinossauro’ é o terceiro disco dos Titãs. Viemos de discos com músicas de sucesso, mas não conseguiram cativar o público. Nossa identidade visual e musical sempre foi multifacetada, isso talvez dificultasse a fidelização de um público que pudesse nos compreender. Isso aconteceu nesse terceiro disco. Foi gravado após um período grave, que foi a prisão do Arnaldo Antunes. Isso só intensificou nosso desejo de fazer um álbum mais crítico e poderoso. Como sempre, sabendo que o período da gravação estava se aproximando, eu não tinha ainda muito material para apresentar. Sempre tive dificuldade de compor para os Titãs, talvez por insegurança e estar tocando baixo. Nem sabia tocar direito! Nessa época, já estava casado. Estava com esse incômodo de gravar, e percebi o propósito do disco".
Crítica ao Roberto Carlos por compactuar com censura
"Lembro que uma vez o Sérgio Britto veio me perguntar o que eu tinha de composições para o disco novo e mostrei uma música absurda, meio de cabaré. Meio sem noção, lembro que ele olhou para mim com cara de espanto! Percebi que estava mal municiado, aí veio a ideia de compor ‘Igreja’. Ela surgiu quando li um artigo escrito pelo Roberto Carlos na Folha de S. Paulo. Ele saía em defesa do apoio que a igreja estava dando para a censura do filme ‘Je Vous Salue, Marie’, de Godard. É uma versão da história da Virgem Maria, mas pouco ortodoxa. O filme foi censurado e ele apoiou isso, pois é um homem muito religioso e devoto. No alto dos meus 23 anos, sempre fui muito reativo e indisposto com a ideia de religião e da Igreja Católica. Fui batizado, mas nunca tive nenhuma afinidade ou simpatia com a religião católica. Me enfureci com aquela posição de censura. É inadmissível, mesmo que você discorde. Por essa razão, resolvi extravasar essa indignação com a igreja".
Arnaldo Antunes e Paulo Miklos foram contra gravar "Igreja"
"Lembro que peguei o violão da minha mãe e fiz rapidamente a música. Escrevi os versos, mas não lembro a ordem. Foi em minutos! A música é bastante simples. Fiquei feliz, acreditei que ia compor bem o repertório. Os Titãs eram numerosos, então para entrar a música tinha uma votação. Lembro que estávamos no apartamento do Branco e mostrei. Ela gerou uma celeuma! O Arnaldo e o Paulo não queriam gravar, porque não se identificavam, não queriam compactuar com o que dizia a música. Mas a maioria ganhou. Fizemos a demo e gravamos. Apesar de não ser favorável, o Paulo passou a tocar baixo e eu cantei".
Nando Reis acha letra arrogante hoje em dia
"O curioso é que essa música deixou pessoas bastante incomodadas e se sentindo agredidas. Lembro de estar em uma entrevista numa rádio no Rio de Janeiro, aí ele tocou e o Bispo ligou ultrajado com o fato de terem tocado essa blasfêmia. Hoje em dia, gosto da música, mas entendo. Ela diz algo que é meu. Essa diferença com as religiões. Essa impossibilidade minha de acreditar em Deus. Mas ela generaliza e tem uma certa arrogância, que hoje não tenho mais. Ela desdenha um pouco da crença das outras pessoas, o que acho tolo. O que não invalida meu ponto de vista de não querer me envolver. Era um ponto alto do show. Nas primeiras apresentações, o Arnaldo saía do palco! Ele não compactuava com aquilo e saía com toda razão. Mas depois ele mudou de ideia. No final de 1986, fizemos um especial na Rede Globo com o Barão Vermelho para o Natal. Convidamos o Caetano Veloso para cantar ‘Igreja’ e ele cantou de uma maneira enfática. Lembro dele falando: ‘Como vou explicar para minha mãe que estou cantando isso no Natal?’. A mãe dele era religiosa. Aí depois disso o Arnaldo passou a cantar.
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