A canção sobre ser artista e rico que David Gilmour levaria para uma ilha deserta
Por Bruce William
Postado em 13 de outubro de 2025
Tem artista que toma de assalto o ouvido da gente de um jeito silencioso. No caso de David Gilmour, a base veio do folk dos anos 1960, período em que ele tocou na rua pela Europa e acreditava que seu futuro passaria por violão e canções diretas - isso antes de o destino cruzar com o Pink Floyd.
Mesmo com a guinada para o rock progressivo, essa raiz nunca saiu de cena. Joni Mitchell ocupou espaço fixo na prateleira dele e, quando a BBC pediu oito músicas para o programa Desert Island Discs, Gilmour não pensou duas vezes em incluir uma composição dela, relembra a Far Out.
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A escolha foi "For Free". Na explicação que deu no programa, ele resumiu o conflito que a letra expõe: "Isto é a Joni Mitchell em luta com o seu muro, por assim dizer. A luta com a própria consciência, por ser uma pessoa rica e, ainda assim, uma artista." A música observa um instrumentista de rua em Nova York - talento imenso, nenhuma plateia de verdade - e confronta o conforto da carreira com a essência de "tocar por nada".
Esse fascínio não é só pelas palavras. Gilmour costuma defender que o violão de Joni é subestimado. Numa sessão de perguntas antes do grande leilão em que se desfez do grosso da coleção de guitarras, ele citou quem o formou: "Muitos músicos me inspiraram. Aprendi com Pete Seeger, Hank Marvin, Lead Belly, Joni Mitchell, John Fahey, Roy Buchanan, Jeff [Beck] e Eric [Clapton] e dezenas de outros. Eu copiei - não tenha medo de copiar - e, eventualmente, algo que eu suponho poder chamar de meu apareceu."
Anos depois, em conversa com a NPR, ele repetiu o mapa de influências que sustenta seu estilo: "Há mil outras influências que meio que se juntaram - música folk, Pete Seeger, Woody Guthrie, Big Bill Broonzy, John Fahey, Joni Mitchell - há milhares de músicos e cantores que influenciaram diretamente a música que faço e que criaram a base do que você poderia chamar de meu estilo."
Em "For Free", esse caminho se encontra: o ouvido de Gilmour para melodias claras, a admiração por uma escrita que questiona o próprio ofício e um violão que respira por acordes abertos e afinações que fogem do trivial. Não é sobre técnica pela técnica; é sobre reconhecer, em três minutos, por que uma canção atravessa décadas.
No fim, a lista de uma ilha deserta diz menos sobre ranking e mais sobre pertencimento. Para Gilmour, Joni Mitchell fica naquele lugar de música que continua funcionando mesmo quando todo o resto silencia - a peça que ele levaria não só para ouvir, mas para lembrar por que começou a tocar.
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