Quando David Gilmour salvou um show do Jimi Hendrix; "eles estavam muito nervosos"
Por Bruce William
Postado em 03 de dezembro de 2025
Antes de ser o guitarrista do Pink Floyd, David Gilmour era só um jovem quebrado circulando pelos clubes de Londres atrás de música grátis. Foi assim que ele acabou entrando no Blazes, em South Kensington, em uma daquelas noites em que parecia haver algo diferente no ar. No meio do público, Gilmour identificou rostos que qualquer fã reconheceria à distância: Beatles de um lado, integrantes dos Rolling Stones do outro, todos espremidos num clube pequeno, esperando para ver o que ia acontecer no palco.
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A resposta apareceu quando um jovem entrou carregando um estojo de guitarra, subiu ao palco e, em vez de simplesmente plugar e tocar, virou o instrumento ao contrário, ligou-o ao amplificador e começou a tirar sons que ninguém ali estava acostumado a ouvir. Gilmour lembra que "o lugar inteiro ficou de queixo caído. Foi absolutamente extraordinário". Naquela noite, ele viu Jimi Hendrix pela primeira vez - e teve a sensação de que estava assistindo algo que mudaria o rumo da guitarra elétrica dali em diante.

No dia seguinte, ainda sob efeito do choque, Gilmour saiu à caça de discos daquele cara. Só que Hendrix estava tão no começo da carreira que praticamente não havia material disponível nas lojas. Ele chegou a se deparar com nomes parecidos, como James Hendricks ou Hendrix, Lambert and Ross, mas nada que correspondesse ao que tinha visto no Blazes. Mesmo sem encontrar registros oficiais, Gilmour já tinha entendido que aquele show não era apenas "mais uma noite" na cena londrina, e que a forma de tocar guitarra tinha acabado de ganhar um novo ponto de referência.
A primeira impressão ficou: segundo o próprio Gilmour, "assim que Jimi Hendrix surgiu, eu pensei: 'Sim, Jimi, eu quero uma fatia disso'". A frase resume bem o clima dos clubes ingleses naquele momento, em que músicos que já eram respeitados - gente da geração de Eric Clapton e Jimmy Page - também se viam obrigados a recalibrar seus padrões depois de ver Jimi em ação. Para um guitarrista que ainda buscava seu lugar, como Gilmour, aquela apresentação funcionou quase como uma aula ao vivo sobre o que seria possível fazer com bend, feedback, alavanca e imaginação.
Anos depois, a ligação entre os dois voltaria à superfície de um jeito totalmente diferente. Em 1970, Gilmour foi à Ilha de Wight como mais um fã no meio da multidão que queria ver Hendrix e outros grandes nomes do festival. Ele estava acampado em uma barraca quando resolveu dar uma passada nos bastidores e encontrou o roadie do Pink Floyd, Peter Watts, tentando organizar o som junto com o técnico Charlie Watkins. Os dois eram responsáveis por operar o sistema WEM Audiomasters e, naquela noite específica, tinham pela frente justamente o show de Hendrix.
De acordo com Gilmour, "eles estavam muito nervosos, eles tinham que mixar o som do Hendrix". Como ele já tinha alguma experiência mexendo em equipamento ao vivo, acabou sendo convocado para ajudar. O próprio guitarrista conta: "Como eu já tinha feito algumas coisas assim eles me pediram ajuda, então eu fui e fiz". Em vez de assistir ao concerto da plateia, ele passou a apresentação do lado do palco, ao lado da mesa de som, ajudando a domar o volume e o caos de um dos shows mais lembrados da carreira de Hendrix.
O detalhe curioso é que, até então, Gilmour ainda não conhecia Jimi pessoalmente. Tinha visto o guitarrista em ação naquele clube londrino lotado de estrelas, acompanhou a explosão da carreira dele à distância e, no fim das contas, acabou participando do festival da Ilha de Wight como uma espécie de "técnico extra" chamado às pressas para evitar que tudo desandasse. Foi assim, primeiro como espectador anônimo e depois como reforço improvisado na mixagem, que David Gilmour viu de perto dois momentos muito diferentes da trajetória de Jimi Hendrix.
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