O guitarrista que não sabia que gravou maior sucesso de Chitãozinho & Xororó
Por Gustavo Maiato
Postado em 26 de novembro de 2025
Não precisa ser fã, ouvinte ou apreciador de música sertaneja para reconhecer o verso "e nessa loucura de dizer que não te quero…". "Evidências", lançada por Chitãozinho & Xororó em 1990 no álbum "Cowboy do Asfalto", atravessou gêneros, gerações e classes sociais. Virou hino de karaokê, de estádio, de bar, de casamento. O que pouca gente sabe é que o solo de guitarra desse sucesso absoluto foi gravado por um guitarrista de rock – e ele nem fazia ideia de que estava participando daquela que se tornaria uma das músicas mais populares do país.

O responsável pelo solo é José Eduardo Fernandes Borges, o Faíska, figura lendária da guitarra brasileira, nascido e forjado no rock. Ele começou a carreira profissional no início dos anos 1970, acompanhando o cantor Eduardo Araújo. Em seguida passou pela banda Zhappa, onde tocou até 1979, e depois entrou para o Joelho de Porco, grupo que misturava irreverência, humor e rock e é apontado como um dos precursores do punk e do "rock humor" no Brasil.
O baixista do Joelho de Porco, Tico Terpins, era dono do estúdio Áudio Patrulha, que mais tarde ficaria conhecido como estúdio A Voz do Brasil. Foi ali que Faíska conheceu Zé Rodrix, que começou a chamá-lo para gravações de trilhas e jingles para rádio e TV. Esse período deu ao guitarrista uma enorme experiência como músico de estúdio: ele gravou o primeiro disco do grupo Tóquio (banda que revelou o jovem Supla), a música "Voltei pra Você", trilha de novela da Globo, e incontáveis comerciais para marcas como Coca-Cola, Skol e Duracell.
Como sideman, Faíska acompanhou uma lista impressionante de artistas brasileiros, sempre transitando com naturalidade entre estilos: Fagner, Ney Matogrosso, Ná Ozzetti, Rita Lee, Wanessa Camargo, Fábio Jr., Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó, entre muitos outros. Apesar disso, um dos trabalhos mais marcantes de sua carreira passou anos sem que ele mesmo soubesse da dimensão que tomaria.
O solo de "Evidências"
Em entrevista ao guitarrista Mateus Starling, Faíska contou que chegou ao solo de "Evidências" quase por acaso, chamado pelo maestro e arranjador Julinho Teixeira. "O Julinho estava fazendo os arranjos do disco e me chamou. Cheguei no estúdio Mosh, em São Paulo, e ele falou: 'Ó, tem um solo pra você fazer'", lembrou. Não havia voz gravada, não havia clima de "grande momento", nem briefing detalhado. "Era só isso que tinha para fazer no dia: um solo. Ele colocou a harmonia, eu dei uma passada, fiz o solo. Ele falou: 'Parou'. Eu ainda sugeri abrir uma segunda voz, e ele: 'Não, não precisa'. Fui embora."
Naquele momento, Faíska não imaginava que aquela sessão relâmpago faria parte da música que se tornaria onipresente no Brasil. "Eu só fui descobrir que tinha gravado esse solo quando um aluno me falou", contou. Por ser uma gravação de estúdio típica da época, ele nem tinha escutado a faixa pronta: "Eu só ouvi aquele trecho. Não tinha voz ainda. Quando ouvi a música depois, falei: 'Eu que fiz?'".
Tecnicamente, a gravação também foi simples e direta, no modo "músico de estúdio experiente". Faíska registrou tudo em linha, usando um pré da Marshall JMP-1, um compressor como boost e um delay Boss DD-3. "Esse pré salvou a minha vida gravando jingle", explicou. Acostumado a sessões cronometradas – com produtores dizendo que ele tinha poucos segundos para montar e desmontar equipamento –, o set compacto permitia tirar som rápido e consistente. O timbre de "Evidências" acabou ficando tão característico que o próprio guitarrista o reconhece como seu até hoje.
De acordo com o Blog Música Boa, o mais curioso é que, entre centenas de gravações, foi justamente esse solo simples e melódico que ficou marcado na memória do público. "Sabe por que esse solo? Porque ele é autêntico. É meu. Eu criei na hora", resume. Enquanto muitos guitarristas associam sua imagem a frases tecnicamente complexas, Faíska, eleito pelas revistas Bizz e Guitar Player como um dos dez melhores guitarristas do país e incluído pela Rolling Stone Brasil entre os 30 maiores ícones brasileiros da guitarra e do violão, viu seu trabalho mais reconhecido em um contexto completamente fora do rock.
A própria história de "Evidências" reforça a dimensão improvável do sucesso. Composta por Zé Augusto, a música chegou a ser recusada antes de ser gravada pela dupla sertaneja. Só depois da interpretação de Chitãozinho & Xororó a canção explodiu de vez, acumulando regravações e atravessando décadas. Em outra entrevista, Faíska contou, em tom bem-humorado, que o convite foi direto: "Me chamaram para gravar uma música do Chitãozinho & Xororó, que nem estavam lá. Então disseram: faça um solo do jeito que você quiser".
Anos depois, ao ser questionado se o sucesso estrondoso do hit o deixou rico, o guitarrista respondeu com ironia: "Eu deixei os dois ricos", referindo-se à dupla sertaneja.
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