Como dois argentinos moldaram o disco que redefiniu o rock brasileiro nos anos 1970
Por Gustavo Maiato
Postado em 05 de janeiro de 2026
O som inconfundível do Secos & Molhados não nasceu apenas das vozes marcantes de Ney Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo. O que realmente empurrou o grupo para um território mais ousado, elétrico e moderno veio de fora do país: dois músicos argentinos, Willy Verdaguer e Marcelo Frias, cuja chegada ao Brasil redefiniu completamente a direção musical daquela que se tornaria a banda mais impactante do rock nacional nos anos 1970.
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Durante conversa recente no canal do Andre Barcinski, o jornalista e biógrafo Miguel de Almeida, autor de "Primavera nos Dentes", explicou como o baixista Willy Verdaguer e o baterista Marcelo Frias - ambos argentinos - foram responsáveis por transformar o projeto inicial, que seria mais folk, em algo pulsante, moderno e alinhado ao rock internacional. Frias, que hoje vive em Florianópolis e aparece na capa do primeiro disco, lembrou sua chegada à banda e o impacto inesperado que tiveram.
Segundo Miguel, tudo começa com o grupo argentino Beat Boys, que tocava na noite paulistana, especialmente no Beco, casa noturna da Bela Cintra. Uma noite, após o show, foram chamados por um garçom para conhecer três pessoas que haviam adorado a apresentação. "Quando chegaram à mesa, ouviram: 'Prazer, eu sou Caetano Veloso. Prazer, sou Gilberto Gil. Prazer, sou Gal Costa'", contou o biógrafo. Os tropicalistas os convidaram para acompanhá-los em "Domingo no Parque" e "Alegria, Alegria".
Pouco depois, os músicos participaram da peça A Viagem, no Teatro Ruth Escobar, onde o jovem Ney Matogrosso integrava o coro. O espetáculo foi o ponto de encontro: João Ricardo e Gerson Conrad assistiram, ficaram impressionados e convidaram o grupo argentino - Frias, Verdaguer e o tecladista Emílio Carrera - para formar a base instrumental do Secos & Molhados. "Eles topavam tudo, o negócio deles era tocar", lembrou Miguel.
A entrada dos argentinos mudou radicalmente o som do grupo. A intenção inicial de João Ricardo e Gerson era algo na linha de Crosby, Stills, Nash & Young: três vozes, clima folk, arranjos minimalistas. Mas com Willy, Marcelo e Emílio, a banda ganhou contornos de rock preciso e atmosférico. "A bateria do Marcelo é maravilhosa, completamente diferente do rock praticado no Brasil", afirmou Miguel. Já Verdaguer trouxe linhas de baixo marcantes e arranjos sofisticados, como o início icônico de "Sangue Latino".
Miguel destaca que Willy Verdaguer fazia arranjos completos - muitas vezes em casa - sem sequer receber crédito financeiro por isso. Ele estruturava introduções, climas e transições, vestindo musicalmente composições que chegavam cruas ao estúdio. "Ele sabia criar atmosfera. Primavera nos Dentes, por exemplo, nasceu de arranjos inteiros escritos por ele", observou o jornalista.
Confira a entrevista completa abaixo.
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