O que Paulo Ricardo do RPM tem a ver com o primeiro disco do Iron Maiden que saiu no Brasil
Por Bruce William
Postado em 30 de janeiro de 2026
No início dos anos 1980, o Iron Maiden ainda não era esse nome "garantido" que hoje parece óbvio. E, no Brasil, heavy metal não era exatamente um terreno confortável para gravadora grande: a aposta do momento ia mais para o que era mais palatável e "de vitrine", enquanto o som pesado ficava com cara de risco, e para muita gente da indústria, "pauleira demais", sequer mensurável para ser considerado ao menos como algo de nicho.
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É nesse cenário que aparece Paulo Toledo, o Paulinho Heavy, funcionário da EMI-Odeon em São Paulo. Em relato publicado na edição 139 da Roadie Crew (que pode ser adquirida aqui), ele conta que topou com a cara do Eddie num anúncio de revista gringa e ficou fisgado. A curiosidade virou insistência: ele pediu material para a matriz, ouviu "não", correu por fora, e quando colocou as mãos em gravações do Maiden decidiu que aquilo tinha mercado, mesmo com a gravadora apostando em outras "ondas" na época.
Só que "ter mercado" é diferente de fazer uma multinacional acreditar. E ele foi montando a prova do jeito mais braçal possível: gravou fitas, distribuiu para vendedores e jornalistas, colheu reação, organizou em relatório e foi martelando isso internamente. Até que o processo virou: com "The Number of the Beast" já chegando com LP, fotos, release e brindes, o recado veio em forma de condição: se entrasse uma crítica bem feita numa revista grande e o disco tocasse numa rádio grande, o lançamento acontecia.
É aqui que entra Paulo Ricardo Medeiros, antes do RPM virar RPM. Segundo o relato do Paulinho Heavy, ele precisava "cravar" a resenha na SomTrês, e usou uma isca que crítico nenhum despreza: um "Undercover", dos Rolling Stones, recém-chegado e disputado a tapas. O Paulo Ricardo topou, ouviu o disco e escreveu a crítica que ajudou a empurrar a engrenagem.
E não foi só "mais uma resenha no papel". Fernando Souza Filho, que viraria redator-chefe da Rock Brigade, contou que a resenha do Paulo Ricardo na SomTrês foi a faísca para ele comprar o LP, e que dali em diante "a vida mudou para sempre": "Minha paixão pelo rock começou com onze anos de idade, quando comecei a prestar atenção naqueles tais de Beatles. (...) Depois, vi na revista Som Três uma resenha do 'The Number Of The Beast' (Maiden), comprei o LP e minha vida mudou para sempre."
Na outra ponta, veio o rádio. Paulinho Heavy levou a faixa-título para a Rádio Excelsior, no programa Rock Sandwich, apresentado por Leopoldo Rey e Kid Vinil. A história tem cara de bastidor mesmo: o cara da rádio avisando que, se fosse ruim, não tocava porque "os ouvintes matam", ouvindo a música e mudando de ideia ali na hora. Com o som entrando pesado no programa, Paulinho voltou para a gravadora pedindo urgência, porque aquilo ia virar procura de loja.
Virou. Teve lojista deixando o vinil rolando para sentir a reação do balcão e ouvir a pergunta clássica ("Nossa, o que é isso?"). Teve vendedor indo para a rua com a gravadora ainda meio sem plano, e depois a empresa correndo atrás do próprio prejuízo por não ter dimensionado o apetite do público. É o tipo de cena que explica por que "The Number of the Beast" acabou virando "a porta de entrada" do Iron Maiden por aqui para tanta gente, com o disco aparecendo ao mesmo tempo em revista, rádio e loja.
Do lado do Paulo Ricardo, existe também a perspectiva de quem viu a banda "por dentro", no calor do momento, e isso dá outra cor para a história. Ele resumiu assim uma lembrança de Londres: "Fui um dos poucos jornalistas do mundo convidados pra assistir à estreia da turnê em Birmingham. Eu tava morando em Londres e fui como correspondente. Tem até uma foto minha tirando uma foto do Bruce Dickinson".
E, no texto da revista-pôster sobre a banda assinada por ele, lançada pouco tempo depois, aparece a frase que liga as duas pontas de um jeito limpo e direto: "Antes de deixarem a Europa, o álbum estava em primeiro lugar. Após o delírio generalizado da tour, haviam vendido dois milhões de cópias. Era, sem dúvida, seu melhor álbum até então. Inclusive, foi o primeiro a sair no Brasil, graças à insistência de Paulinho Toledo, da Odeon-SP."
Em outro trecho do texto da revista-pôster, Paulo diz: "Entre um gole e outro, descubro que eles estão se preparando para uma viagem de divulgação pela América Latina e que já está tudo acertado para alguns programas de televisão no Rio - além da abertura do Rock in Rio Festival, é claro. (Não se preocupem - eu os convenci de quão numerosos são seus fãs no Brasil. E mais: de que São Paulo é o grande antro do heavy e do rock em geral. Portanto, aguardem. Eles estão vindo mesmo.)"
A história, quando você junta tudo, fica bem concreta: um cara dentro da gravadora insistindo até virar "missão", uma resenha publicada na revista certa na hora certa, uma rádio colocando o disco no ar com vontade, e o público reagindo com aquela curiosidade que vira compra e vira hábito. E aí o Paulinho ganha o apelido de "descobridor" e o Paulo Ricardo entra como um dos personagens dessa engrenagem - não como "responsável pelo Maiden", mas como alguém que, por acaso (e por ouvido), ajudou a acender o pavio no lugar onde a maioria descobria música naquela época: revista e rádio.
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