O álbum do rock nacional dos anos 1980 que Prince adorou quando ouviu
Por Gustavo Maiato
Postado em 10 de fevereiro de 2026
Nos bastidores da música brasileira dos anos 1980, um episódio pouco conhecido conecta os Titãs, André Midani e o lendário Prince. A história, relatada no livro "A Vida Até Parece uma Festa", mostra como a inventividade da banda paulistana ultrapassou fronteiras - a ponto de despertar a atenção de um dos maiores gênios da música pop mundial.
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Na época, o presidente da WEA, André Midani, era mais do que um executivo - era um verdadeiro entusiasta dos Titãs. Fascinado pela ousadia sonora e lírica do grupo, ele não se limitava a promover os artistas no Brasil: enviava cópias de seus discos para amigos influentes ao redor do mundo. Um desses amigos era Steve Fargnoli, empresário de ninguém menos que Prince.
Ao receber de Midani um exemplar de "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" (1987), Prince ficou impressionado com o que ouviu. Fargnoli ligou de volta para o executivo brasileiro com uma notícia surpreendente: "André, o Prince gostou muito do trabalho dos rapazes e queria convidá-los para abrir sua próxima turnê."
Titãs e Prince
Midani, experiente no show business, preferiu conter o entusiasmo e esperar até que o convite fosse formalizado - o que, infelizmente, nunca aconteceu. Prince acabou mudando de ideia e o assunto não voltou a ser mencionado. Ainda assim, o episódio simboliza o quanto os Titãs, naquele momento, estavam no auge da criatividade e prontos para cruzar fronteiras.
O disco que despertou a admiração de Prince era, de fato, uma ousadia. "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" misturava rock, samba, funk e experimentalismo com letras ácidas e provocativas - um retrato da inquietação social e artística do Brasil da época. Produzido por Liminha, o álbum consolidou a maturidade musical do grupo e é considerado por muitos críticos o ponto alto da carreira dos Titãs.
André Midani não poupava elogios. "Os Titãs são o fato musical mais importante depois da Tropicália", afirmou o presidente da WEA. E ele não dizia isso apenas como gesto de marketing. O entusiasmo era genuíno: Midani via nos Titãs uma reinvenção do espírito criativo que havia transformado a música brasileira nas décadas anteriores.
Até mesmo Caetano Veloso e Raul Seixas, em entrevistas da época, exaltaram a banda. Caetano afirmou: "Atualmente, o que de melhor se tem na música brasileira são os Titãs." Raul completou com seu habitual olhar filosófico: "Dos conjuntos modernos, os melhores são o Camisa de Vênus e os Titãs, porque os outros não têm metafísica."
A curiosa relação de Prince com o Brasil
Genial, misterioso e profundamente excêntrico, Prince construiu uma carreira marcada tanto pela genialidade musical quanto por uma aura de mistério que o acompanhava dentro e fora dos palcos. Sua relação com o Brasil, embora pontual e cercada de episódios enigmáticos, sempre despertou fascínio - tanto entre fãs quanto entre artistas que cruzaram seu caminho, literalmente ou não.
Muito antes de sua estreia oficial no país, no Rock in Rio de 1991, Prince já era uma figura mítica no imaginário brasileiro. E, curiosamente, dois encontros ajudam a compreender o quanto ele despertava admiração e perplexidade: um com Caetano Veloso, outro com o jornalista André Barcinski.
Em uma entrevista concedida à revista Bizz em 1986, Caetano Veloso relembrou um episódio inusitado. Durante uma suposta visita de Prince ao Brasil - anterior à sua primeira apresentação no país -, o cantor baiano ficou impressionado com a quantidade de seguranças que cercavam o astro norte-americano.
Segundo Caetano, a cena parecia exagerada. Sem papas na língua, ele resolveu questionar o próprio Prince: "Escuta, cara, você está cercado de gorilas e isso é uma coisa desagradável e desnecessária." Prince, sempre enigmático, respondeu com naturalidade que o aparato era necessário: "As pessoas são muito atrevidas e entronas", teria dito.
Para Caetano, a resposta refletia um tipo de medo quase teatral - uma reação desproporcional diante de um público que, segundo ele, "nem estava nessa de invadir a vida do artista". O episódio revelou o choque entre duas visões de mundo: a espontaneidade tropicalista e o controle absoluto do astro norte-americano sobre sua própria imagem.
Anos depois, o jornalista André Barcinski viveu sua própria "aventura à la Prince". No início dos anos 1990, ele foi convidado a entrevistar o músico em Nova York - um feito raro, já que Prince quase nunca falava com a imprensa. Mas o encontro foi digno de um filme de espionagem.
Barcinski contou que recebeu apenas um endereço genérico, uma esquina de Manhattan. Lá, um carro o buscou e o levou a um prédio secreto, onde foi informado de uma série de regras absurdas: não poderia gravar, anotar, levar papéis ou sequer apertar a mão do artista. "Eu não podia nem chamá-lo de Prince - tinha que dizer 'The Artist'", recordou o jornalista.
Segundo ele, Prince acreditava que as pessoas queriam gravar sua voz para samplear em outras músicas, o que explicava sua obsessão por controle. "Parecia que eu ia encontrar uma criatura do espaço", brincou Barcinski.
Mas quando finalmente o astro apareceu, vestido inteiramente de verde e com um sorriso cortês, a tensão se dissipou. "Ele mesmo quebrou o protocolo, me deu a mão e foi simpático", contou. "Era muito mais normal do que toda a preparação fazia parecer."
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