O polêmico disco nacional que Renato Russo disse ser um dos melhores do rock de todos os tempos
Por Bruce William
Postado em 22 de janeiro de 2026
Os trechos a seguir estão no livro "Renato Russo de A a Z" (Amazon), organizado por Simone Assad e lançado em 2010 pela Editora Letra Livre. A proposta é montar um "dicionário" do Renato em 453 verbetes, a partir de pesquisa e análise de entrevistas, reportagens, artigos, livros, especiais de TV e rádio, além de um levantamento de bases de dados sobre a Legião e o próprio Renato na internet.
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Em 1989, quando ele fala de música, dá pra ver como esse repertório começa cedo e passa por filtros bem pessoais. Renato lembra que o primeiro disco que pediu, ainda criança, foi dos Beatles: "Meu primeiro disco, eu me lembro - tinha 5 para 6 anos - foi um dos Beatles. Eu pedi qualquer coisa dos Beatles. Meus pais não compravam LP, era muito caro, mas o disquinho eles compraram. E esse disquinho tinha quatro músicas, em vez de duas. Tinha 'Twist and Shout', 'Do you want to know a secret' e mais duas de que não lembro."
Ainda nessa mesma fase, ele comenta um álbum brasileiro que o marcou pela construção da letra e pelo efeito que aquilo teve nele como compositor. "Um disco que me marcou muito foi 'Construção', do Chico Buarque. Aquela coisa da primeira letra feita com proparoxítonas - plástico, tráfego... -, todo mundo comentou na época. Eu fiz uma anotação mental: se algum dia eu escrever alguma coisa, será algo assim. Depois, fui aprendendo a deixar apenas o essencial. Mas as letras da Legião não têm nenhuma palavra difícil: 'Todos os dias quando acordo/Não tenho mais o tempo que passou'..."
Já em 1995, Renato faz um comentário que interessa direto pra quem gosta de rock nacional, porque ele não fala só em "curtir banda": ele puxa um recorte bem específico e cita um disco na lata. "Têm alguns grupos que eu respeito para caramba. Os Titãs, principalmente da época do Arnaldo [Antunes]. Acho 'Jesus não tem dentes no país dos banguelas' um dos melhores discos de rock de todos os tempos." Ele não coloca o trabalho apenas como "um bom disco", mas como um dos melhores do rock, sem adjetivo extra.
No mesmo trecho, ele abre o leque do que ouvia e mostra que aquela fase "só rock" já não era o lugar onde ele queria ficar preso. "Geralmente, gosto de ouvir outras coisas, como Kid Abelha e Paralamas. Já ouvi muito Pink Floyd, aquele disco da vaca ["Atom heart mother"]. Era só acordar e ir direto ouvir, até furar. Não tenho mais 14 anos, estou a fim de ouvir outros sons, além de rock."
E em 1996 ele volta ao Paralamas, mas por um ângulo que costuma render conversa entre músicos: demo. "As melhores coisas são as demos dos Paralamas. No dia em que você ouvir a demo de 'A dama e o vagabundo', você vai dizer: 'Esta é a melhor banda do universo!'"
No conjunto, essas falas acabam desenhando um mapa simples: Beatles na infância, Chico como "aula" de letra, rock nacional com preferência bem pontual (e bem explícita), e uma curiosidade que vai além do disco pronto.
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