O cantor amado por roqueiros e cheio de Grammys que Ian Anderson achava ter uma voz ridícula
Por Bruce William
Postado em 22 de março de 2026
Ian Anderson sempre foi um sujeito pouco inclinado a seguir as normas ditas "de senso comum". Desde o começo do Jethro Tull, preferiu buscar um caminho próprio em vez de tentar entrar na fila do blues rock inglês mais previsível. Talvez por isso ele também tenha desenvolvido um ouvido meio impaciente para certos maneirismos vocais que boa parte do público simplesmente aceitava como parte do jogo.
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Entre os nomes que mais chamaram sua atenção nesse sentido estava Elton John. Não por falta de talento, muito menos de sucesso. Afinal, Elton construiu uma das carreiras mais impressionantes da música popular, colecionou sucessos gigantescos e empilhou Grammys ao longo das décadas. O que incomodava Anderson era outra coisa: a diferença entre a voz falada e a voz cantada, especialmente quando ela ganhava um sotaque americanizado que, para ele, soava artificial.
Ao comentar esse assunto para a Rebeat Magazine, Anderson colocou Mick Jagger e Elton no mesmo balaio, embora com graus diferentes de tolerância. Sobre Elton, ele disparou: "E há outras pessoas que também cantam com sotaques americanos ridículos, como Elton John. Ele não soa assim de jeito nenhum quando fala; ele apenas coloca essa vozinha boba para cantar."
A crítica tem tudo a ver com a maneira como Anderson enxerga autenticidade. Em uma entrevista mais antiga na Ultimate Guitar, ele já havia dito que achava absurda essa mania de artistas britânicos assumirem um cacoete norte-americano totalmente diferente da fala normal. Para ele, aquilo não refletia origem, não refletia experiência de vida e, em alguns casos, beirava a caricatura. Era como se o cantor deixasse de interpretar uma música e passasse a interpretar um personagem.
Claro que, no caso de Elton John, a história não é tão simples quanto a bronca de Anderson faz parecer. Há muitas gravações em que a voz de Elton aparece de forma bem menos "fantasiada", especialmente nas baladas, e isso ajuda a explicar por que tanta gente nunca viu problema nenhum nisso. Além do mais, parte desse jeito de cantar vinha justamente do amor que Elton e Bernie Taupin tinham pela música americana, pelo cinema de faroeste e por todo aquele imaginário que eles absorveram desde cedo.
Também pesa aí o fato de que o rock britânico inteiro cresceu olhando para os Estados Unidos. Blues, rhythm and blues, country, gospel, soul: quase todo mundo daquela geração bebeu nessa fonte. A diferença é que alguns incorporaram isso de maneira mais discreta, enquanto outros deixaram mais visível na pronúncia, no fraseado e na impostação. Anderson, com seu apego maior à própria dicção e à própria identidade vocal, claramente ficava do lado dos que torciam o nariz para esse tipo de transformação.
Chega a ser curioso que a implicância dele tenha recaído justamente sobre um cantor reverenciado por músicos de todo tipo, de roqueiros clássicos a pianistas pop, e cuja prateleira de prêmios inclui vários Grammys. Ou seja: Elton John podia até soar "ridículo" aos ouvidos de Ian Anderson em certos momentos, mas isso não o impediu de virar Elton John. Às vezes a voz que parece exagerada para um sujeito é exatamente a que outro ouve e reconhece na primeira nota.
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