O clássico do metal com solos de guitarra "sem nada a ver com música", segundo Rick Rubin
Por Bruce William
Postado em 18 de abril de 2026
Rick Rubin nunca foi o tipo de produtor que precisava impressionar alguém com virtuosismo. O forte dele sempre esteve mais no ouvido, no clima e na capacidade de perceber quando uma gravação tinha chegado ao ponto certo. Às vezes isso significava cortar notas, enxugar arranjo ou deixar a música respirar. Outras vezes, significava fazer exatamente o contrário e abraçar o caos sem pedir desculpa a ninguém.
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Foi mais ou menos isso que aconteceu quando ele trabalhou com o Slayer em "Reign in Blood", de 1986. Em vez de tentar domesticar o que Kerry King e Jeff Hanneman faziam na guitarra, Rubin entendeu que aquela brutalidade meio torta era parte essencial do disco. E ele foi franco ao explicar isso, em fala publicada na Far Out. "Eu adoro os solos desse disco porque eles não têm nada a ver com música. É só sobre velocidade. Quão rápido uma guitarra, ou qualquer coisa, consegue tocar? Vamos usar essa guitarra, porque é o que temos aqui, mas isso não tem nada a ver com tocar guitarra ou com música."
A fala continua e fica ainda melhor. Rubin observou que o Slayer tinha dois guitarristas solistas trocando solos o tempo todo, e que "nenhum deles fazia sentido". Num contexto mais careta, isso poderia soar como crítica pesada. No caso dele, era quase o oposto. O produtor estava dizendo que aqueles solos funcionavam justamente por não tentarem soar bonitos, coerentes ou organizados. Eram rajadas de ruído, desorientação e violência, o que casava perfeitamente com a proposta da banda.
E faz sentido. "Reign in Blood" não é disco para soar equilibrado ou elegante. É uma pancada curta, tensa e claustrofóbica, feita para deixar o ouvinte meio sem ar. Dentro disso, os solos de Kerry King e Jeff Hanneman cumprem um papel importante demais para serem tratados só como exibicionismo. Eles não estão ali para mostrar refinamento. Estão ali para empurrar a música para um lugar ainda mais descontrolado. Em faixas como "Angel of Death" e "Raining Blood", esse tipo de solo parece menos um enfeite e mais uma continuação natural da carnificina sonora.
A lógica aparece também fora do Slayer. O próprio Kerry King levou esse mesmo espírito para "No Sleep Till Brooklyn", dos Beastie Boys, arrancando da guitarra sons que pareciam feitos para incomodar mais do que para agradar. Qualquer produtor mais tradicional talvez mandasse voltar e gravar "direito". Rubin viu ali exatamente a sujeira certa para aquele momento. Era a velha história de entender o instrumento dentro da música, e não como vitrine de manual técnico.
Também ajuda lembrar que Rubin nunca tratou paixão e intensidade como coisas separadas de forma rígida entre gêneros. O mesmo sujeito que sabia achar o ponto de uma gravação do Tom Petty ou do Johnny Cash era capaz de olhar para o Slayer e perceber que ali o acerto não estava na limpeza, mas no exagero. Não era questão de fazer os guitarristas "soarem melhor". Era deixar que soassem como precisavam soar. E talvez por isso "Reign in Blood" continue parecendo tão extremo, tão seco e tão difícil de imitar quase 40 anos depois.
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