Edu Falaschi: Comentários sobre o projeto Almah e sobre o Angra
Por Bruno Sanchez
Postado em 08 de agosto de 2006
Em meio à correria com o fim da turnê do Temple Of Shadows do Angra e o início da preparação do 6º álbum de estúdio da banda, o vocalista Edu Falaschi se mostrou mesmo um workaholic e em poucos meses gravou, produziu e lançou seu primeiro álbum solo, Almah. Em um bate papo com o Whiplash!, Edu nos contou sobre essas experiências, seu projeto solo e, lógico, um pouquinho sobre o futuro do Angra.
Whiplash! - Edu, Como surgiu a idéia de lançar um álbum solo?
Edu - Eu estava em meio à tour mundial do Temple Of Shadows. Nas horas vagas eu ficava com a família e aproveitava para compor e gravar as idéias. Depois de um tempo, percebi que tinha um ótimo material em mãos, então resolvi gravá-las para valer em um álbum solo.
Whiplash! - Mesmo com toda correria do Angra nos últimos anos, como você conseguiu tempo para as gravações?
Edu - Eu sempre dou um jeito, realmente é uma correria mas como faço o que amo, não é como uma obrigação, eu não encaro a música como um trabalho, apesar de viver só disso. Mas acho que quando a gente faz o que ama, tudo fica mais fácil.
Whiplash! - Músicos de várias bandas como Nightwish, Stratovarius e Kamelot participam de seu trabalho solo, como rolou a idéia de chamar esse pessoal e os convites?
Edu - Eles são grandes músicos, personalidades e principalmente são grandes amigos! Tudo isso fez com que eu decidisse chamá-los. Todos tocam muito bem e eu tinha em mente que esses caras eram perfeitos para gravar as músicas do Almah. Daí foi tudo natural: após eu mandar a demo, eles rapidamente responderam que adoraram o som o que foi essencial para as músicas saírem com uma puta energia e não parou por aí, tenho muitos convidados além do Emppu, Lauri e Casey. Tive a alegria de poder contar com Mike Stone do Queensryche e Edu Ardanuy fazendo alguns solos de Guitarra, além dos irmãos Busic do Dr. Sin e Tito Falaschi para fazer alguns backing vocals. Também não posso deixar de citar as participações de Fábio Laguna, tecladista do Angra, Sizão Machado no Baixo "Fretless". Ele é um dos mais renomados baixistas da MPB, já tocou com Tom Jobim, Elis Regina, Djavan entre outros. Tem também a presença do mestre Marcus César na Percussão, Luís Galdinho no Violino e do Coral Gospel do Robson Nascimento, o Papa da música Gospel no Brasil. Além de ter sido mixado por Adriano Daga, que tem um talento indiscutível. Esse álbum conta com um grande time que certamente fez toda diferença.
Whiplash! - Por razões óbvias, sabemos que é impossível juntar todos os músicos que trabalharam com você para uma turnê, mas existe a possibilidade de algum show especial com todos que gravaram o Almah?
Edu - Realmente fica difícil conciliar a agenda de todos, mas a gente está sempre em contato. Não sei quando, mas pode rolar sim. O Emppu, Lauri e Casey deixaram claro que estão a fim de tocar com o Almah quando possível. Os shows no Brasil deverão acontecer somente em Setembro, pois não terei muitos dias disponíveis por causa da minha agenda com o Angra, mas de qualquer forma tem muita gente pedindo shows do Almah pelo Brasil. Estou escolhendo os músicos, quero montar um grande time para esta mini tour e tornar o show algo ainda mais interessante não só pelas músicas, mas também por causa dos meus convidados.
Whiplash! - Logo de cara, uma das principais diferenças entre o Almah e os últimos trabalhos do Angra é o seu vocal, soando bem mais agressivo, especialmente nas primeiras faixas. Por que a escolha nos vocais mais fortes?
Edu - Na verdade, cantar mais grave e mais pesado sempre foi mais a minha praia mas tem coisas que não ficam legais de fazer no Angra em virtude da essência da banda. O Almah é um projeto novo, isso me dá muito mais liberdade pra buscar diferentes modos de cantar e compor.
Whiplash! - As letras também são bem introspectivas e todas tratam sobre sentimentos, podemos considerar o Almah como um álbum conceitual?
Edu - Não o considero conceitual mas é um álbum centrado e objetivo certamente, porém cada letra tem sua própria vida.
Whiplash! - Particularmente, gostei muito da Children of Lies e o conceito do tempo destruindo a alma humana. Qual a mensagem que você quis passar com esta faixa?
Edu - Essa música fala sobre traição, um sentimento que é cultivado através dos tempos por muitas pessoas e, para ilustrar tal assunto, eu cantei a história de Tutankhamon, o último Rei da 18º Dinastia (no Egito), que governou menos do que dez anos e morreu traumaticamente assassinado pelos próprios sacerdotes que o criaram desde criança.
Whiplash! - Posso estar errado mas sinto suas letras bem pessimistas quanto ao presente, quais suas perspectivas para o futuro?
Edu - Eu procurei colocar as coisas como elas são nos dias de hoje. Infelizmente não podemos fantasiar que o mundo está uma maravilha e que a raça humana está no auge de sua evolução. Temos evoluído bastante desde a Idade Média, mas temos muito que aprender ainda, principalmente em relação a nossa evolução cultural e nossas atitudes. Eu sinto que o sentido de "humanidade" que existe dentro de cada um está cada vez mais perdido, mas apesar disso eu procurei evidenciar os pontos positivos sobre cada sentimento e levantar questões que pudessem ajudar a pensar no que estamos fazendo com nossas ações, que tipo de sentimento cada um cultiva e desenvolve e o que fazer pra tentar tornar positivo o que está negativo, por isso todo o álbum tem uma atmosfera bem pra cima, principalmente nas harmonias e melodias. Mesmo nas músicas que falam de sentimentos ruins, eu procurei fazer com que a música em si soasse positiva.
Whiplash! - O fato de o álbum ter saído em um ano eleitoral foi uma ótima coincidência. Como você acha que cada pessoa pode ajudar a mudar um país ou mesmo um planeta?
Edu - As atitudes de cada um fazem a diferença no conjunto, isso é fato. O Brasil ainda é um país que não pensa muito no coletivo e sim no individual. Isso gera uma série de problemas de ordem social e, com o tempo, as coisas vão saindo do controle. Seria ótimo se o disco do Almah pudesse contribuir, mesmo que com o mínimo, para que as pessoas enxergassem o mundo por um prisma mais justo e menos unilateral.
Whiplash! - Pegando até um pouco da idéia do Temple Of Shadows, você acredita que a religião ajuda ou atrapalha no desenvolvimento humano?
Edu - A fé é muito importante, é a essência da vida, mas quando isso se confunde com o fanatismo e a ignorância. Aí certamente o desenvolvimento humano está comprometido.
Whiplash! - Você mesmo foi o responsável pela produção do CD, como rolou essa experiência?
Edu - Foi magnífico produzir o Almah, foi um grande aprendizado. Eu fiz tudo desde o início, desde toda composição, arranjos, escrever as letras, convidas os músicos, ver os estúdios, gravadoras, acertar as viagens, agendas, etc. Não foi nada fácil e eu não tinha muito tempo. Por isso tive que me organizar para conseguir concluir o projeto, tive que viajar pra Finlândia pras gravar Guitarra e Baixo. Fiz as gravações das Baterias nos EUA e todo resto aqui no Brasil. Tive contato com muitas pessoas de diferentes culturas, isso foi o melhor, fazer amigos e pensar na música acima de tudo.
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Whiplash! - Esse álbum já disse tudo o que você gostaria ou você planeja um segundo lançamento solo?
Edu - O projeto Almah está livre para o que vier. Esse é um trabalho que estou fazendo sem pensar em tempo ou qualquer tipo de pressão. Tudo acontecerá normalmente. A música, como eu já disse, é o que importa na minha vida. Estou compondo sempre e já tenho algumas músicas bem legais. Quando possível, devo lançar o segundo disco do Almah, mas sempre será um projeto solo de Edu Falaschi, por isso pode soar diferente do primeiro e ter outros músicos convidados e, claro, continuo compondo e me dedicando ao Angra. Temos muitos projetos para o futuro e isso é bem estimulante.
Whiplash! - Os setlists dos shows do Almah trarão músicas de suas bandas antigas ou mesmo do Angra?
Edu - Eu quero montar algo diferente. Cantarei músicas do Almah, Symbols, Angra e alguns covers. Quero fazer um show que seja uma oportunidade dos fãs verem algo inédito e interessante.
Whiplash! - Edu, falando um pouco do Angra, qual o balanço final da turnê do Temple Of Shadows?
Edu - Extremamente positivo. Foi uma tour bem longa e cansativa mas os resultados finais são bem animadores. Muitas portas foram abertas, conquistamos muitas coisas juntos. Estamos ainda mais felizes com o novo álbum que sairá em breve. Entre erros e acertos, aprendemos muito com tudo isso, agora estamos nos organizando e nos preparando para a próxima tour mundial que divulgará o sexto disco de estúdio do Angra.
Whiplash! - É verdade que você esteve doente durante grande parte da turnê?
Edu - Infelizmente tive alguns problemas pulmonares durante a turnê. Muitos vocalistas, devido ao excesso de trabalho, acabam tendo problemas, não fui o primeiro nem o único, mas isso já faz tempo. Agora estou mais de olho na minha saúde do que antes. O importante é que estou bem, com a saúde em dia e me preparando para fazer uma grande turnê mundial com todo meu potencial.
Whiplash! - Como estão os trabalhos com o novo disco?
Edu - Praticamente acabamos. Agora é só esperar a mixagem e começar todo trabalho de divulgação.
Whiplash! - Ele será um álbum conceitual como o Temple Of Shadows?
Edu - Não! É algo novo, com uma sonoridade nova, com bastante energia e virilidade. O pulso desse álbum é demais.
Whiplash! - E quanto à sonoridade? Seguirá uma linha mais progressiva?
Edu - Esse álbum, acho que está mais direto, porém com os músicos que o Angra conta, no mínimo qualquer trabalho se torna sofisticado e de respeito.
Whiplash! - Você pode nos adiantar os nomes de algumas faixas e do álbum?
Edu - Ainda não posso divulgar...
Whiplash! - O álbum terá convidados especiais?
Edu - Esse álbum está mais focado nos próprios integrantes do Angra. A unidade encontrada por nós cinco é o elemento principal do disco.
Whiplash! - Algumas bandas estão lançando regravações de velhos álbuns ou mesmo coletâneas de músicas antigas, mas com a formação atual como o Testament, o Gamma Ray e o Running Wild. O Angra tem algum plano nesse sentido?
Edu - Por enquanto não. Estamos com um trabalho inédito e focado no futuro. Nada impede de lançarmos uma coletânea, tudo bem, mas o Angra está sempre voltado para o futuro.
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