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A estreia do Dire Straits era um álbum assustadoramente maduro

Resenha - Dire Straits - Dire Straits

Por Carlos Swancide
Postado em 18 de fevereiro de 2023

A estreia da banda liderada por Mark Knopfler ocorreu após uma longa estadia no underground, conhecidos como Café Racers. O nome original da banda trazia uma ambiguidade interessante: a sonoridade morosa emoldurava tardes nostálgicas nos cafés parisienses, longe do apressado ritmo adotado pelo Punk Rock e pela Disco, estilos reinantes nas ilhas britânicas em fins da década de 70. Dire Straits, por outro lado, remetida à penúria da banda e da juventude britânica do "No Future".

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Os Straits – Mark nas guitarras e vocais, o irmão Dave Knopfler (guitarra base, vocais de apoio), John Ilsey (baixo, vocais de apoio) e Pick Withers (bateria) – também não viam com nitidez um futuro no horizonte. Influenciados pelo Blues, Country e Rock dos pubs londrinos, seus sons miravam o retrovisor. Suas narrativas, tiradas do cotidiano de jovens trabalhadores e da poesia universitária, remetiam a Bob Dylan e Neil Young, referências de gerações anteriores.

Assim equipados para a peleja musical, os Straits pareciam ter poucas chances de sucesso numa época em que o Rock era redefinido forçosamente (uma vez mais) pela rebeldia juvenil. Sua estreia é assustadoramente madura, desse ponto de vista – talvez mesmo definitiva. Ao passo que, emocionalmente, "Dire Straits" nos convida a uma montanha-russa emocional, do sexo à saudade, embebidos em Blues, licks do Country e pequenas crônicas do dia-a-dia durango do fim de século.

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Surgindo da névoa da produção de Mervyn "Muff" Winwood (irmão de Steve), "Dire Straits" acena para o presente com um olhar sarcástico enriquecido por um passado precocemente esquecido. "Down to the Waterline" reconta encontros amorosos á beira-rio, entremeados pelos riffs virtuosos de Knopfler – o último dos heróis da guitarra. A estrutura da faixa se beneficia da sonoridade compacta e esparsa, faiscante. Os grunhidos narrativos de Mark caem mais suaves que os de Dylan.

De repente, as influências da banda estariam de joelhos, implorando por uma jam. Em 1979, Bob Dylan incluiu Knopfler nas gravações de "Slow Train Coming". Seria "Down to the Waterline" –clássico imediato e faixa de abertura – o cartão de visitas da última novidade do Rock tradicional?

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O ritmo desacelera para a nostalgia inquieta de "Water of Love" e descobrimos quão bons os Straits são em diferentes ritmos. A meditação Country (remanescente do Fleetwood Mac de "Rumours") se desenrola pelas lembranças (ou seriam imagens) de Knopfler até a melodia final prenunciar "All I Wanna Do" de Sheryl Crow – artista Country que cruzou as fronteiras para o superestrelato Pop.

Em seguida, vemos a matriz da sequência de faixas de "Dire Straits" remeter a J.J. Cale e Eric Clapton. "Setting Up" soa como um clássico perdido do Rockabilly ou um número obscuro de Blues. Nas mãos dos Straits, o efeito é simultaneamente hipnótico e cinético. O próprio Clapton gravaria a faixa em seu disco ao vivo no Japão "Just One Night" (1980). Com um grupo mais qualificado que os auxiliares de Cale e Clapton, e com Knopfler soando mais próximo da crueza minimalista do Blues, temos um outro clássico imediato na beira inicial do disco. Já o "mão-lenta" Eric tentaria compensar com entusiasmo vocal sua versão ao vivo apenas adequada, carimbando o sucesso dos recém-chegados.

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"Six Blade Knife" dá seguimento à primeira metade da bolacha com um lamento Country em modo J.J. Cale a pleno vapor (qual seja, em banho-maria). Enquanto o instrumental minimalista tece litros de paixão irresoluta, Mark se aproxima da amoralidade casual do trovador de Oklahoma, ao murmurar que os seis gumes podem fazer tudo o que você quiser...No mais, o coração dos "Dire Straits" é cortado devagar pelas seis cordas de Knopfler e pelo mantra vocal do desconforto aberto.

O Lado A impecável se encerra – algo preguiçosamente – com "Southbound Again". Recuperando "Setting Up" numa teia de aranha rockabilly, os Straits propõem um lado B dos Allman Brothers (inclusive, a faixa lembra de leve "Southbound" dos mestres). De repente, as influências pesam mais do que a alquimia da banda. Se Dylan cantasse Southern Rock, possivelmente teríamos algo assim.

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Em discos de Cale, o hit estava reservado para o Lado B ("After Midnight" ou "Cocaine"). Fiéis ao costume, Dire Straits guardou sua pérola para aparição apenas como a 6ª música da estreia.

"Sultans of Swing", como "Smoke on the Water" do Deep Purple, recontava imaginativamente ocorrências da vida real (a trajetória da banda, tocando em muquifos por quase uma década e a vida dupla dos músicos da noite). Como o clássico púrpura, "Sultans" contém licks de guitarra inconfundíveis, os últimos suspiros do Rock clássico diante de sua reinvenção por Eddie Van Halen (que estreou com sua banda meses antes). Alternando solos lânguidos e riffs faiscantes, que encaixaram no canto-narração com esmero, os Straits deram à década uma saída do beco dos virtuosos, favorecendo a canção sem perder de vista a técnica. Doravante, ninguém os confundiria com outra banda de Rock dos pubs. A letra espelha essa grandeza, começando como uma narrativa em terceira pessoa até o clímax, no qual Mark nos revela que eles, enfim, são os Sultões. A trilha memorável, de confecção minuciosa e performance legendária levou quase um ano até chegar ao Top 10 nos dois lados do Oceano Atlântico. Uma vez sedimentada a fama dos Straits, a banda teria dificuldade em se reaproximar de riffs assim no futuro (até a chegada dos sintetizadores, em 1985).

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Mantendo o padrão de alternar uma faixa agitada com uma mais calma, "In the Gallery" segue com um sacolejo Reggae malemolente, contra o pano de fundo do qual Knoplfer tece ácida crítica ao poder definidor dos críticos na Arte. O vocal enfezado e a insatisfação do homem comum diante dos mistérios da estética contemporânea prenunciam "Money for Nothing". Outra semelhança é a absorção de sonoridades contemporâneas – no caso, o Reggae – quebrando a fila do Rock clássico. Ao final, a faixa recupera o clima de jam presente em suas antecessoras, fazendo sentido no disco.

"Wild West End" funde a mitologia Western com o cotidiano londrino numa alquimia interessante. Soa como os Wings de Paul McCartney (então uma das maiores bandas do planeta). Pela primeira vez, a banda apresenta duas faixas morosas em sequência, o cansaço é palpável. A balada plácida torna o final do disco mais terno e melancólico do que seria de imaginar, após o swing dos sultões.

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Pelo visto, esse seria o tom final da estreia dos Straits. Sem pressa, "Lions" retoma o Blues-Rock com riffs dançantes e um clima meio Carlos Santana. O Reggae permanece como influência subliminar, assim como lampejos de Soul Music. Invertendo o approach de "In the Gallery", a faixa soa coesa com o disco, mas carece de singularidade. Um pouco mais agitada que as anteriores, mas sem empolgar. No piloto automático, a banda cruza a linha de chegada sob aplausos...E alguns bocejos.

Faixas:
Down to the Waterline 10
Water of Love 9
Setting Up 10
Six Blade Knife 9
Southbound Again 8
Sultans of Swing 10
In the Gallery 8
Wild West End 9
Lions 8

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