David Lee Roth: Um clássico instantâneo do hard rock dos EUA

Resenha - Eat' Em And Smile - David Lee Roth

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Por Doctor Robert
Enviar correções  |  Comentários  | 

Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Em 1985 o Van Halen vivia o auge de sua turbulência interna vivida entre o guitarrista Eddie Van Halen e o vocalista David Lee Roth. As discordâncias iam desde o conteúdo das letras até o direcionamento musical, sem falar no choque de egos. Neste mesmo ano, Roth lançaria um E.P. com covers de canções dos anos 1950 e 1960, chamado “Crazy From The Heat”. Fez muito sucesso com a versão de “California Girls”, dos Beach Boys, e com o medley de “Just A Gigolo/I Ain’t Got Nobody”, tal qual o de Louis Prima. Sucesso o suficiente para levá-lo a deixar o grupo que ajudou a formar e com quem atingira sucesso mundial anos antes.

1111 acessosVan Halen: em "5150", uma banda mais compacta e divertida5000 acessosRoadrunner: os melhores frontmen de todos os tempos

Se Eddie Van Halen queria apostar numa sonoridade mais acessível, usando e abusando de teclados e sintetizadores (flertando diretamente com o chamado A.O.R.), Dave preferia continuar mesclando o rock tradicional de guitarras com regravações de velhos standards e sucessos antigos de seus artistas favoritos, nos moldes de seu E.P. (e algo que o próprio Van Halen chegou a fazer no controverso “Diver Down”, de 1983). Além disso, com o sucesso de seu recente trabalho solo, Dave vislumbrou a ideia de lançar um filme também chamado “Crazy From The Heat”, projeto que chegou a ser orçado pelos estúdios da CBS, mas depois engavetado.

Disposto a superar sua antiga banda a qualquer custo, o espalhafatoso vocalista recrutou um verdadeiro time dos sonhos para compor seu novo grupo: para bater de frente diretamente com Eddie, chamou aquele que todos apontavam como seu sucessor no trono de melhor do mundo, o prodígio Steve Vai (revelado no grupo de Frank Zappa e com breve passagem pelo Alcatrazz, onde substituíra Yngwie Malmsteen); para o baixo, ninguém menos que Billy Sheehan, tratado pela imprensa especializada como o “Van Halen do contrabaixo”, e cuja ex-banda Talas havia aberto alguns shows para o próprio quarteto californiano (e que já havia sido convidado pelo próprio Eddie para entrar no lugar de Michael Anthony); para a bateria, o então desconhecido, porém virtuoso Gregg Bissonette.

Para produzir a nova empreitada, Dave trouxe o produtor Ted Templeman, que havia sido o responsável por todos os discos do Van Halen até então, bem como seu E.P. solo. Ao ver o resultado final de “5150”, primeiro fruto da parceria de sua ex-banda com Sammy Hagar, a alfinetada final: Roth batiza seu rebento com o sarcástico título de “Eat ‘Em And Smile” – ou seja, “devore-os e sorria”, o que demonstrava o tamanho do desprezo pela nova sonoridade do quarteto e o quanto ele julgava seu trabalho superior.

A primeira faixa lançada, que também foi a de abertura do álbum, já deixava bem claro o quanto ele queria continuar com o rock de guitarras: “Yankee Rose”, concebida como uma homenagem ao centenário da Estátua da Liberdade, trazia em sua introdução Dave literalmente dialogando com a guitarra de Steve Vai, que chegava até a dar gargalhadas. Hard Rock vigoroso e empolgante, tocou exaustivamente na MTV e nas rádios especializadas em rock.

“Shy Boy”, a segunda música do disco, mostrava a moral de Billy Sheehan com seu novo patrão: trata-se de uma regravação de uma composição sua (anteriormente gravada com sua ex-banda, o Talas), numa versão de tirar o fôlego de qualquer um, com seu baixo dobrando e duelando constantemente com a guitarra de Vai, acompanhados da bateria velocista de Bissonette e um refrão daqueles que ficam na cabeça por dias. Ficou tão boa que continuou a fazer parte do repertório do Mr. Big, banda posterior de Sheehan, durante muito tempo.

O próximo tema, “I’m Easy”, passava a impressão de ser uma cover, mas na verdade era uma composição nova de Billy Field e Tom Price, com uma levada jazzy que remetia ao E.P. anterior de Dave. Momento de descontração que servia para dar uma desacelerada e abrir caminho para uma pequena pérola chamada “Ladies Nite In Buffalo”, uma semi-balada bem cadenciada, trazendo um solo antológico de Steve Vai, esbanjando técnica e feeling na medida certa.

“Goin’ Crazy” foi o segundo single, com direito a mais um vídeo clipe seguindo os moldes dos anteriores de Dave: uma introdução com os mesmos personagens caricatos, passando por situações esdrúxulas, até a entrada da música. Momento em que Dave entra em certa contradição, visto que a canção é toda regada a teclados e sintetizadores, mas sem deixar de lado o belo trabalho nas cordas de Vai e Sheehan.

Seguindo o play, uma nova regravação: “Tobacco Road”, hit da década de 1960 do grupo britânico The Nashville Teens. Foi lançada também como single e obteve quase tanto sucesso quanto os anteriores. “Elephant Gun” resgata o frenesi de “Shy Boy”, com uma levada bem rápida e um solo de baixo alucinante, em outro grande momento do disco.

Na porção final, “Big Trouble” e “Bump And Grind” mantêm a o pé no rock enquanto a faixa de encerramento, “That’s Life”, é mais uma regravação que remete aos standards da década de 1960 (sua versão mais famosa fora gravada por ninguém menos que Frank Sinatra). Chegou a ser lançada também como single e teve um vídeo com cenas da carreira de Dave, mas não obteve o mesmo êxito dos anteriores.

O saldo final foi um clássico instantâneo do hard rock norte-americano, seguido de uma turnê com lotações esgotadas por onde passou – e que infelizmente não teve nenhum registro oficial em áudio ou vídeo, apenas bootlegs de qualidade pra lá de irregular. Foi lançada ainda uma versão em espanhol do disco, sob o título de “Sonrisa Salvaje”, tentando, com o perdão do trocadilho, abocanhar o mercado mexicano, mas com resultados frustrantes.

O resto da história todo mundo já sabe: o Van Halen devolveu as alfinetadas no título de seu álbum seguinte (“OU812” – pronuncia-se “Oh, you ate one too”, que traduzido significa “Oh, você comeu um também”) e se mantinha no auge de vendas de discos e ingressos, enquanto a carreira de Dave foi decrescendo exponencialmente. Este tentou uma guinada para o lado dos sintetizadores e da sonoridade pop em seu trabalho seguinte, “Skyscraper” (que gerou a insatisfação de Billy Sheehan, que se demitiu logo após a gravação), mas sem o mesmo êxito dos ex-companheiros (tanto em vendas quanto em qualidade). Até que alguns anos depois houve a surpreendente saída de Sammy Hagar do Van Halen, em 1996, também devido a divergências com o gênio/genioso guitarrista. Após muitas especulações sobre a reunião da formação clássica ainda em 1996 e uma breve passagem de Gary Cherone no posto de vocalista, o retorno de Roth finalmente se concretizou em 2007 – porém sem Michael Anthony no baixo, com o herdeiro Wolfgang Van Halen em seu lugar.

Para encerrar, no ano passado houve uma tentativa de se reunir a banda que gravou “Eat’ Em And Smile” em Los Angeles, para uma apresentação especial e surpresa no pequeno Lucky Strike, cancelada no último momento pelos bombeiros pela falta de segurança do local para comportar o número de pessoas que pretendia assistir ao show. Resta saber: com a incerteza pairando nos ares do Van Halen novamente (Dave ainda é o vocalista ou não? Sammy e Mike vão voltar?), haverá algum show ou turnê de comemoração dos 30 anos deste clássico? Aguardemos...

Eat ‘Em And Smile (Warner Bros. Records)

Produzido por Ted Templeman

David Lee Roth - vocais
Steve Vai - guitarras, arranjo de metais na faixa 3
Billy Sheehan - baixo, backing vocals
Gregg Bissonette - bateria, backing vocals

Músicos convidados:

Jeff Bova – teclados na faixa 1
Jesse Harms – teclados na faixa 5
Sammy Figueroa – percussão na faixa 5
The Waters Family - backing vocals na faixa 10
The Sidney Sharp Strings – cordas na faixa 10
Jimmie Haskell – arranjo de metais e cordas na faixa 10

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

Mais comentários na Fanpage do site, no link abaixo:

Post de 22 de maio de 2016

Van HalenVan Halen
Em "5150", uma banda mais compacta e divertida

454 acessosLoudwire: em vídeo, 10 maiores riffs de metal dos anos setenta0 acessosTodas as matérias e notícias sobre "Van Halen"

19861986
O ano definitivo da música pesada

FamíliaFamília
Irmãos que tocam ou já tocaram juntos na mesma banda

Randy RhoadsRandy Rhoads
"Devastado" quando viu Van Halen na guitarra

0 acessosTodas as matérias da seção Resenhas de CDs e DVDs0 acessosTodas as matérias sobre "David Lee Roth"0 acessosTodas as matérias sobre "Van Halen"0 acessosTodas as matérias sobre "Steve Vai"

RoadrunnerRoadrunner
Os melhores frontmen de todos os tempos

SlayerSlayer
Fãs hardcore dão (literalmente) o sangue pela banda

Motley CrueMotley Crue
Atriz pornô comenta sua relação com Tommy Lee

5000 acessosMetallica: o video game da banda que nunca foi lançado5000 acessosTotal Guitar: os 20 melhores riffs de guitarra da história5000 acessosRock Brasileiro da Década de 705000 acessosMotorhead: Lemmy conta seu segredo com as mulheres4798 acessosRush: Os 40 anos de Neil Peart em quatro músicas5000 acessosArnaldo Jr: Colecionador de ítens relacionados ao Metallica

Sobre Doctor Robert

Conheceu o rock and roll ao ouvir pela primeira vez Bohemian Rhapsody, lá pelos idos de 1981/82, quando ainda pegava os discos de suas irmãs para ouvir escondido em uma vitrolinha monofônica azul. Quando o Kiss veio ao Brasil em 1983, queria ser Gene Simmons e, algum depois, ao ver o clipe de Jump na TV, queria ser Eddie Van Halen. Hoje é apenas um bom fã de rock, que ouve qualquer coisa que se encaixe entre Beatles e Sepultura, ama sua esposa e juntos têm um cãozinho chamado Bono.

Mais matérias de Doctor Robert no Whiplash.Net.

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em fevereiro: 1.218.643 visitantes, 2.740.135 visitas, 6.216.850 pageviews.

Usuários online