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Genesis: "Wind and Wuthering", o último com Steve Hackett

Resenha - Wind and Wuthering - Genesis

Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 30 de agosto de 2015

Nota: 9 starstarstarstarstarstarstarstarstar

Talvez animados pelo relativo sucesso de crítica e recepção amigável dos fãs com relação à troca de vocalista, o Genesis não demorou para lançar o sucessor de A Trick of the Tail (link da resenha ao final desta matéria). Em 27 de dezembro de 1976, saiu Wind and Wuthering. A proximidade do fim do ano, coloca a divulgação e recepção crítica do álbum em 1977, portanto. Ano pouco propício para bandas de rock progressivo.

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Naquele ano, o destruidor movimento punk estourou as tampas dos bueiros britânicos, em meio à brava recessão nas cidades mortas do pós-crise do petróleo. Os Sex Pistols lançaram fundamental álbum, onde vociferavam contra o "regime fascista" da rainha e arrotavam que não havia futuro na Inglaterra. Começava a era das canções de três acordes, da cultura do "faça você mesmo", que faria gravadoras independentes e artistas pipocarem por todo o reino. Anos depois, Phil Collins afirmaria que o punk fora útil para dar uma chacoalhada nas coisas. Tem razão; o pós-punk trouxe um período de ouro pra música pop inglesa, com bandas como The Cure, Siouxsie and the Banshees, Joy Division, New Order, The Smiths (os Beatles do indie-rock) e tantas outras.

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Mas, em 77, as megaestrelas estavam sob a cusparada punk. Led Zeppelin, Queen e até o endeusado David Bowie eram atacados por seus excessos. O que dizer das bandas prog com sua autoindulgência, temas escapistas e complexas viagens sônicas? Emerson, Lake & Palmer, Pink Floyd, Yes e, claro, o Genesis, representavam a ordem estabelecida e foram desprezados e demonizados pela crítica e por toda uma geração de adolescentes e jovens proletários (ou modernetes) que não se enxergavam nos floreios de classe média dos progressivos.

Tony Banks classifica Wind and Wuthering como um de seus 2 álbuns favoritos do Genesis, mas, verdade seja dita, o trabalho não representa passo adiante na carreira da banda. É competente, bem tocado, mas carece de momentos brilhantes, exceto pela injustamente esquecida One For the Vine.

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Citações literárias continuam misturadas com tentativas de humor, como atestam os títulos das instrumentais "Unquiet Slumbers for the Sleepers…" e "…In That Quiet Earth" , que reproduzem as frases finais do romance O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights), de Charlotte Brontë e da filler "Wot Gorilla", referência a Chester Thompson, ex-Frank Zappa, que passara a acompanhar o Genesis nas turnês.

A historieta de All In a Mouse’s Night, onde os pontos de vista de humanos, dum rato e dum gato, não apenas remetem aos tempos de Peter Gabriel em termos de letras, mas demonstram certa excentricidade britânica. A energética Eleventh Earl of Mar adota tom meio cínico com relação à nobreza, ao falar dum conde despreparado pra batalhas. Vibrante, com camadas de instrumentos e poderosas viradas de bateria, a faixa apresenta ainda um brilhante, porém discreto, trabalho de guitarra e violão de Steve Hackett. Wind and Wuthering não apresenta solos de Hackett, que reconheceu não ter contribuído muito por estar gravando seu primeiro álbum-solo. Memorável a abertura de violão clássico de Blood on the Rooftops, que fala sobre televisão.

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Detratores amam acusar Phil Collins pela avalanche pop do Genesis nos anos 80. Sem dúvida, o baterista-cantor tem generosa parcela de participação no processo, especialmente devido ao sucesso de sua carreira-solo, a partir de 1980. Mas, como explicar a baladice de Your Own Special Way, composta por Mike Rutherford e que chegou a frequentar o fundo da parada da Billboard e tocar em FMs norte-americanas? A faixa está mais pra easy listening do que pra prog rock. Era o começo da troca de identidade do grupo.

Em meio a essa crise identitária, uma faixa se perdeu nas areias do tempo, infelizmente. A monumental One For the Vine – composta por Tony Banks – permanece apenas na memória de fãs mais devotos da fase prog e do tecladista, claro. Espécie de mini-Supper’s Ready, seus quase 10 minutos estão divididos em diversos segmentos perfeitamente integrados, sem dar impressão de colagem, como no clássico de Foxtrot (lnk para resenha ao final desta matéria). As variações rítmicas e repetição de temas e sua adesão à letra fluem com naturalidade numa chuva de teclados, bateria, guitarra e baixo e variações de vocal. A letra é sobre um homem que abandona sua comunidade por estar descontente com seu líder espiritual, para terminar fazendo o mesmo em sua nova cidade e provocar a saída de outro homem, numa impressão de que a história sempre se repete. O grupo jamais atingiria a sublimidade de One for the Vine novamente.

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A despeito do cataclismo punk, Wind and Wuthering cravou o sétimo lugar da parada britânica, que aliás, naquele longínquo 77 foi manipulada pela BBC a fim de não admitir que o single God Save the Queen, do Sex Pistols, atingira o topo.

O primeiro semestre do ano da revolução punk foi gasto em excursão pelo planeta, registrada no ao vivo Seconds Out, lançado em outubro.

Collins conta que numa tarde, enquanto o duplo ao vivo era mixado, Steve Hackett telefonou para o estúdio e anunciou: estou deixando a banda. Fim de outra era genesiana.

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Tracklist
1. Eleventh Earl Of Mar (7:41)
2. One For The Vine (10:00)
3. Your Own Special Way (6:18)
4. Wot Gorilla? (3:19)
5. All In A Mouse's Night (6:37)
6. Blood On The Rooftops (5:27)
7. Unquiet Slumbers For The Sleepers... (2:23)
8. ...In That Quiet Earth (4:49)
9. Afterglow (4:12)

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Sobre Roberto Rillo Bíscaro

Roberto Rillo Bíscaro é professor universitário e edita o Blog do Albino Incoerente desde 2009.
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