Genesis: "Foxtrot", a primeira de uma trinca de obras-primas
Resenha - Foxtrot - Genesis
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 22 de maio de 2015
Nota: 10 ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Formação sólida com músicos de alta qualidade e extensa agenda de shows, que permitiam muito treino. O GENESIS tinha tudo para compor seu primeiro álbum realmente grande. E o fizeram. Lançado em outubro de 1972, Foxtrot abre a tríade de obras-primas da era Gabriel. Produção impecável, intrincadas composições - abundantes de referências musicais e literárias – e Supper’s Ready, longa e variada suíte de 23 minutos, fazem de Foxtrot uma das gravações fundamentais do rock progressivo em sua vertente sinfônica.
O álbum abre com Watcher of the Skies e sua majestosa introdução organística, presente de Tony Banks. O uso do Mellotron 2 provou ser tão influente, que em versões subsequentes do teclado, a introdução de Watcher of the Skies vinha como um dos riffs embutidos. Phil Collins toca batera em uma espécie de código Morse e Mike Rutherford força o pé no pedal de seu baixo. A guitarra de Steve Hackett pontua e conduz boa parte da canção. Peter Gabriel finalmente alcança maturidade vocal e se sai com uma performance profética, que muitos tentaram imitar (em vão). Sete minutos e meio de pura viagem intergaláctica prog. A letra sci-fi pós-apocalíptica fala sobre um alienígena visitando uma Terra devastada pelo próprio homem. "Has life again destroyed life?", pergunta-se o visitante, solitário em um planeta habitado por lagartos. A ideia para a canção foi de Banks e Rutherford, enquanto ensaiavam numa grande e deserta arena italiana. Eles imaginaram como seria se um ET visitasse um planeta Terra deserto. Um bocadinho de influência de Keats e Joyce materializaram a canção. Educação esmerada não faz mal, né?
Uma das acusações ao rock progressivo foi a "alienação", devido à grande quantidade de letras misticóides e contofadistas. Get’em Out By Friday complica esse ataque. A letra mescla ficção-científica, tecnofobia e comentário social. Em seus mais de 8 minutos, Gabriel canta sobre inquilinos despejados pela corporação Styx Enterprises, os quais serão realocados para outros conjuntos habitacionais. A letra, composta a partir de múltiplos pontos de vista e passagem de tempo, anuncia que em 2012 o órgão intitulado Genetic Control terá reduzido a estatura da espécie humana a fim de colocar o dobro de moradores em um mesmo edifício. De arrepiar quando a voz alterada de Peter anuncia "It is my sad duty to inform you of a four foot restriction on humanoid height" para, em seguida, com outra voz e pronúncia, mudar a cena para um pub onde alguém comenta o real motivo da alteração "It's said now that people will be shorter in height/they can fit twice as many in the same building site." Na verdade, a canção parece mais uma minipeça de teatro cantada, com grande trabalho de guitarra de Hackett e variações de tempo, conforme cada personagem fala.
Submersa sob 3 obras-primas, está Can-Utility and the Coastliners, hoje obscura, mas, uma de minhas favoritas do repertório da banda. O GENESIS volta ao século XI, pouco antes da invasão normanda à Inglaterra, revisitando a lenda do Rei Cnut, monarca viking, conquistador da Inglaterra. Diz a lenda que ele, perante a abjeta lisonja de seus súditos, ordenou que a maré parasse de subir, para provar que um rei não possuía tantos poderes como se imaginava. Vocais delicados, violões dedilhados misturam-se com um longo solo de teclado e trechos de guitarra e vocais urgentes, que conduzem ao final operático. A partir do segundo minuto, quando Banks entra com seu Mellotron, a canção vira um sonho de prog sinfônico grandiloquente.
Sanduichada entre as 2 primeiras canções, a delicada Time Table nunca teve chance de se destacar. Herdeira da época de Trespass e Nursery Cryme (resenhados aqui no Whiplash.net, veja os links após a matéria), a delicada alegoria medieval traz belo trabalho de piano, mas fica difícil não sentir que é filler (termo usado para designar canções que literalmente estão num álbum para "enchê-lo").
Precedida por Horizons, vinheta de violão acústico inspirada em Bach, Supper’s Ready ocupava quase todo o lado B do vinil. Pouca dúvida resta de que seja A (maiúscula proposital) obra-prima do GENESIS. Supper’s Ready tem todos os elementos que garantem seu lugar como uma das marcas-registradas do rock progressivo. As influências musicais passam pelo folk, música concreta, clássica, vaudeville, rock. Dividida em 7 seções com nomes bizarros, trechos se repetem, voltam sob forma ligeiramente alterada em outras seções e há sucessivas modificações de andamento e ritmo. As referências da letra são tantas que ninguém jamais conseguiu realmente saber claramente do que se trata. Resumindo, pode-se dizer que é sobre a batalha do bem contra o mal, evocada pelo tom apocalíptico do final. A ceia do título pode ser aquela referida no livro do Apocalipse, capítulo 19, versículo 17: "E vi um anjo que estava no sol, e clamou com grande voz, dizendo a todas as aves que voavam pelo meio do céu: Vinde, e ajuntai-vos à ceia do grande Deus." Há um "angel standing in the sun" na letra.
Alem disso, há a riqueza poética que passeia por William Blake, T. S. Elliot, pelo típico humor nonsense britânico ("there's Winston Churchill, dressed in drag, he used to be a British flag, plastic bag, what a drag!"), cheia de jogos de palavras ("If you go down to Willow Farm, to look for butterflies, flutterbyes, gutterflies") e aliterações ("Six saintly shrouded men move across the lawn slowly/The seventh walks in front with a cross held high in hand"). Para deixar o passatempo das interpretações da letra ainda mais complexo e fascinante, membros da banda atestam que determinadas partes foram inspiradas por isso ou aquilo. Exemplo: Gabriel afirma que o começo da letra diz respeito a experiências que ele e sua esposa Jill tiveram com possessão mediúnica e fantasmas. Seja lá o que Supper’s Ready signifique, a habilidade de Gabriel em criar letras com poderosa força imagética é inegável.
Foxtrot colocou o GENESIS pela primeira vez no Top 20 britânico, alcançando a 12ª posição. Na Itália, o álbum saiu-se ainda melhor, cravando um oitavo lugar.
Tracklist
1. Watcher of the Skies (7:19)
2. Time Table (4:40)
3. Get 'em out by Friday (8:35)
4. Can-Utility and the Coastliners (5:43)
5. Horizons (1:38)
6. Supper's Ready (22:58)
- a. Lover's Leap
- b. The Guaranteed Eternal Sanctuary Man
- c. Ikhnaton and Itsacon and Their Band of Merry Men
- d. How Dare I Be So Beautiful?
- e. Willow Farm
- f. Apocalypse in 9/8 (featuring the delicious talents of Gabble Ratchet)
- g. As Sure as Eggs is Eggs (Aching Men's Feet)
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Dave Mustaine admite que pode não ter outra chance de falar com James Hetfield e Lars Ulrich
Nazareth é a primeira atração confirmada do Capital Moto Week 2026
Dave Mustaine afirma que não há motivos para não ser amigo dos integrantes do Metallica
As cinco piores músicas do Iron Maiden, segundo o Loudwire
O hit do rock nacional que boa parte do Brasil não sabe o que significa a gíria do título
As cinco melhores músicas do Iron Maiden, segundo o Loudwire
Rush anuncia mais um show em São Paulo para janeiro de 2027
O maior guitarrista do grunge de todos os tempos, segundo Jerry Cantrell do Alice in Chains
Spiderweb - supergrupo de prog com membros do Genesis, Europe e Angra lança single beneficente
Mamonas Assassinas: a história das fotos dos músicos mortos, feitas para tabloide
O melhor riff da história do heavy metal, segundo Max Cavalera (ex-Sepultura)
Adrian Smith quer aposentar música do UFO que serve como intro dos shows do Iron Maiden
O "Big Four" das bandas de rock dos anos 1980, segundo a Loudwire
Felipe Andreoli sobre Angra: "Eu teria colocado o Alírio Netto 13 anos atrás"
O álbum clássico do Scorpions cuja capa impactou Max Cavalera



A pior música do Genesis para Phil Collins, segundo o próprio cantor e baterista
A gigante banda de prog onde Phil Collins quase ingressou; "fui ver eles um monte de vezes"
A banda essencial de progressivo que é ignorada pelos fãs, segundo Steve Hackett
Clássicos imortais: os 30 anos de Rust In Peace, uma das poucas unanimidades do metal


