Hardballz: Conservando o Hard 80 e inovador na contemporaneidade
Resenha - World Wild Web - Hardballz
Por Willba Dissidente
Postado em 04 de setembro de 2014
Nota: 8 ![]()
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Inovador na sua análise sobre o conservadorismo, o sociólogo alemão Karl Mannheim definiu esse estilo de pensamento como aquele que busca "conservar o passado no futuro". Não se trata, obviamente, de esquecer o que foi feito no passado ou de simplesmente, como incorreta e corriqueiramente aplicado, de se fazer o passado igualzinho como ele foi. É conservador aquele que busca o que está sendo feito, pensado, produzido, no momento, mas não descarta fazer referência e manter viva a tradição. O debut do HARDBALLZ (não acreditar que o nome faz referência ao animê estrelado por Goku e Vegeta), trabalho de "um homem só" do músico carioca Marcelo Val tem esse conceito como marca para atualizar a sonoridade clássica do Hard Rock com o desenvolvimento que o estilo teve nas últimas décadas. O resultado? Hard Rock com sólidas raízes setentistas e oitentistas, mas que não soa deslocado no tempo.
Na casa dos quarenta anos, Marcelo Val estreia sua própria banda, num estilo inusitado para o Brasil (um só músico gravar todos os instrumentos e programar a bateria) e mais incomum ainda se tratando de Hard Rock (já que tal façanha é bem mais associada ao metal extremo). Tendo passado, como baixista, pelos grupos PAINSIDE, IMAGO MORTIS e RECKONING, além de estar atualmente no OBSIN, todos muitos pesados, e ser atuante na cena underground carioca, Val quis registrar músicas que compôs há tempos num outro estilo; e o músico de Niterói acabou por aliar o clima e a levada do Hard Rock com o peso do Heavy Metal. Acompanhando a mudança de estilo, Val se mostra um guitarrista prodígio e diligente produtor musical, sendo o debut do HARDBALLZ um excelente cartão de visita dos talentos técnicos do músico.
https://soundcloud.com/hardballz/face-the-truth
HARDBALLZ é trocadilho para "Hard With Balls", ou, em português, "Hard com pegada" e é simples e absolutamente isso que é ouvido ao longo dos 48 minutos de duração do CD. Já na abertura com "Face The Truth", primeiro single com download liberado no SoundCloud, somos introduzidos a uma condução variada com ótimos riffs de influência da década de 1980, mas timbres e distorções modernas. Talvez o ouvinte se recorde de "Brutal Planet" do ALICE COOPER, mas lembramos que, enquanto a Tia fretou com o New Metal, a proposta do HARDBALLZ é mais para o que PRIMAL FEAR vêm desenvolvendo ao longo da carreira (que o JUDAS PRIEST começou com o "Painkiller"). Uma outra característica logo à mostra, e que acompanhará o CD todo, é a finalização dos riffs com notas agudas, feito um grito, a técnica do Harmônico; popularizada atualmente por Zakk Wilde e seu BLACK LABEL SOCIETY. Se a pegada é pesada, forte também é o virtuosismo que Val apresenta atacando de guitarrista. Ao longo de todo o debut é latente a impressão que se não fosse pela roupagem mais moderna, a maioria dessas músicas poderiam estar, à guisa de exemplo, num disco clássico e cult com o "Odyssey" do sueco YNGWIE J. MALSMTEEN. É interessante ainda a constatação que o excelente timbre de vocal com que Marcelo Val canta seja, um pouco, semelhante ao de JOE LYNN TURNER (além do RAINBOW e artista solo, vocalista do MALMSTEEN no citado disco), só que mais rasgado e grave. Isso sem contar a excelente pronuncia em inglês do músico e letras existenciais bem sacadas, em refrões que costumam repetir duas vezes. Uma outra característica logo sentida é ótima noção de melodia de Marcelo Val, de como ele encaixa as letras dentro dos riffs e da marcação da bateria.
Marcelo Val mostra que é mais do que só um bom vocalista e excelente guitarrista virtuoso. "Living Free", faixa que dá continuidade ao trabalho, tem dois mini-solos de baixo (um após o 1º refrão e outra após o solo de guitarra). E que solo de guitarra! O músico varia a escala, voltando sempre na mesma nota, criando uma ótima melodia. E quanto a bateria? A resposta está em "Evilized", a próxima canção, que é mais rápida e faz no pré-solo a mesma brincadeira que o JIMI HENDRIX EXPERIENCE jogou em "I don't Live Today", da disputa entre a guitarra e a bateria. O pleito frenético desemboca em solo sobre base dedilhada, na manha, encerrando a música no fade. Depois da velocidade, chegamos em "Heroes Don't Run", a mais comprida e, escolha pessoal, a faixa mais massa do debut. Trata-se de um Hard Rock mais radiofônico, com baixo bem marcado e teclado dando o clima. Muita variação em background vocals agudos e arpejos de arrepiar no solo de guitarra. Chega a balada "Carry On", com pre-refrão Hardeira e um inusitado duelo de duas guitarras, como se dois músicos diferentes tivessem gravado o disco!
https://soundcloud.com/hardballz/world-wide-web
Divisor de águas no play, a faixa título "World Wild Web", é bem rápida e contém riffs com final dedilhado na parte dos cantos e notas agudas distorcidas nos refrões. Solo de baixo, com pulsante timbre e na guitarra o solo chega no Shred guitar! Sabe aquele Hard Rock arrasa quarteirão? É "No Same", sétima música do Cd que abre uma sequência que faz a alegria dos fãs do estilo. Aqui o bumbo duplo faz a diferença, criando muitas variações e que acelera quando a guitarra sola. "Live Another Life" é outra desses Hards sacudidos e gostosos de se agitar e cantar; exceto pelo pós-refrão, que é um tanto confuso por possuir muitas vozes gravadas, um verdadeiro contraste. "Followers and Leaders" e "Deppest Dreams" são os Hard Rocks mais tradicionais, porém igualmente aprazíveis na escola de KISS, VAN HALEN, aquela transição dos anos 70 para os 1980; só que "modernizados". Em ambas, o músico, muito habilmente, faz como se introduzisse uma música dentro da melodia antes do solo, o que funciona muito bem. Encerrando com uma sentimental e introspectiva música lenta, "Fields of The Past" tem baixo evidente e essencial à construção da canção, bom refrão e no solo a segunda guitarra entra com um efeito que dá a impressão que ela é anunciada surgindo do nada, muito interessante.
Em consonância com a música, a parte gráfica de "World Wild Web" também é muito cuidadosa e bem executada. A capa e a bandeja são brancas, com o CD, original, de mídia prateada, transparente com os nomes (banda, títulos, músicas), escrito em preto. O encarte com oito páginas é bonito, indo de climas soturnos que vão clareando até chegar no fogo e desembocam num jardim de margaridas. Fotos de Marcelo Val, trabalhadas com efeitos de computador bem sacados acompanham.
Os mais puristas fãs de Hard Rock podem torcer o nariz ao HARDBALLZ; já que o Marcelo Val poderia ter feito um disco ipsis literis oitentista (o que seria socialmente "retrógrado") e preferiu seguir a tendência mais comum do Heavy Metal na contemporaneidade (um pouco mais pesado que o DR. SIN fez no "Bravo"). Não obstante, quem se interessar pelo trabalho do grupo, pode acabar conhecendo um Hard Rock tão poderoso quanto um KameHameHá do Goku (o trocadilho com o Dragon Ball Z aqui foi inevitável). Alguns pontos negativos existem, como Val cantar as músicas sempre no mesmo tom (algo que Phil Mogg do UFO fez característica sua nos anos 1980), sendo que o músico poderia incluir os vocais guturais e agudos que ele faz no fundo durante a execução das canções. Outro ponto é que algumas músicas acabam indo abaixando o volume (como a quarta) e poderiam ter um fechamento mais elaborado. Ainda assim, o "World Wild Web" se mantém como uma excelente estréia de um músico que já muito contribui com som pesado e agora pode se expressar em outro estilo.
Após o lançamento do disco o HARBALLZ firmou formação com Leandro Siqueira (baixo e backing vocals) e Phill Drigues (bateria), completando o time com Marcelo Val (vocal e guitarra).
"World Wild Web", disco de estréia do HARDBALLZ, pode ser comprado por R$15,00 com correiro incluso para todo Brasil pelo e-mail "[email protected]", pelo perfil do grupo no facebook (link ao final) e pelo Mercado Livre.
HARDBALLZ - "World Wild Web" (2014) - Nacional, independente, 47:51.
01. Face the Truth
02. Living Free
03. Evilized
04. Heroes Don’t Run
05. Carry On
06. World Wild Web
07. No Shame
08. Live Another Life
09. Followers and Leaders
10. Deepest Dreams
11. Fields of the Past
Marcelo Val - voz, guitarra, baixo, violão, produtor e programação da bateria.
Site relacionado (em português):
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