Orphaned Land: Grandiosidade ainda está por ser reconhecida
Resenha - Orphaned Land - Mabool - Story Of The Three Sons Of Seven
Por MATHEUS BERNARDES FERREIRA
Postado em 04 de novembro de 2013
Terceiro álbum do quinteto de prog / death / folk metal israelita Orphaned Land, Mabool - The Story of the Three Sons of Seven demorou seis anos para ser concluído e é de longe um enorme avanço na discografia da banda. Mabool, palavra que significa "dilúvio" na língua hebraica, é um álbum conceitual que conta a história do dilúvio descrito no livro de Gêneses do velho testamento, sobre a decisão de um deus enfurecido de afogar a humanidade por arrependimento de tê-los criado. Um tema cruel e dramático que a banda soube muito bem ambientar, começando a narrativa desde os antigos profetas que inutilmente tentaram alertar as pessoas sobre a danação vindoura, culminando na inevitável e impiedosa calamidade final. A representação é bastante detalhista, pois conta com diversos efeitos sonoros como barulho de chuva e relâmpagos, inúmeros instrumentos orientais de percussão, cordas e sopro, mais de 30 músicos convidados e inúmeras narrativas, tudo cantado em cinco línguas diferentes.
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Felizes vozes infantis abrem a faixa Birth of the Three e são violentamente silenciadas por uma inamistosa patada na orelha. Surge o primeiro riff que, junto à melodia do teclado, soa qualquer coisa árabe-oriental, mas com uma onipresente pegada metálica. As guitarras de Matti e Yossi choram diversas linhas melódicas que lembram Opeth e Maiden, além de passagens orientais acústicas de algum instrumento de corda que soa parecido com o banjo. A batida técnica puxa muito para o metal progressivo, que exagera na utilização de inúmeros pratos de condução e de efeitos, mas também mistura elementos de percussão não tradicionais como sinos, palmadas, castanholas e outros badulaques mais extravagantes. O vocal gutural a lá Mike Akerfeldt de Kobi Farhi é incrível, mas mais incrível ainda é sua pluralidade de vozes que alterna do bestial à um super afinado canto limpo, passando por vozes sombrias, cânticos-gemidos, recitações em línguas exóticas, enfim, têm um pouco de tudo aqui. Todas as vozes são ótimas, um show à parte. A faixa é extremamente diversa e impressiona como nenhuma passagem é menos que espetacular. Todos os instrumentos estão em perfeita harmonia, sempre a somar energia e poder à composição que extrapola em diversos ápices, uns de pura fúria animalesca, outros de comovente beleza e virtuosismo.
A heterogeneidade musical ouvida na faixa de abertura é elemento comum em todas as outras músicas. Ocean Land é o single do álbum, possui ritmo mais cadenciado e um espetacular solo de guitarra do Yossi Sassi. O curioso cântico no final da música foi gravado secretamente por Kobi Farhi dentro do Taj Mahal em sua passagem pela Índia. Kiss of Babylon abre com um dos melhores riffs do álbum, agressivo e contagiante. O maior destaque da faixa é em sua segunda metade, onde temos uma orgia musical de dança-do-ventre e heavy metal, acompanhado de diversos coros masculinos e femininos. A música impressiona pelo ritmo contagiante, impossível evitar cantar junto aos coros. A faixa A'salk é só resquício do último cântico da espetacular voz da senhorita Shlomit Levi.
Halo Dies é a música que mais explora o vocal gutural de Kobi Farhi e possui os riffs mais agressivos do álbum. Novamente os espetaculares solos ultra-melódicos roubam a cena no final da faixa. As guitarras gêmeas abrem a ótima A Call to Awake, música cadenciada e que explora os vocais limpos nos versos e refrãos. No final a música esquenta, o ritmo acelera e segue uma passagem instrumental muito técnica e que deve agradar aos fãs de Dream Theater.
O miolo do álbum é composto de músicas que procuram explorar o lado folk da banda. Building the ark é uma faixa com instrumentos de cordas acústicas, percussão oriental, coros populares e cânticos religiosos. Norra El Norra é uma música tradicional egípcia adaptada pela banda com a utilização de guitarras e piano, resultando é uma música alegre e empolgante. Já The Calm Before the Storm é o outro lado da moeda, sendo uma faixa acústica e instrumental onde muito pouco pode ser ouvido, como o nome propõe, contendo apenas algum trabalho de cordas acústicas e teclado. Trata-se de uma música de ambientação e de preparação para o ato final.
A espetacular troca do riff de violino pelo da guitarra na abertura da faixa Mabool é o cartão de visita desta obra-prima do death metal melódico. Em Mabool a banda incorpora de modo inspirador o estilo Opeth de tocar a arte metalica, principalmente através dos técnicos riffs de guitarra e o poderoso vocal gutural de Kobi Farhi. As recitações em línguas alienígenas e as hipnóticas guitarras melódicas atribuem um caráter épico e dramático permanente ao longo de toda música, e que não se encerram nela, já que não existe separação da faixa The Storm still Rages. Com forte presença do teclado, Kobi volta ao canto limpo em curtos versos até que a música chega a um interlúdio belo e tranquilo. Então é a vez dos guitarristas receberem os holofotes: a série de solos que se segue é absolutamente perfeita. É ouvir e se arrepiar todo. A adição do vocal de Kobi em meados da seção instrumental só aumenta ainda mais a dramaticidade da coisa. Os dedilhados de violão e os singelos passarinhos de Rainbow fecham o álbum com uma atmosfera pacífica e onírica, transmitindo a mensagem de que após passarmos por tantas turbulências, enfim chegamos ao paraíso.
O álbum Mabool - The Story Of The Three Sons Of Seven é magnífico em sua proposta pioneira de incorporar o death metal melódico com a grandeza da cultura musical do oriente próximo. Isso se deve ao talento inquestionável dos músicos compositores e da oportunidade de produção e distribuição do seu material, oriundo de um país até então sem tradição no metal. A grandiosidade deste álbum ainda está por ser reconhecida pela história do metal.
Orphaned Land
Mabool - The Story Of The Three Sons Of Seven, 2004
Prog Folk Metal (Israel)
Lista de músicas:
Birth of the Three (The Unification) (6:57)
Ocean Land (The Revelation) (4:43)
The Kiss of Babylon (The Sins) (7:23)
A'salk (2:05)
Halo Dies (The Wrath of God) (7:29)
A Call to Awake (The Quest) (6:10)
Building the Ark (5:02)
Nora El Nora (Entering the Ark) (4:24)
The Calm Before the Flood (4:25)
Mabool (The Flood) (6:59)
The Storm Still Rages Inside (9:20)
Rainbow (The Resurrection) (3:01)
Tempo total: 67:58
Músicos:
Kobi Farhi / vocal
Yossi Sassi / guitarra
Matti Svatitzki / guitarra
Uri Zelcha / contrabaixo, contrabaixo sem trastes
Eden Rabin / teclado
Músicos convidados:
Avi Diamond / bateria
Avi Agababa / percussão
Shlomit Levi / vocal feminino
Oren Koren / violino
Noam Wiesenberg / cello
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