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Canned Heat: "Future Blues", um disco essencial

Resenha - Future Blues - Canned Heat

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Por Elias Rodigues Emídio
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Hoje em dia poucas pessoas lembram do nome do Canned Heat, porém nos anos 60 a banda era considerada um dos maiores combos do blues rock, e foi sem dúvida um dos grandes responsáveis pelo resgate do blues na década de 60. Em seu line-up a banda contava com dois do maiores nomes quando o assunto é blues rock: o excelente vocalista Bob "Bear" Hite e o também ocasional vocalista e gaitista (para muitos e merecidamente o maior nome que já existiu no instrumento) Alan "Owe" Wilson, que também fazia brilhantes incursões pelo teclado e guitarra.

Ao vivo a banda era simplesmente fenomenal. Reciclavam o blues tradicional com uma energia a atitude que eram impressionantes e que cativaram certamente o público de seus shows, fazendo da banda bem popular a época. Porém, por estarem de certo modo na contramão do movimento psicodélico, a banda acabou sendo esquecida pela gerações futuras, embora tenha deixado pelo menos 5 trabalhos que não fariam feio em nenhuma discoteca básica para um bom amante de blues, incluindo um LP duplo ao vivo com a lenda do blues John Lee Hooker "Hooker 'n' Heat" de 1971 que pode ser considerado como ponto alto da carreira de ambos e que certamente mereceria pelos uma matéria exclusiva para ele aqui no whiplash.net.

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Bob Hite era vendedor de uma loja de discos e possuía uma imensa coleção de blues e em 1966 seu destino cruzaria com o de Alan Wilson que além de tocar gaita muito bem também era ávido colecionador de discos de blues. No mesmo eles decidem montar como nome de Canned Heat, que fazia referência a um grande clássico do blues "Canned Heat Blues" de Tommy Johnson. Esta por sua vez fazia referência ao uso do Sterno, uma droga muito comum entre os bluesman no começo do século XX que entre outros efeitos causavam um grande aumento da temperatura corporal.

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A primeira formação do grupo trazia além de Hite e Wilson, o fantástico guitarrista solo Henry Vestine (que já tinha tocado com o Mothers Of Invention de Frank Zappa), o baterista Frank Cook e o baixista Stuart Brotman. Brotman que juntou ao Kaleidoscope foi logo substituído por Mark Andes, até que a banda se fixaria com excepcional Larry "The Mole" Taylor.

No mesmo ano a banda lançaria seu debut, o autointitulado "Canned Heat" que ainda sem composições própias ainda trazia apenas releituras grandes clássicos do blues com destaque para as "recriações" de "Bullfrog Blues" (William Harris), "Dust My Broom" (Elmore James) e "Rollin' And Tumblin'" (Muddy Waters).

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Em 1967 Frank Cook é substituído pelo descendeste de mexicanos Adolfo "Fito" De La Parra, com De La Parra estava fechada então a formação clássica do grupo. No mesmo ano a banda é convidada a se apresentar no Monterey Pop Festival, aonde faz uma das melhores e bem mais acolhidas apresentações pelo publico presente no festival.

Em 1968 pela See For Miles Records é editado o primeiro grande trabalho do grupo o esplêndido "Boogie With Canned" que trazia o primeiro grande clássico do grupo "On The Road Again" que com sua harmônica onipresente cravou um lugar no top 20 dos Estados Unidos elevando ainda mais a popularidade do álbum no qual estava inclusa. Num surto de grande criatividade a banda laçaria no mesmo outro trabalho fundamental, o duplo "Living The Blues" que trazia experimentalismos com o blues como no caso da jam psicodélica de "Refried boogie" que com seus 40 minutos ocupava um LP inteiro, ao lado de preciosidades como "Pony Blues" (Charley Patton) e "Walking By Myself" (Jimmy Rogers), além da marcante de "Going Up The Country" que a banda imortalizaria no festival de Woodstock em 1969.

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Em 1969 seria editado o bom "Hallelujah" que apesar de não ter gerado hit singles mostrava que a máquina Blueseira de alta combustão do grupo estava em grande forma. Entre os destaques do disco podemos citar a excelente regravação da canção que originou o nome da banda além da divertida e bem sacada "Sic'em Pigs".

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Finalmente em 1970 pelo selo Liberty, já com Harvey Mandel no lugar de Henry Vestine, a banda edita aquele que é considerado seu melhor disco de estúdio o estupendo "Future Blues", objeto principal desta resenha.

O trabalho abre com a estupenda "Sugar Bee" de autoria de Eddie Shuler, um bluesão marcado pela voz ríspida e pela harmônica nervosa de Hite. Dando sequência ao disco temos "Shake It And Break It", um blues adornado pela voz adocicada de Wilson que chega a lembrar muito a voz do bluesman Skip James autor da imortal "I'm So Glad". Na versão de Charley Patton original a canção era um ragtime (estilo de blues ritmado).

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O brilhante cover "That's All Right (Mama)" de Arthur Crudup com Hite nos vocais, um blues bem soturno dá sequência ao play. Só para relembrar, esta é a mesma canção que se tornara a pedra roseta do rock ao ser gravada por Elvis Preley em suas primeiras sessões para a Sun Records em 1954. O clima soturno da fixa anterior é repetido com "My Time Ain't Long" de Alan Wilson.

Uma dobradinha espetacular formada por "Skat" e "Let's Work Together" da continuidade ao play. A primeira é um boogie com andamento jazzístico com direito ama quebradeira de bateria e uma densa linha de baixo (que até faz um curto solo), além da participação especial de Dr. John ao piano que criam um ambiente típico do saloons do velho oeste ianque. A segunda o maior hit da carreira da banda é um boogie mais tradicional com um dos mais brilhantes riffs da história do rock e com um refrão que fica dias grudado na cabeça do ouvinte.

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Esta obra-prima do rock encerra-se com três brilhantes composições do grupo: o blues cavernoso de "London Blues" com um clima que remete bem aos pubs britânicos, a blueseira "progressiva" de "So Sad (The World Is In A Tangle)" (só o titulo em si já é genial) e a animada "Future Blues".


A turnê de promoção do disco geraria o excelente álbum ao vivo "Canned Heat '70 Concert - Live In Europe". Infelizmente este seria o último registro do grupo (fora o lendário "Hooker 'n' Heat" de 1971) com Alan Wilson que morreria no ano seguinte com uma overdose de barbitúricos. Alan passava por uma séria crise depressiva em virtude de sua má aparência, em especial os óculos grandes que lhe rendeu o apelido de coruja (Owe), que fazia com que tivesse pouco sucesso com as mulheres. Essa crise só piorou com sua crescente preocupação com causas socioambientais como já evidenciado na arte da capa (e nas letras das músicas) do LP que demonstrava o descontentamento da banda com a política praticada pelo governo americano. Mostra o quinteto trajando roupas de astronautas, hasteando na lua uma bandeira norte-americana de cabeça para baixo. A imagem provocativa simulava a pose registrada por marines americanos no cume do Monte Suribachi, logo após a vitória contra os japoneses na Batalha de Iwo Jima, durante a Segunda Guerra Mundial.

Numa só palavra: ESSENCIAL.

FAIXAS
1. Sugar Bee
2. Shake It And Break It
3. That's All Right (Mama)
4. My Ain't Long
5. Skat
6. Let's Work Together
7. London Blues
8. So Sad (The World Is In A Tangle)
9. Future Blues


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