Strokes: Comedown Machine é um dos mais consistentes da carreira
Resenha - Comedown Machine - Strokes
Por Ricardo Seelig
Fonte: Collectors Room
Postado em 22 de março de 2013
Nota: 8 ![]()
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Há um ranço generalizado em relação ao Strokes. Não sei de onde vem isso. Talvez do hype exagerado causado por "Is This It" (2001), bom disco alçado ao status de clássico de uma geração e um dos muitos "salvadores" de um rock que nunca precisou ser salvo. Pode ser. Ou essa má vontade pode ter nascido da postura assumidamente blasé dos caras, seguros de si e pouco se lixando para o que pensam, escrevem ou falam sobre eles. Não sei.
O que sei é que todo esse antagonismo da crítica em relação à banda prejudica profundamente e compromete a avaliação de qualquer disco lançado pelo grupo. Principalmente aqui no Brasil, mas também em grandes veículos mundo afora, não há isenção ao analisar a música do Strokes, como se tudo o que a banda representa fosse mais importante e devesse ser derrubado sem dó, não importando se o que o grupo produziu é bom ou ruim.
"Comedown Machine", quinto disco do quinteto, chega às lojas na próxima terça-feira, dia 26 de março. Ele é o sucessor de "Angles" (2011), trabalho que dividiu opiniões. O álbum marca também o fim do contrato da banda com a RCA, cuja logo ocupa grande destaque na bonita capa.
O que temos em "Comedown Machine" é um aprofundamento na sonoridade oitentista já prenunciada em "Angles". O synth-pop e o new romantic daquela década dão o tom em diversas faixas, mostrando influências de nomes como New Order, OMD, Go West e Echo and The Bunnymen. Essa nova característica, no entanto, convive lado a lado com composições onde a banda soa de maneira muito similar ao início de sua carreira, com as guitarras sendo os personagens principais. O tracklist evidencia essa dicotomia, alternando esses dois caminhos. A grosso modo, as faixas ímpares mostram o Strokes atual e apontam para o futuro, enquanto as pares olham para o passado tentando retomar a vivacidade de uma época que já passou.
O resultado dessa luta por uma nova identidade musical faz de "Comedown Machine" um dos trabalhos mais completos da carreira do Strokes. Surpreendentemente maduro, o disco mostra a banda acertando na maioria das suas experimentações. A abertura com "Tap Out" chega a lembrar, em um nível quase subconsciente, Michael Jackson. O primeiro single, a grudenta "One Way Trigger", rebaixada a um pseudo tecnobrega e alvo de comparações com a horrenda Gaby Amarantos por parte da apressada crítica brasileira, mostra na verdade uma enorme influência dos noruegueses do A-ha. "Welcome to Japan" revela que os músicos são fãs do David Bowie do início da década de 1980, de álbuns como "Let’s Dance" (1983). A contemplativa "80’s Comedown Machine" é uma das mais belas canções já gravadas pelo grupo, com uma melancolia e um saudosismo que deixam claros, para quem ainda tinha dúvidas, a adoração de Julian Casablancas e companhia pela década mencionada em seu título.
Do outro lado da moeda, músicas como "All the Line", "50/50" e "Partners in Crime" colocam os guitarristas Nick Valensi e Albert Hammond Jr. no topo da cadeia alimentar do universo particular do Strokes, trocando acordes em agressões mútuas. É a banda mostrando que continua sabendo fazer o tipo de som que a consagrou.
O pop de "Happy Ending" talvez seja o momento onde esses dois lados, a princípio antagônicos, se encontram com mais harmonia. Com uma batida oitentista, a faixa traz guitarras que emulam o trabalho que deveria ser feito por sintetizadores (se eles tivessem um tecladista), porém soando como guitarras. Uma grande faixa, que chegou para fazer parte de qualquer retrospectiva futura sobre a banda.
"Call It Fate, Call It Karma" encerra o disco como uma espécie de bossa nova lounge relaxante, e que deve colocar mais um ponto de interrogação na cabeça de quem deseja uma banda dando voltas eternas ao redor do próprio rabo.
"Comedown Machine" é um dos álbuns mais consistentes da carreira do Strokes. Muito superior a "Angles", mostra o grupo mergulhando fundo na década de 1980 e encontrando um nova sonoridade que parece ser definitiva. Sereno e agradável, revela uma banda segura de si e sem medo de experimentar, qualidades sempre elogiáveis em qualquer atividade artística.
Depois de momentos de incerteza, parece que o Strokes entrou nos trilhos novamente. Resta saber se os fãs vão embarcar juntos.
Faixas:
1 Tap Out
2 All the Time
3 One Way Trigger
4 Welcome to Japan
5 80’s Comedown Machine
6 50/50
7 Slow Animals
8 Partners in Crime
9 Chances
10 Happy Ending
11 Call It Fate, Call It Karma
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