Imagery: Progressivo e Metal são o recheio dessa massa.
Resenha - Inner Jouney - Imagery
Por Luiz Carlos Barata Cichetto
Postado em 14 de agosto de 2012
O Eliton Tomasi é um sujeito de sorte. E por eu ser ateu e não acreditar nessas coisas, definiria "sorte" por algo que advém de uma série de fatores, como competência e oportunidade, entre outros. Depois de encabeçar uma das mais importantes revistas sobre Rock, a Valhalla, o "sortudo" do Eliton montou a Som do Darma e começou a trabalhar com agenciamento e gerenciamento de bandas. E sua maior "sorte": conta apenas com bandas de uma qualidade impressionantemente alta. Como é o caso da Imagery.
Formada em Londrina, Paraná, em 2088, a partir de duas outras bandas de muita expressão na cidade, a G.A.F. e a Revoult, a Imagery sempre buscou na dualidade a base da massa para seu bolo sonoro. Os ingredientes principais dessa massa: Progressivo e Metal. Uma mistura que poderia fazer com que pessoas de paladar pouco acostumado a misturas, digamos exóticas, torcerem o nariz. Mas os integrantes da banda souberam, e muito, fazer dessa massa algo que agrada em cheio aos mais exigentes e refinados paladares. Em principio, poderíamos pensar que os ingredientes que esses cozinheiros separaram poderiam não dar liga, que seria o mesmo que colocar pimenta em chocolate. E é isso que é: chocolate com pimenta. O chocolate do progressivo com a pimenta do metal. E quem já experimentou sabe o quanto é maravilhoso o resultado.
Mas não apenas de chocolate e pimenta é a massa desse bolo delicioso que é o primeiro CD que tem por título: "The Inner Journey", (A Viagem Interior, em tradução literal), lançado em 2012. De pronto, encanta, com a abertura da primeira faixa, com o teclado de Henrique Loureiro, clássico do Progressivo. E ao longo dos quase cinco minutos dessa faixa instrumental, desfilam todas as influências e tendências da banda, com passagens indo do Jazz a sua prima pobre, a Bossa Nova e aos "riffs" bluseiros, roqueiros e metaleiros da guitarra tocada por Joceir Bertoni.
E a segunda faixa que emenda diretamente, mostra que o guitarrista, que é também o cantor da Imagery, tem um vocal bastante seguro e firme. A música começa mais pesada, mas logo deixa que o ritmo caia, criando uma atmosfera "Fusion" deliciosa. E assim é a faixa que é também o nome da banda "Imagery". Aliás, eu deixei para falar sobre o nome da banda agora, justamente nessa faixa: "Imagery", significa: imaginário, figura de retórica... Daquelas palavras que se formos traduzir, tem um sentido legal, não uma boa sonoridade em português. Em outras palavras, uma banda com o nome de Imaginário não soaria tão forte.. Embora "Som Imaginário", nome de uma antiga banda mineira que tinha músicos talentosíssimos como Wagner Tiso, Tavito, Robertinho Silva e Zé Rodrix, possa ter sido influência ao Imagery. Mas isso é apenas especulação minha, pois em se tratando de influências, a Imagery sofreu decerto as melhores em todas as áreas da música contemporânea, particularmente das vertentes do Blues e do Jazz, que deflagraram no que hoje conhecemos como Rock.
A terceira música "Perception" poderia ser alçada ao patamar de legenda do rótulo "Progmetal",ao iniciar totalmente "progueira", com pitadas de "Funk" e de ritmos brasileiros, mas depois engatando uma marcha mais pesada. E ai o vocal de Joceir dá o tratamento Hard-Metal necessário. A música sofre diversas "desconstruções", indo ali, acolá e alhueres, sem perder a liga. Uma música que precisa ser escutada várias vezes para que percebamos suas temperanças e nuances musicais.
"Start The War", a faixa seguinte tem uma característica clara, de ser uma música mais tradicional no estilo Hard Rock... Mas isso até a metade, quando sofre uma guinada de volta à base Progressiva e depois retorna. Uma faixa para aqueles mais tradicionalistas escutarem sem receio. Do mesmo jeito que "The Rain", que mantém o estilo pesado com um vocal que lembra em certos momentos algo de "Grunge". A quinta faixa da jornada interior do Imagery, "The Rain", ainda segue pelo mesmo caminho, com desconstruções e quebras de ritmo que são no mínimo fascinantes e instigantes, mas sempre mantendo o som pesado como ingrediente principal.
Mas, depois dessas três poderíamos imaginar estarmos, enfim, diante de um estilo marcado, próprio da banda, uma sequencia de músicas com a mesma levada, a mesma mistura de quase sempre os mesmos ingredientes. Mas, como parece que nessa banda nada é previsível e corriqueiro, a sexta música, a introspectiva "Show Me", começa com um violão dedilhado, numa balada singela, com um vocal emocionante. E o que é necessário para relaxar, fechar os olhos e sentir.
"Stranger", a faixa de numero 7 do disco é, na minha opinião, o mais puro Hard Rock Setentista, com os melhores e mais precisos "riffs" do gênero, sem entratanto parecer "out to date". Pesada e competente, preparando para o final, que é, digamos, a cereja do bolo do disco, "Last".
Propositalmente ou não, parece que banda paranaense compôs e tocou a última faixa do disco com a intenção de ser uma espécie de "amostra grátis" da banda. Tipo "Quer saber qual é o gosto da banda? É assim! Prove essa faixa!", pois ela mostra todas facetas e sabores que o Imagery colocou na sua receita musical, reunindo numa única música todo o arsenal dos músicos. Ou melhor, não o arsenal, mas abrindo todo o seu armário de ingredientes que compõem esse delicioso bolo chamado "The Inner Journey" da banda Imagery.
Meu único senão na degustação de "The Inner Journey", é com relação a um ingrediente que me agrada demais em qualquer bolo sonoro e que não senti tão presente no disco: o baixo. Achei que na maior parte das músicas ele ficou um pouco escondido demais. E gosto de sentir o sabor dele por horas se destacando em relação aos demais. Acho que uma encorpada em qualquer massa sonora.
E quanto ao "sortudo" do Eliton Tomasi, que soube pegar esse bolo e, juntamente com esses cozinheiros sensíveis e competentes, nos apresentar uma das melhores obras atuais da cozinha - ops! - música brasileira.
Bon appétit! Enjoy Imagery!
Faixas:
1- Fourth Secret
2- Imagery
3- Perception
4- Start The War
5- The Rain
6- Show Me
7- Stranger
8- Last
Músicos:
Joceir Bertoni (Vocal/Guitarra)
Ricardo Fanucchi (Baixo)
Bruno Pamplona (Bateria/Vocal)
Henrique Loureiro (Teclado)
Discografia:
The Inner Journey (2012)
Internet:
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