O encontro entre Beatles e Elvis Presley contado pelo único jornalista presente
Por André Garcia
Postado em 28 de março de 2022
Quando se encontraram em 1965, poucos ousariam duvidar que os Beatles eram a maior banda do mundo e Elvis Presley o maior cantor. O encontro aconteceu em agosto nos Estados Unidos, na casa do Rei do Rock, sob segredo. Câmeras foram expressamente proibidas, e apenas um jornalista teve a presença permitida para cobrir o acontecimento: Chris Hutchins, do New Musical Express.
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E, conforme relembrado pelo canal Yesterday's Papers no YouTube, o próprio jornalista narrou como foi o encontro em detalhes. Mas primeiro, dias antes do encontro de fato acontecer, ele escreveu sobre os preparativos.
Os preparativos
"Esta cidade repleta de palmeiras e celebridades está prestes a ser palco da produção do século: o encontro entre Elvis Presley e os Beatles. Eu posso afirmar que isso vai acontecer após visitar Elvis e descobrir que o cantor de Memphis e o grupo de Liverpool possuem uma admiração mútua. Agora cabe a mim a tarefa de organizar esse encontro histórico."
"O encontro de ontem com Elvis foi o meu primeiro. Eu tirei um dia de folga de acompanhar os Beatles, que passei com o empresário Colonel Tom Parker na Paramount Studios, onde Elvis estava filmando Paradise Hawaiian Style. Estávamos a caminho do almoço quando Colonel me colocou numa sala escura, onde Elvis estava assistindo televisão. As luzes acenderam e ele saltou para me cumprimentar. Ele foi tão cortês quanto promete sua reputação."
"Eu disse a ele que era uma surpresa ver que ele estava de volta a Los Angeles, e ele disse: 'Terminamos as filmagens no Havaí antes do esperado, e eu voltei direto [para casa] para terminar o filme no estúdio.' Elvis perguntou as novidades sobre os Beatles, e se eles estavam tendo uma estadia confortável na casa que alugaram num rancho em Benedict Canyon, bem próximo de Beverly Hills. Elvis disse: 'Minha namorada passou de carro por lá ontem e disse que tinha um montão de fãs do lado de fora. Esses caras não conseguem ter um instante de sossego, não é mesmo?'"
"De tarde, fui levado ao set de filmagem de Paradise Hawaiian Style. Quando terminou, levei Colonel até a casa dos Beatles. Quando chegou lá, ele respondeu aos questionamentos dos Beatles: por que Elvis não fazia mais shows e só fazia músicas para os filmes. Quando foi embora, ele garantiu que o grupo teria seu tão esperado encontro com Elvis."
O encontro
Na semana seguinte, em nova publicação do New Musical Express, Chris Hutchins revelou que o encontro havia realmente acontecido, e contou em detalhes como foi:
"Elvis Presley estava tocando baixo com o auxílio de algumas instruções de Paul McCartney, e John estava tocando guitarra. Eles estavam acompanhando "You're My World", de Cilla Black. 'Essa batida fala, né?', exclamou John. Ali estavam o artista solo número 1 do mundo e o grupo número 1 do mundo se encontrando pela primeira vez, e se comunicando através da música."
"O encontro levou três dias de planejamento em extremo sigilo para evitar que duas legiões de fãs ensandecidos se juntassem no mesmo lugar. Os beatles aceitaram o convite de Presley para passar a noite de sexta-feira, 27 de agosto, em sua casa, em Bel Air. Foi para mim um grande privilégio ter sido o único jornalista convidado. Não existe uma única imagem daquele grande evento: câmeras não foram permitidas."
"Colonel Parker conduziu os Beatles até a casa de Presley pouco após as 10 horas da noite. A polícia parou o trânsito para impedir que eles fossem seguidos por fãs. Um funcionário de Parker e eu buscamos Brian Epstein [empresário dos Beatles] no aeroporto de Los Angeles, e chegamos lá pouco depois dos Beatles."
"Quando entramos, Elvis estava sentado com Paul de um lado e sua namorada do outro. John sentou ao lado de Paul, e George de pernas cruzadas no chão. Ringo estava no outro lado da sala examinando a coleção de discos de Presley. A televisão a cores estava ligada no centro da sala, mas o som estava desligado."
Tocando juntos
Mais tarde, tocou o hit americano "Mohair Sam", de Charlie Rich. Elvis disse: "Alguém traz as guitarras", e um dos 10 camaradas empregados por ele para o fazer companhia obedeceu. Três guitarras foram ligadas em amplificadores espalhados pela sala. "É assim que eu toco baixo. Não sou muito bom, mas estou aprendendo", disse Elvis a Paul, e acompanhou a música que tocava. John fez alguns acordes enquanto George inspecionava o terceiro instrumento antes de tocá-lo. E assim se passou a primeira hora."
"Elvis, John e George faziam o acompanhamento mais caro do mundo a uma seleção de discos americanos e britânicos, incluindo um do The Shadows. Presley, ocasionalmente, deu sinais de seu famoso rebolado, mesmo sentado, tocando na guitarra o baixo de cada música. Ringo, que olhava para os guitarristas sem sorrir, foi consolado por Elvis: 'Pena que eu deixei a bateria em Memphis'".
"Eu rondei pela sala. Um grande piano branco ocupava o canto, próximo ao bar e a uma jukebox que não continha artistas britânicos e tinha só um disco de seu dono: "Return to Sender". Os acompanhantes de Presley mantiveram os Beatles supridos com drinks, mas ele mesmo não bebeu ou aceitou os cigarros oferecidos por aqueles que não leram (ou acreditaram) em suas biografias. Mesmo naquela atmosfera descontraída eu nunca o ouvi dizer um único palavrão."
"Estou certo de que os Beatles ficaram impressionados com seu equilibrado estilo de vida. "Isso que é vida", disse Lennon imitando o sotaque de Peter Sellers. "Um pequeno encontro caseiro com alguns amigos e um pouco de música." Elvis sorriu. No fundo da sala, Brian Epstein e Colonel Parker conversavam sentados, observando seus astros como se fossem seus pais."
O bate-papo
"Nosso anfitrião disse: 'Acontecem umas coisas engraçadas na estrada, né? Lembro uma vez em Vancouver quando nós tocamos umas duas músicas quando invadiram o palco e quebraram tudo.' Paul disse: 'Nós já tivemos umas experiências muito loucas. Um cara invadiu o palco, tirou os cabos dos amplificadores e falou: 'Um movimento e você morre!'' Elvis comentou: 'Às vezes as coisas ficavam bem assustadoras…', e John respondeu: 'Mas você é um só, nós pelo menos temos uns aos outros lá em cima. Se alguém me empurra e diz aquilo, e eu estivesse lá sozinho como você estava, eu acabaria com a banda.'"
"O assunto mudou para avião e Presley contou aos Beatles algumas experiências que o deixaram traumatizado com viagens aéreas: 'Uma vez peguei um pequeno avião em Atlanta que só tinha dois motores, e um deles parou. Eu fiquei apavorado, eu realmente pensei que era meu fim. Tivemos que tirar objetos perfurantes dos bolsos e ficar com a cabeça nos joelhos. Quando aterrissamos, o piloto estava banhado em suor, mesmo nevando do lado de fora.'"
"Em resposta George falou sobre o voo que ele pegou em Liverpool e a janela do lado dele se abriu. Quando se esgotou, o assunto mudou para carros. Elvis disse: 'Eu tenho um Rolls Royce Phantom Five.' Lennon disse: 'Eu tenho um igual, só que mandei pintar os cromados de preto.'
"Pouco após 2 da manhã, cedo para os Beatles, mas tarde para Elvis, alguém decidiu que era hora de partir. Estava tocando "Softly As I Leave You", de Matt Monro, enquanto os Beatles apertavam a mão de Elvis em sua casa. Eles agradeceram pela caixa com todos os discos dele que receberam de Colonel Parker em nome de Presley."
"Enquanto eles entravam na limusine no quintal, um monte de fãs gritavam 'Elvis é rei!' e 'Nós amamos os Beatles!', alternadamente. A caminho de casa, John, Paul, George e Ringo tagarelavam sobre a experiência, concordando que o encontro foi inesquecível, e um dos momentos mais incríveis de suas vidas."
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