Beatles: Eles eram os donos do mundo em 1965
Resenha - Live at Shea - Beatles
Por Hugo Alves
Postado em 08 de julho de 2012
Não posso dizer que comecei a ouvir Rock pelos BEATLES, como muita gente teve o privilégio de começar. Mas a partir do momento que comecei a ouvir sua música, posso dizer sem medo de errar que minha vida mudou, e muito. Hoje compro e coleciono tudo o que posso deles, e já cheguei a ver ao vivo aquele que hoje considero como o maior compositor de todos os tempos, Sir PAUL MCCARTNEY. De qualquer modo, nunca tinha encontrado um registro de algum show dos Fab 4 que me deixasse totalmente feliz. Até me deparar com "Live at Shea", provavelmente o mais completo registro existente de um show da banda. Se eu errar em dizer que é o mais completo, ao menos posso garantir que é o mais cheio de energia...
O DVD não tem extras, e nem precisa; o show, por si só, já é um registro cheio de conteúdo, mostrando aquela que permanece como a mais importante banda de todos os tempos em seu auge, feliz, desenvolta, solta no palco e livre até para algumas bagunças, como farei entender ao longo desta resenha. As primeiras cenas do registro são filmagens de ambientes dentro e acima da Nova Iorque de 1965, já surpreendente pelo seu número de arranha-céus – o que é citado por um dos quatro rapazes, que vão falando sobre suas experiências nos EUA conforme essas imagens vão passando.
Por mais que todos tenham plena consciência do que foi a chamada "beatlemania", não há como não se surpreender ao ver fãs se descabelando já nos longínquos anos 1960 – algumas chegam ao ridículo de ser carregadas por alguns dos muitos policiais que estavam no local, ou perderem aqueles 30 minutos na base do berro, do choro e da insanidade. Sim, para os poucos que não sabem, e ao contrário dos shows do velho Macca (que chegam a durar 3 horas), os garotos de Liverpool praticamente nunca estenderam suas passagens pelos palcos por muito mais do que 30 minutos – mas deve ter sido a meia hora mais emocionante pra quem viu, isso sim! De qualquer modo, eles sobem no pequeno palco após serem apresentados pelo maior showman naquela época nos EUA, Ed Sullivan, cumprimentam as 55.000 pessoas presentes, arranjam seus amplificadores e, então, a mágica começa.
JOHN LENNON dita as regras daquele show na primeira canção, "Twist and Shout", numa versão ao vivo das mais empolgantes. Engraçado notar que toda vez que um dos BEATLES anunciava uma canção, os gritos eram ensurdecedores até às primeiras notas da canção executada. Em seguida, começa uma (desnecessária) sessão de fotos ao som de uma versão ao vivo de "She’s a Woman" – não dá pra dizer se ela esteve presente naquele show, e ela não consta no tracklist do DVD. O clima de show volta em "I Feel Fine", que ainda permanece como um dos mais gostosos trabalhos vocais da "beatlemania". Enquanto Lennon fazia suas partes principais cantando a canção, PAUL MCCARTNEY e GEORGE HARRISON mantinham backing vocals de dar inveja a muitos corais por aí. Outra curiosidade é que nos EUA, a discografia da banda não era a mesma que no Reino Unido, e na hora de anunciar as canções os jovens rapazes se confundiram um pouco. É o que acontece na introdução de "Dizzy Miss Lizzy", música que tem mais fama como sendo fruto do ciúme de John, que não queria que o álbum "Help!", trilha sonora do filme lançado naquele mesmo ano, terminasse com a "Yesterday" de Paul, e enfiou essa canção no final. De qualquer modo, é um Rock despretensioso e gostoso de ouvir, contrastando com "Ticket to Ride", que vem em seguida. Não dá pra dizer que JOHN LENNON é o único que brilha nessa bela canção, pois PAUL MCCARTNEY faz sua segunda voz em tons altíssimos e abrilhanta ainda mais a composição. Outra canção que vem com sessão de fotos no lugar das filmagens é "Everybody’s Trying to be My Baby" que, estranhamente, consta no tracklist do material.
Paul toma a frente com sua empolgante "Can’t Buy me Love", e não tem como não rir com a performance do baixista, que canta toda a canção pulando feito um boneco. Uma das melhores performances do show, sem sombra de dúvida, cheia de paixão e energia. Em seguida, John volta à liderança com a arrastada "Baby’s in Black", que insistia em permanecer no set da banda. Isso, aliás, era um pequeno incômodo nos shows dos BEATLES; dificilmente você vai encontrar registros ao vivo de petardos como "Drive My Car", "I’ve Just Seen a Face", "You’ve got to hide your love away" ou "Eight Days a Week", só para citar alguns, em detrimento de outras canções mais "lado B". De qualquer modo, em seguida, um Rock mais acelerado, com cara de country, cantado de forma meio desafinada e até um pouco engraçada pelo baterista RINGO STARR, e esse Rock é "Act Naturally".
O final é apoteótico! Primeiro, John começa a conversar com o público e começa a ter um ataque de palavras incompreensíveis/ impronunciáveis por causa de George, que teve um breve problema com sua guitarra, e em seguida anuncia a faixa-título do primeiro filme dos BEATLES: "A Hard Day’s Night", numa performance maravilhosa e, novamente eu digo, transbordando energia, mas não tanta quanto na seguinte, a faixa-título do mais recente filme da banda naquele momento, que era "Help!". A execução dessa canção ao vivo é emocionante, pois essa música é uma daquelas que viram símbolo de uma banda, e isso sem contar que novamente Paul e George praticam backing vocals que parecem retirados de algum sonho ou algo do gênero. A única falha nesse registro fica por conta do áudio da canção na segunda estrofe, porque de resto não tem como não ficar satisfeito, considerando que trata-se de um registro de 1965. A última canção é provavelmente uma das coisas mais classudas que os BEATLES já fizeram: "I’m Down". A atração fica por conta de John; como se não bastasse largar a guitarra e ir para o órgão, ele ainda resolve tocar várias partes com os cotovelos! E o mais incrível é que ele não fez isso deliberadamente, de modo que só fez deixar a música ainda melhor! Essa loucura chegou a arrancar risos até mesmo de seus parceiros de banda, como é possível notar nas filmagens. E assim terminou o show que considero como o melhor dentre os registrados pela banda.
O que dizer? É delicioso ver esses quatro caras em cima do palco, tocando e se divertindo, pouco tempo antes da difícil batalha de egos que tomaria mais alguns anos e levaria à dissolução dessa banda indescritível. Sim, eles continuavam seguindo a cartilha que Brian Epstein criara para levá-los ao sucesso, mas é possível notar que algumas coisas estavam para mudar, e que mesmo obedecendo os mandamentos do empresário, eles já não eram mais tão bons moços assim. O resultado é nervoso, elétrico... E divino.
Tracklist do DVD:
1. Twist and Shout
2. I Feel Fine
3. Dizzy Miss Lizzy
4. Ticket to Ride
5. Everybody’s Trying to be My Baby
6. Can’t Buy Me Love
7. Baby’s in Black
8. Act Naturally
9. A Hard Day’s Night
10. Help!
11. I’m Down
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