Slayer: em forma como nunca, fazendo o inferno como sempre
Resenha - World Painted Blood - Slayer
Por Thiago El Cid Cardim
Postado em 01 de julho de 2010
Nota: 9 ![]()
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Se a discografia do Slayer fosse colocada em um daqueles gráficos que o mundinho corporativo tanto adora, seria possível ver bem nítidos dois picos e um vale. O primeiro pico, é claro, seria o período entre a década de 80 e o comecinho da década de 90, com discos clássicos como "Show no Mercy", "Hell Awaits" e o mais do que histórico "Reign in Blood". Até 1998, no entanto, seria possível ver uma queda considerável na produção – que, em 2001, voltaria a formar um outro pico a partir de "God Hates Us All". Quando a formação clássica se reuniu novamente em "Christ Illusion" (2006), então, o nível de qualidade cresceu ainda mais, para o bem dos ouvidos de quem gosta de um thrash metal com as mesmas doses de fogo e fúria de outrora. "World Painted Blood" chega justamente para manter o padrão lá em cima. O quarteto californiano continua em forma como nunca, fazendo o inferno como sempre.

Parte da imprensa musical apressou-se em dizer que "World Painted Blood" é o mais melódico dentre os recentes lançamentos do Slayer. A afirmação faz sentido – mas não pode ser interpretada fora de contexto. Quando se fala em melodia, é bom que se trace um paralelo direto, talvez, com "Seasons in the Abyss". Sim, é possível entender claramente o que Tom Araya canta, como dá para perceber logo pela faixa-título que abre "World Painted Blood" ou mesmo na estilosa e cadenciada "Beauty Through Order". Mas que isso não signifique que a banda abriu algum tipo de concessão e ficou, digamos, mais leve. Bem longe disso. Dá para perceber mais nitidamente a interpretação de Araya? Dá. Mas o cara continua vociferando como um animal. Ainda bem.
O que vemos em "World Painted Blood" é sim um Slayer que, mesmo depois de décadas, ainda está pisando no acelerador e sem qualquer pretensão de recorrer aos freios. No álbum, existe espaço para o clima sombrio que uma "Playing with Dolls" permite criar, refletindo a esperança de um futuro apocalíptico e cheio de gritos de horror para nossas crianças (nada mais Slayer, vamos ser sinceros). Mas basta escutar a trinca "Snuff", "Public Display Of Dismemberment" e "Psychopathy Red" para perceber que temos aqui uma banda a 250 km/h, com King e Hanneman destruindo as cordas de suas guitarras e Lombardo comprovando que ainda é um dos mais exímios e talentosos bateristas do planeta.
A respeito dos temas abordados nas letras, por sinal, o Slayer continua sem afinar. "Americon", um dos pontos mais altos de "World Painted Blood", é uma porrada no queixo, de estadunidense para estadunidense, sobre uma nação infectada pela ganância e que mergulha os fracos em um banho de sangue – porque, afinal "it's all about the mother fucking oil", como bem sabe a BP. E ao final, eis que surge "Not Of This God", a mais do que aguardada patada do quarteto a respeito de seu assunto predileto: religião. Deixemos aqui a letra da canção falar por si mesma: "Holy water empty threat, the holy cross has no effect / I piss on any object of virtue, crucifix and rosaries / A world of insecurities, keep waiting for your soul to be rescued / You'll see no bright tomorrow, a promise of more sorrow / You call him the messiah, I see a reckless fashion based on metal slavery". Sem meias-palavras.
É bem sintomático perceber que: 1) o Slayer não pára de colocar no mercado discos de extrema categoria (ou seria de "categoria extrema"?); 2) o Metallica parece ter encontrado o caminho para a redenção com "Death Magnetic" – que, se não é perfeito, pelo menos é uma melhora considerável; e 3) o Megadeth lançou o fenomenal "Endgame", sua melhor bolacha em uma década. Só falta agora o Anthrax desencantar e se resolver logo com seus novos/velhos vocalistas para enfim lançar um disco novo e provar que, por mais que os críticos de plantão detonem, os big four continuam firmes e fortes comandando o heavy metal dos EUA. E que a molecada corra atrás do prejuízo.
Line-Up:
Tom Araya – Vocal/Baixo
Kerry King – Guitarra
Jeff Hanneman – Guitarra
Dave Lombardo – Bateria
Tracklist
01. World Painted Blood
02. Unit 731
03. Snuff
04. Beauty Through Order
05. Hate Worldwide
06. Public Display Of Dismemberment
07. Human Strain
08. Americon
09. Psychopathy Red
10. Playing With Dolls
11. Not Of This God
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