Neil Young: química instantânea e sobrenatural em 69
Resenha - Everybody Knows This is Nowhere - Neil Young
Por Ricardo Seelig
Postado em 04 de junho de 2008
Lançado em 14 de maio de 1969, "Everybody Knows This is Nowhere" é um dos grandes trabalhos gravados por Neil Young no decorrer de sua carreira. Ele marca também o início da colaboração do cantor com o Crazy Horse, a banda mais emblemática a lhe acompanhar desde sempre.
Um coletivo de músicos casca grossa de Los Angeles, o grupo injetou uma dose generosa de peso às composições de Young, e levou o seu som a limites extremos, carregando na distorção e na microfonia. Formada pelo guitarrista Danny Whitten (substituído por Frank Sampedro após sucumbir a uma overdose de heroína em 1972, e inspiração de Young para "The Needle and the Damage Done", canção presente no disco "Harvest" de 1972 e que é um manifesto a respeito dos malefícios da droga), pelo baixista Billy Talbot e pelo baterista Ralph Molina.
A química entre Neil Young e o Crazy Horse, instantânea e sobrenatural, foi capturada em sua plenitude em "Everybody Knows This is Nowhere". Registrado em apenas duas semanas, e mantendo a espontaneidade através de um processo de gravação quase totalmente ao vivo no estúdio, "Everybody Knows This is Nowhere" segue um caminho até certo ponto lógico na então trajetória de Young. O canadense, natural de Toronto, desde que surgiu no cenário musical mostrou um interesse bastante grande pela música tradicional do interior do Estados Unidos, incluindo características de estilos como o country e o folk em suas composições desde os tempos do Buffalo Springfield. Em "Everybody Knows This is Nowhere" essa união entre o rock e, principalmente, o country, atinge um de seus pontos mais altos. A crueza do country, com sua aspereza habitual, ficou ainda mais evidente com as interpretações da Crazy Horse. Com timbres cortantes e nem um pouco polidos, Talbot, Molina e Whitten transbordam sentimentos em uma performance absolutamente impecável. Não há no disco um alto grau de refinamento técnico, e ele nem caberia aqui. Muito da força de "Everybody Knows This is Nowhere" está justamente no despojamento que marca a relação entre os músicos, fazendo com que suas canções transmitam honestidade e credibilidade, dois aspectos não tão em voga hoje em dia.
Já Neil Young mostra logo de cara que havia chegado para ficar e escrever seu nome a ferro e fogo no Olimpo da música. Compositor de talento ímpar, letrista com o raro poder de transmitir seus sentimentos com tal clareza que passamos a acreditar que eles são praticamente os mesmos que os nossos, o trovador canadense mostra em "Everybody Knows This is Nowhere" o porque de ser considerado um dos pilares do rock americano. Desde a abertura com os riffs pesados de "Cinnamon Girl" até os solos estendidos e cheios de emoção de "Cowgirl in the Sand", o que se ouve no álbum é de uma qualidade sublime. Com um repertório muito consistente, onde destacam-se canções como a sentimental faixa título, "Round and About (It Won´t Be Long)", "The Losing End (When You´re On)" e "Running Dry (Requiem for the Rockets)", o disco está sustentado em duas composições espetaculares, que mais parecem jams entre os músicos. "Down by the River" tem um andamento arrastado e preguiçoso, com as guitarras de Young e Whitten se completando em acordes complementares, uma preenchendo os espaços deixados pela outra, em um resultado que deveria ser mostrado para todo e qualquer pessoa que está dando os seus primeiros passos pelo rock. Já "Cowgirl in the Sand" derrama acordes agressivos e solos desesperados, em uma avalanche sonora que encerra o álbum sem deixar pedra sobre pedra.
"Everybody Knows This is Nowhere" é um dos melhores discos lançados por Neil Young em toda a sua carreira, mas não só isso. Suas canções são um documento sonoro permanente da genialidade de um músico sem igual, que, passados quase quarenta anos de seu lançamento original, ainda mantém-se inquieto e contestador, fazendo o que acha correto sem nunca se submeter as regras que tentam lhe impôr, sejam no show business ou na sociedade. Uma atitude que lhe rendeu algumas dores de cabeça, mas que lhe conferiu uma qualidade que pouquíssimos artistas, em todas as áreas, podem se gabar de possuir: credibilidade.
Se você ainda não tem, ou nunca ouviu "Everybody Knows This is Nowhere", faça um favor a si mesmo e vá imediatamente atrás do disco. Não há como se arrepender.
Faixas:
1. Cinnamon Girl
2. Everybody Knows This is Nowhere
3. Round & Round (It Won't Be Long)
4. Down By The River
5. The Losing End (When You're On)
6. Running Dry (Requiem For The Rockets)
7. Cowgirl in the Sand
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Os 15 discos favoritos de Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden
A banda punk que Billy Corgan disse ser "maior que os Ramones"
As cinco bandas de rock favoritas de Jimi Hendrix; "Esse é o melhor grupo do mundo"
Os guitarristas mais influentes de todos os tempos, segundo Regis Tadeu
Por que "Mob Rules" é melhor do que "Heaven and Hell", segundo Jessica Falchi
"Um baita de um babaca"; o guitarrista com quem Eddie Van Halen odiou trabalhar
Dave Mustaine afirma que Marty Friedman é incrivelmente talentoso, mas muito misterioso
A música feita na base do "desespero" que se tornou um dos maiores hits do Judas Priest
A voz que Freddie Mercury idolatrava; "Eu queria cantar metade daquilo", admitiu o cantor
Sepultura anuncia título do último EP da carreira
Luis Mariutti anuncia seu próprio podcast e Rafael Bittencourt é o primeiro convidado
Mick Mars perde processo contra o Mötley Crüe e terá que ressarcir a banda em US$ 750 mil
Dave Mustaine comenta a saída de Kiko Loureiro do Megadeth: "Era um cara legal"
A música de rock com a melhor introdução de todos os tempos, segundo Dave Grohl
Grammy 2026 terá homenagem musical a Ozzy Osbourne; conheça os indicados de rock e metal



O solo de uma nota que Eddie Van Halen elegeu como um dos maiores; "um tapa na cara dos virtuoses"
Em protesto contra Trump, Neil Young libera acervo de graça para moradores da Groenlândia
Os 3 veteranos do rock que lançaram álbuns que humilham os atuais, segundo Regis Tadeu
O guitarrista que Neil Young colocou no mesmo nível de Hendrix, e citou uma música como "prova"
Em 1977 o Pink Floyd convenceu-se de que poderia voltar a ousar


