Poison: um enorme sorriso no rosto do ouvinte

Resenha - Poison'd - Poison

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Por Thiago El Cid Cardim
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Nota: 8

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Este disco chega ao mercado com todas as principais características para fazer a alegria da crítica especializada, que encontraria em “Poison’d” um saco de pancadas ideal. Acompanhe: depois do retorno da formação original em 2002 com um disco questionável (“Hollyweird”), esta banda oriunda da cena hard rock estadunidense da década de 80 (com seu laquê no cabelo, calças apertadas, cigarro amassado na boca fazendo biquinho e Jack Daniel’s na mão) lançou duas coletâneas (“Best of Ballads & Blues” e “The Best Of Poison: 20 Years Of Rock”) e agora volta à carga com um disco só de covers de bandas que os teriam influenciado.
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Ou seja: “Poison’d” já chega às lojas de todo o planeta com a estampa de “caça-níqueis” colada em lugar bem visível. Uma frase fácil para constar em qualquer resenha de um redator carrancudo e fã, sei lá, dos Strokes: “O último suspiro de uma banda decadente”. Mas, diabos, e não é que “Poison’d” supera todos os pré-conceitos que carregaria por natureza e se revela um CDzinho bem do divertido?

É necessário que se explique: “Poison’d” funciona muito bem caso você curta o tipo de hard rock que eles fazem – sem pensar que, mesmo dentro do cenário no qual eles surgiram, grupos como o Mötley Crüe e mesmo o Skid Row praticavam uma sonoridade bem mais sólida – e caso você não seja um xiita que se incomoda com os nítidos flertes que a banda faz há décadas com a música mais pop. Sendo assim, dá para curtir numa boa as releituras divertidas e grudentas que Bret Michaels e sua trupe fizeram para artistas dos mais variados calibres.

É de se imaginar, por exemplo, que entre as canções escolhidas estivesse uma como “Little Willy”, dos decanos do glam rock do Sweet, música que abre a bolacha. Assim como dava para supor que o tracklist fosse trazer nomes como Alice Cooper, Kiss e David Bowie. Mas que tal versões para The Who, Rolling Stones, para a new wave do The Cars, para o duo pop Loggins & Messina ou para o melancólico baladeiro Jim Croce? Inacreditável, não?

”Can't You See” (dos sulistas do The Marshall Tucker Band) e “I Never Cry” ganham sabores daquelas baladas meio country que o Poison gerava com perfeição – e que são nitidamente carregadas pelo frontman Michaels, que é praticamente um artista country em sua carreira-solo. “Suffragette City” (Bowie) e “I Need to Know” (Tom Petty & The Heartbreakers) misturam fidelidade ao original com aquele típico revestimento oitentista, pesando nas guitarras distorcidas cantantes.

Mas os melhores momentos são aqueles que também causam mais estranhamento à primeira audição, justamente pela ousadia da banda ao tentar dar a sua cara ao negócio todo. Em “Dead Flowers” (Stones), Michaels tenta emular um Mick Jagger mais farofa, fazendo parecer que a faixa foi especialmente escrita para o Poison. “Squeeze Box”, do The Who, mantém a melodia tipicamente anos 60, naquela levada roqueira dançante que se choca de frente com o peso hard rocker do Poison em uma mistura alucinada e provocativa. A mesma análise vale para “Your Mama Don't Dance”, do Loggins & Messina, que acrescenta porrada a uma canção originalmente Elvis Presley-style, dando vontade de sair cantando e batendo o pézinho. E se a sua festa estiver pra baixo, coloque para rodar “What I Like About You”, a versão do Poison para o power pop do The Romantics, e espere os convidados saírem pulando por aí ao som de uma série de coraizinhos divertidos. Encerrando a bagunça, a já conhecida reinterpretação de “We're An American Band”, do Grand Funk Railroad – cuja letra sobre uma banda tipicamente ianque se encaixa como uma luva na proposta do Poison.

O único “senão” fica justamente para “Rock and Roll All Nite”, a canção-símbolo do Kiss e que, além de ser uma escolha um tanto óbvia (por que não “Plaster Caster”? Ou “Do You Love Me”?), não mudou em nada com relação ao original, ficando aquém do restante da seleção de material.

”Poison’d” tem mesmo aquele cheirinho inegável de caça-níqueis, tudo bem. Mas estamos falando de um mercado que, nos últimos anos, foi invadido por lançamentos caça-níqueis de bandas ressuscitadas das trevas em busca daquele lugarzinho ao sol que um dia foi delas. Basta puxar pela memória e você vai lembrar de uma dúzia. “Poison’d” pode ser um disco caça-níqueis. Mas se você preferir considerá-lo assim, pelo menos leve em consideração que é um daqueles caça-níqueis muito bem feitos e com um resultado final que deixa um enorme sorriso no rosto do ouvinte bem-humorado. Se todos fossem assim, nossos finais de semana estariam salvos.

PS: Vamos simplesmente ignorar o fato de que, na versão exclusiva do CD distribuída pelas lojas da rede Walmart, eles resolveram incluir como bônus uma versão de “Sexy Back”, do insuportável Justin Timberlake.

Line-up:
Bret Michaels - Vocal, Guitarra Base, Gaita
C.C. DeVille - Guitarra Solo
Bobby Dall - Baixo, Teclado
Rikki Rockett - Bateria

Tracklist:
1. Little Willy
2. Suffragette City
3. I Never Cry
4. I Need to Know
5. Can't You See
6. What I Like About You
7. Dead Flowers
8. Just What I Needed
9. Rock and Roll All Nite
10. Squeeze Box
11. You Don't Mess Around With Jim
12. Your Mama Don't Dance
13. We're An American Band

Gravadora:
Capitol

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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