Resenha - Road To Escondido - J. J. Cale & Eric Clapton -

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Por Ricardo Seelig
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Nota: 10

A carreira solo de Eric Clapton é muito diferente da história que ele construiu ao lado dos grupos de que participou (Yardbirds, John Mayall's Bluesbrakers, Cream, Blind Faith e Derek And The Dominos). Enquanto que em suas bandas Clapton foi, primeiramente, um dos maiores responsáveis pela tradução do blues negro americano para o público inglês branco dos anos sessenta, tornando o estilo popular entre a juventude daquela época, e, em segundo lugar, um dos artesãos principais da pedra fundamental do que iríamos chamar de hard rock nas próximas décadas (no Cream, ao lado de Jack Bruce e Ginger Baker), em seus discos solo Clapton trilhou um caminho distinto.

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O som que Eric Clapton construiu nos primeiros anos de sua carreira solo, durante a década de setenta, foi fortemente influenciado por dois artistas: Delaney Bramlett e Jean Jacques Cale. Ao lado do primeiro, Clapton saiu em turnê após o final do Cream, fazendo shows antológicos que estão registrados no clássico álbum ao vivo "On Tour With Eric Clapton", lançado em 1970. Foi com a influência de Delaney e sua esposa, Bonnie, que Clapton inseriu na sua música elementos do pop e do soul que iriam definir, mais tarde, a sonoridade dos seus trabalhos solo.

Já com J.J. Cale a coisa foi mais explícita ainda. A excelente estréia auto-intitulada de Clapton, lançada em 1970, foi puxada por uma versão antológica de uma canção de Cale, "After Midnight". Além disso, "Cocaine", talvez a música mais famosa da carreira do guitarrista, também foi composta por Cale. Mas Clapton não se limitou apenas às regravações. O estilo manhoso de Cale tocar a sua guitarra é uma das maiores influências de Clapton. Basta ouvir e comparar para perceber. Além disso, a maneira tranquila com que Cale canta suas músicas também foi transferida para Clapton, virando uma de suas marcas registradas.

A idéia que fez surgir "The Road To Escondido" partiu de um convite de Clapton para que J.J. Cale produzisse seu novo disco solo. Como já era de se supor, a afinidade entre as duas lendas foi tão grande no estúdio que tudo se transformou, mais que naturalmente, em um álbum dividido pelos dois.

Musicalmente, o que temos está muito mais próximo da carreira de Cale do que da de Clapton. Aliás, J.J. Cale faz o vocal principal na maioria das músicas, com Clapton se comportando de maneira reverencial ao seu antigo mestre. As canções vêm carregadas de influências de estilos como blues, rock e jazz, fundidos em um só. O que se ouve em "The Road To Escondido" é o que se ouve nos álbuns de Cale, acrescentado do enorme talento de Eric Clapton. Sendo assim, não é difícil para qualquer conhecedor da carreira dos dois sacar o tamanho da magia, do brilho e do apelo que "The Road To Escondido" traz em suas quatorze faixas. Só de sacanagem, para colocar ainda mais água na boca de qualquer fã de boa música, a banda que acompanha Cale e Clapton traz nomes como o baterista Steve Jordan, o baixista Pino Palladino, os guitarristas Albert Lee e Derek Trucks, além de participação especial de John Mayer. Se tudo isso já não bastasse para transformar o álbum em um clássico instantâneo, ele ainda traz o último registro do tecladista Billy Preston, falecido há pouco tempo.

Por tudo isso é que "The Road To Escondido" acaba se transformando em um álbum diferenciado àqueles que estamos acostumados encontrar às pencas por aí. Suas músicas pedem uma degustação calma, tranquila, sem pressa. Ouvi-las nos transporta para outra dimensão, para uma época mais inocente, onde a música era mais simples, mais emotiva, e, porque não, mais verdadeira. É por essa razão que cada ouvinte terá uma sensação diferente ao ouvir o disco. Eu achei "Heads In Georgia", "Hard To Thrill", "Three Little Girls" e a regravação de "Don't Cry Sister" (hit da carreira solo de Cale) os melhores momentos de um disco cheio de grandes momentos, mas esta opinião irá variar de ouvinte para ouvinte.

Não quero posar de tradicionalista em pleno final de 2006, mas o fato é que "The Road To Escondido" é um trabalho orgânico, rico em detalhes e com uma magia que só conseguimos encontrar (e ouvir) naqueles álbuns clássicos lançados décadas atrás.

Um excelente álbum, uma enorme surpresa neste final de ano, mas, acima de tudo, um trabalho que merece ser ouvido e conhecido por qualquer consumidor de música.

Faixas:
1. Danger
2. Heads In Georgia
3. Missing Person
4. When The War Is Over
5. Sporting Life Blues
6. Dead End Road
7. It's Easy
8. Hard To Thrill
9. Anyway The Wind Blows
10. Three Little Girls
11. Don't Cry Sister
12. Last Will And Testament
13. Who Am I Telling You?
14. Ride The River




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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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