Resenha - Feedback - Rush
Por Sílvio Costa
Postado em 11 de julho de 2004
Mais uma metamorfose na carreira da banda que nunca lançou dois discos iguais. Feedback, como todo mundo já deve estar sabendo é um EP com sete covers de grupos que serviram de background para a carreira do Rush. São versões descompromissadas de standards do rock e do blues que ganharam versões feitas com grande apuro e de modo radicalmente diferente do que estamos acostumados a ouvir nos trabalhos do trio canadense.
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Em primeiro lugar, deve ser dito que Feedback é, antes de qualquer coisa, um disco muito divertido de se ouvir. São músicas muito bem escolhidas e, como já era de se esperar, executadas com o mais alto grau de perfeição. Não existe lugar para grandes reflexões nem para a parafernália eletrônica que marcaram alguns dos mais significativos discos da longa carreira do Rush.
Após trinta anos de estrada (na verdade, o Rush está comemorando trinta anos do lançamento do primeiro álbum, já que Geddy Lee e Alex Lifeson estão na estrada desde 1968) o Rush se reinventa mais uma vez, radicalizando na simplicidade que marcou o último lançamento de estúdio (Vapor Trails, de 2002), alcançando um misto sumamente interessante entre a simplicidade do primeiro disco auto-intitulado, lançado em 1974, e toda a experiência acumulada ao longo de dezenas de excursões bem-sucedidas ao redor do mundo e mais de 35 milhões de discos vendidos. Em resumo, é um disco que poderia muito bem ter sido lançado há uns 25 anos, mas que soa como novidade, no mercado de música que anda tão carente delas ultimamente.
O disco abre com uma versão maravilhosa para "Summertime Blues". Só agora eu descobri que esta música não é do Blue Cheer, mas do Eddie Cochran. O Rush fez uma versão muito próxima daquela imortalizada pelo Cheer. O arranjo é simples (bem, simples para o Rush, que fique bem claro isso) e, seguramente é a faixa mais pesada do disco. Tem um pouco aquele clima de Anthem, Beneath, Between and Behind e todos aqueles clássicos da primeiríssima fase do Rush. Lifeson não economiza em riffs e distorção. Peart, apesar de bem mais discreto e econômico do que costuma ser (entenda isso como o seguinte: Peart não faz aqueles malabarismos que deliciam todos os fãs da banda, mas ele está, como sempre, tocando demais) e os vocais de Geddy Lee conseguem transmitir o sentimento da música de modo perfeito. Esta versão do Rush está também muito próxima daquela que pode ser ouvida no Live at the Isle of Wight Festival, do The Who.
O disco segue com um momento mais "calmo". Desta vez, é uma música do Yardbirds, lançada originalmente em 1965. É uma música muito bonita, com uma melodia de guitarra marcante e grande interpretação de Lee. Novamente, a simplicidade de Peart chama a atenção. O mago das baquetas consegue transmitir a atmosfera de uma canção gravada há quase quarenta anos sem nos deixar esquecer quem é o baterista em nenhum instante. É impressionante como a pegada de Peart parece ter uma assinatura própira.
Na seqüência, "For What it´s Worth", do Buffalo Springfield. É a faixa mais lenta do disco. Novamente, uma grande interpretação de Geddy Lee e solos inspiradíssimos de Lifeson.
"The Seeker" é uma das faixas menos conhecidas do The Who e mereceu uma atençao toda especial do Rush. Os timbres usados por Lifeson são quase idênticos aos de Pete Townshend. Peart executa a levada de Keith Moon com perfeição, mas o Rush não se limitou a reproduzir a canção original, dotando-a de personalidade, especialmente na interpretação de Geddy Lee.
"Shapes of Things", outra do Yardbirds (que, na época do gravação original, em 1968, contava com um sujeito chamado Jimmy Page na formação) é outra faixa empolgante. Desta vez, não temos um Peart contido, mas aquele Peart que impressiona com grooves e linhas de bateria absolutamente magistrais.
"Crossroads" fecha o disco. O blues de Robert Johnson, imortalizado pelo Cream ficou simplesmente perfeito na voz de Geddy Lee.
Resumo da história: Feedback não é bom. É maravilhoso! O Rush superou até mesmo as expectativas mais delirantes dos fãs. A renovação da banda. Não é à toa que, apesar dos inúmeros clássicos que voltaram a ser executados pelo grupo nos shows da última tour, os pontos altos das apresentações acontecem quando a banda toca "Crossroads", "Summertime Blues" e "The Seeker". Isto porque Feedback tem exatamente aquilo que todo fã de rock gosta: muitas guitarras e muita honestidade. Em pouco menos de trinta minutos (tempo aproximado de duração de Feedback), o Rush consegue fazer o que muitas bandas tentam fazer em décadas de carreira sem jamais conseguir: tocar com o coração e expressar-se artisticamente sem falsidades e sem máscaras. Indispensável, obrigatório e, acima de tudo, uma aula de boa música.
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