Resenha - Funhouse - Stooges

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Por Denio Alves
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Piração, berros demenciais, guitarras no pico, distorções imprevisíveis, letras marginais e degeneradas, um bate-estaca percussivo ensurdecedor, linhas de contrabaixo viscerais golpeando o coração inaudito do ouvinte etc., etc. e tal...
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Isso é tudo o que você pode esperar das gravações realizadas pelo lendário grupo que, nas palavras de gente como o saudoso Joey Ramone e Jello Biafra – considerados estandartes sagrados do gênero – pode ser considerado como “os verdadeiros pais do punk rock”?

Provavelmente, você e muitos outros já ouviram falar deste quarteto ensandecido de Detroit, que se autodenominava, numa singela paródia àquele trio de humoristas anárquicos do cinema preto-e-branco, Os Patetas. Entretanto, a anarquia destes patetas aqui, os Stooges, era algo bem mais interessante... Você deve saber já, então, que foi a partir desta trupe que o hoje célebre Iggy Pop galgou os degraus da vertiginosa escadaria da fama do rock – e com muito custo, diga-se de passagem, dados o notório temperamento, digamos, excêntrico do vocalista, e a extremamente sedimentada PÉSSIMA fama da banda. Entretanto, foi aqui que tudo começou. E, segundo os nomes nada irrelevantes que eu citei agora mesmo, inclusive o punk rock.

Neste “Funhouse”, de 1970, – um dos grandes fracassos de venda da Elektra Records daquele ano! - o que o caro amigo roqueiro que está debruçado sobre estas minhas palavras pode conferir é, justamente, tudo isto que eu citei no primeiro parágrafo deste texto – e, como eu havia perguntado, existe algo mais? Olha... SIM, realmente existe.

Que tal se eu dissesse que este LP (hoje encontrável em CD com certa dificuldade, importado, mas até mesmo em uma edição especial dupla, focalizando quase todas as sessões de gravação, ensaios, outtakes, e mil e uma curiosidades mais) foi produzido por um grande porra-louca dos anos 60, egresso de uma banda também suja, barulhenta e imoral, chamada The Kingsmen, e cujo único grande hit foi aquele hino à esbórnia e à mulherada de beira de cais chamada “Louie Louie”? Pois é... foi. O nome desse cara era Don Galucci, ex-tecladista dos Kingsmen, – reverenciados, sobretudo, pelos Stooges – e se existiu alguém que pode ser apontado como um dos grandes culpados pela realização deste verdadeiro ultraje sonoro que é “Funhouse”, este alguém foi ele. Mas, então, por que a produção de Galucci foi tão crucial para que “Funhouse” saísse exatamente do jeito que saiu?

No início de 1970, os Stooges, como banda, não andavam nada bem. Iggy Pop (vocais, então chamado Iggy Stooge – o Pop viria depois, cortesia de David Bowie, que alavancou a carreira de Iggy nos anos 70 e o ajudou a se reerguer depois de uma temporada, inclusive, no manicômio!!!), Dave Alexander (baixo), Ron Asheton e Scott Asheton (irmãos, guitarra e bateria, respectivamente) vinham atravessando um momento de vacas magras e redefinição em suas carreiras. Já haviam conseguido lançar um primeiro LP, – algo honorável para uma banda tão agressiva e musicalmente primária como eles, naqueles gloriosos anos 60 – apesar de que isso não fosse exatamente um sonho deles.

Sadomasoquismo num show dos Stooges (1970): Iggy – só podia ser ele! – lambe as botas da gatinha da platéia.
Sadomasoquismo num show dos Stooges (1970): Iggy – só podia ser ele! – lambe as botas da gatinha da platéia.

Como costumava dizer Iggy Pop em uma de suas entrevistas: “os Stooges não começaram a tocar para gravar discos. Queríamos tocar para zoar, fazer barulho e comer as menininhas”. Enfim, o autêntico e despretensioso espírito original do rock. O problema é que, descobertos por Danny Fields, olheiro da gravadora Elektra, durante uma passagem dele por Detroit, para tentar assinar um contrato com outra banda barulhenta notória da época (o MC5), os Stooges chamaram a atenção desde o primeiro momento devido à postura de palco extremamente original de Iggy (para aqueles tempos), e o verdadeiro frenesi que tais movimentos, unidos ao som nada convencional e amplificado no último volume da banda, provocavam na platéia. Os privilegiados que tiveram a oportunidade de assistir aos primeiros shows dos Stooges (hoje quase todos mortos...) presenciaram um universo caótico que se formava em constante ebulição durante os cerca de cinqüenta minutos em que Iggy conseguia se manter no palco: do barulho de liquidificadores e motores de moto-serra ligados a microfones e amplificado junto ao atordoante som da guitarra de Scott (uma pioneira heresia, que se antecipava aos hoje manjados ruídos do industrial metal!), aos rodopios convulsivos e efeminados de Iggy durante os shows, com a cabeça completamente entupida de tudo quanto é ácido lisérgico e droga alucinógena que você possa imaginar, exatamente TUDO podia acontecer em uma noite com os Stooges tocando. Tanto é que, de 1969 a 1970, enquanto eles tentaram realmente se estabelecer no cenário pop, em sua primeira fase como banda, (a outra viria depois, em 1972, quando tentaram se reagrupar e fazer sucesso, um pouco mais sérios – sem êxito) os Stooges raramente tocaram duas vezes em um mesmo lugar.

Nenhum promotor de espetáculos gostava – era realmente muito perigoso. Com a palavra, novamente, mr. Iggy: “Algumas vezes, eu estava tão chapado de coca e LSD, tão doido, que eu simplesmente descia do palco, no meio do show, e começava a avançar nas garotas. Ameaçava comer elas... E uma vez, eu fiz! Eu realmente comi uma, pra valer! (rindo)”. Lida com certo distanciamento, tal declaração pode conter certo exagero. Mas, se o clima das apresentações dos Stooges era este mesmo, imagine então o rebuliço que a banda, inicialmente conhecida apenas pelos lados de Detroit e região, causou na então cada vez mais preocupada sociedade retrógrada norte-americana daquela época, que anos antes já se horrorizava só de ver seus guris deixando seus cabelos crescerem e gurias berrando feito loucas, ao se esbaldarem com o som de quatro “selvagens” de Liverpool chamados Beatles? E tal polêmica começou a pintar assim que os Stooges, já famosos por tais pandemônios, – na verdade, bem mais camp e divertidos do que as sisudas e pretensamente “vanguardistas’ apresentações chapadas dos Doors e Velvet Underground – gravaram seu primeiro disco e começaram a ser ouvidos e comentados nos grandes centros urbanos do país, a começar por Nova Iorque. A partir daí, o caro leitor já deve imaginar que as propostas para shows começaram a rarear.

A Grande Maçã, aliás, foi o lugar onde os Stooges desembarcaram, trazidos por Danny Fields, para gravar o seu não sonhado primeiro LP, ainda em 1969. E, desde o primeiro momento, a produção do bendito foi um problema: o escolhido para a árdua missão de educar, para a gravação em um estúdio profissional, aqueles garotos que, como Iggy dizia, “não sabiam diferenciar graxa de sapato de bosta de cachorro”, de tão pobres e delinqüidos que eram, foi do baixista, violonista e tecladista do Velvet Underground, o lendário John Cale.

Os Stooges, não é nem preciso dizer, nunca haviam sequer passado em frente de um estúdio de gravação, e nem faziam a mínima idéia de como ficaria o som deles numa fita master, muito menos em um vinil. Scott Asheton relembraria, anos depois: “Cale ficava dizendo para a gente, ‘gravar um disco é diferente, não é como um show ao vivo, não precisa ligar o amplificador TÃO ALTO, não precisa cantar TÃO ALTO’, e ficava pirado com o barulho que a gente produzia lá dentro!”. Foi indo, Cale começou a ficar de saco cheio. E os Stooges, idem.

Para resumir a estória toda, Cale, no final das contas, deixou bem claro para a banda que o negócio, se eles quisessem fazer sucesso e serem mais respeitados por aqueles lados, era assumir uma postura mais blasé e de vanguarda, excêntrica, bem inspirada na tal arte pop da época (como fazia o Velvet Underground, sob a batuta de Andy Warhol), e largarem aquele lance de serem sujos demais. Assim, meio que a contragosto, “The Stooges”, o auto-proclamado primeiro LP da banda, saiu em 1969 com uma cara meio que de “disco de arte”, e, apesar de conter já o peso e a energia da banda em suas clássicas faixas (“No Fun”, “1969”, a impagável “I Wanna Be Your Dog”, talvez a mais perfeita punk song já feita), continha, também, como enrolação vanguardista proposta por Cale, 11 minutos de uma canção que mais era uma experiência sonora sombria e maçante, e na qual o próprio Cale, insistentemente, tocava a sua viola (nada a ver com o violão – é um instrumento parecido com o cello), chamada “We Will Fall” – “nós vamos cair”.

E caíram mesmo! Apesar de Cale não ser profético ao falar para os garotos que eles não teriam futuro nenhum com o som a que se propunham, ele acabou sendo profético no título desta música. Os Stooges amargaram um fracasso retumbante de vendas naquele 1969 (a Elektra pensaria várias vezes antes de recruta-los para gravar algo novamente), estavam queimados em vários lugares para concertos por causa da má reputação deles, e se viram forçados a voltar para a sua Detroit e arredores, em virtude de problemas financeiros. Por lá, diante dos gatos pingados de uma ou outra apresentação que conseguiam fazer em algum nightclub da pesada, passaram por vários dissabores e experiências incomuns até serem novamente chamados por Danny Fields e a Elektra para tentarem a sorte com um outro LP – talvez pela insistência de Fields, bichona assumida, que sempre fora meio apaixonado por Iggy. Neste meio tempo, Iggy ainda arrumou tempo para se casar com uma garota judia (!!!) – “uma das maiores loucuras da minha vida, um fracasso completo; eu ficava tocando guitarra escondido dentro do armário, para não atrapalhar ela e os vizinhos, compondo ‘Down on the Street’ e outras músicas daquilo que viria a ser o ‘Funhouse’, e ela vinha me encher o saco” – e teve até mesmo um romance idílico com a ex-cantora do Velvet Underground, a loiraça húngara Nico (“foi como se fosse um paraíso de dois meses entre eles, de verdadeira e intensa paixão e muito sexo – até que um dia terminaram, e quando ela foi embora, Iggy sentiu umas coceiras e me chamou num canto perguntando o que era aquilo saindo do pinto dele – eu lhe disse, ‘Iggy, parabéns meu caro – acabaste de pegar uma gonorréia”, comentaria Scott, tempos depois).

Iggy ao vivo – 1970
Iggy ao vivo – 1970

Pois bem, ao voltarem a Nova Iorque para gravarem “Funhouse”, lá encontraram Galucci, e a proposta deste, convertido em produtor, para o novo disco da banda, os seduziu por completo – o approach para o novo LP deveria ser totalmente espontâneo, como se o som que saísse do disco fosse aquele mesmo que os Stooges fizessem ao vivo, só que com a clareza de uma boa gravação de estúdio.

E foi assim que “Funhouse”, gravado em menos de duas semanas, se tornou o melhor disco dos Stooges, e um dos maiores clássicos do rock: é a reprodução fiel de um espírito libertário e de uma gana para fazer rock como não se encontra mais em 99% das bandas da atualidade. Barulho de verdade, feito para incomodar, e sem truques ou firulas de estúdio – simplesmente os quatro lá, tocando como se num palco qualquer estivessem, e como se o fim do mundo fosse dali a alguns poucos instantes. Está tudo registrado (que preciosidade!), com riqueza de detalhes, na tal edição dupla lançada em 1999, a que eu me referi no início deste artigo.

O trabalho vocal de Iggy, em relação ao primeiro disco, por exemplo, soava completamente diferente: o que antes eram berros contidos, quase eliminados pela produção castradora de John Cale (que procurava destacar, tão somente, a guitarra cheia de wah wah de Scott), agora eram uivos primários, ensandecidos, gritos primais e repletos de selvageria e neurose, além de passagens repletas de sarcasmo e ironia, comentando a realidade nua e crua das ruas. A guitarra de Scott, também, liberta do visionarismo psicodélico de Cale, estava mais ágil, atrevida, arriscava arabescos ácidos e solos viajantes repletos de suingue e peso que extravasavam, e muito, a dita precariedade musical que os críticos da época tão tolamente comentavam. O mesmo pode ser dito do baixo tonitruante de Dave, massacrante. A bateria de Ron, por sua vez, era de um tribalismo e de uma voracidade marcantes. Tá certo que, mais uma vez, o disco ficou encalhado nas lojas e a Elektra se arrependeu amargamente de gravar os Stooges novamente, sofrendo nova decepção: todo mundo estava muito ligado em Rolling Stones e sons “bicho-grilo” mais palatáveis, como Blind Faith e Jimi Hendrix, ou simplesmente chorando o fim dos Beatles, para prestar atenção naqueles garotos de rua de Detroit e suas barulheiras. A obra-prima do grupo, no entanto, estava ali, e serviria de pólvora suficiente para deflagrar uma nova revolução no mundo do rock que iria pôr tudo pra quebrar, dali a seis anos – tendo, como atentos aprendizes, gente como Johnny Rotten e Joey Ramone.

Diante de tudo isso, não há nem como dissecar muito músicas como “Down on the Street”, “1970” (continuação, justamente, da “1969” do disco anterior – depois eles pararam de fazer músicas com o nome do ano em que foram compostas), as clássicas “TV Eye” e “Loose” (obrigatórias em qualquer boa festa de punk rock), a insana balada cheirando a seringa usada “Dirt”, e as pedradas “Fun House” e “L.A. Blues” (esta, candidata perfeita a trilha sonora para o apocalipse – não é brincadeira!).

Nem adianta. As músicas falam por si mesmas. O som é forte demais para que alguém possa se atrever a descrevê-lo. Ouça por si mesmo... e tire suas próprias conclusões.

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Sobre Denio Alves

Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB – Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.

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