Resenha - Here's Luck - Honeydogs
Por Guilherme Rodrigues
Postado em 22 de agosto de 2002
Os norte-americanos têm um ditado que diz "never judge a book by the cover". A versão rock´ n´ roll de tal ditado poderia ser "never judge a band by its name". Certamente Honeydogs não é o nome mais "interessante" para uma banda interessante como os Honeydogs (é certo também que se a gente procurar, vai achar mais bandas legais com nomes mais esculhambados e/ou bandas ridículas com nomes interessantes, mas isso é outra estória). Para completar, "Here´s Luck" também não é um nome à altura de um disco tão interessante quanto "Here´s Luck" (o título é uma piada da banda sobre a dificuldade que tiveram para lançar o disco, coisas do selo antigo deles que foi a pique deixando a banda com "Here´s Luck" pronto nas mãos). Fazer o quê? Como eu disse certa vez a uma gata num daqueles rocks - mais míticos que reais em se tratando de Vitória - ES: "baby, nomes nem sempre importam." (é quase desnecessário dizer que fui mal-entendido). Nada mais apropriado para o caso do disco e da banda em questão.

Quarto disco desta banda de Minneapolis (esse lugar deve ter algo de muito especial, de lá saíram também os Replacements e os Jayhawks), "Here´s Luck", lançado nos EUA em 2000, não causou tremores nem sensações menos nobres na crítica especializada (???) - muito menos no público majoritário, que seguiu incensando os alternativos consensuais da vida (ou pior, adorando coisas como Matchbox 20... bluargh!) -, mas sedimentou o bom papel que a banda vem desempenhando na cena pop-rock norte-americana desde o lançamento de seu penúltimo disco (o já clássico "Seen a Ghost", de 1997).
Os "entendidos" insistem em sapecar a sonoridade dos Honeydogs nos escaninhos do alternative-country, roots rock, insurgent folk-rock. Catalogar "Here´s Luck" em qualquer destes rótulos, entretanto, é impor limites a um disco que, musicalmente, trafega por todos os mapas. A se rotular, preferível o velho e bom "pop", pela amplidão estético-musical que o estilo encerra; sobretudo pelas inspirações que ressaltam no disco (as mais palpáveis sendo Beatles e a velha tradição de harmonizações presente no trabalho dos Everly Brothers e posteriormente dos Beach Boys, aliado à poesia despojada de Dylan, Neil Young e Tom Petty e à iconoclastia pop de Elvis Costello e Ray Davies). Inspirações apenas. A ótica peculiar de Adam Levy (o "main man" da banda) funde cinqüenta anos de cultura pop em canções que evocam indisfarçavelmente o otimismo desconfiado e cáustico dos 90´s. Confirmando Millôr ("o otimista é aquele que não sabe o que o espera."), Levy é um otimista "blue", um iconoclasta das idéias grandiosas e dos discos "larger than life", destilando uma originalidade despojada, que, graças a Deus - ou, segundo alguns, à "sorte" -, ainda encontra ressonância em parte da crítica e do público (que as unanimidades fiquem com os "entendidos").
A veia poética de Adam Levy (guitarras e vocais principais) dá as caras logo na frase de abertura do disco ("The queen is dead/after the drag show" - Stonewall), se espraia ao longo do álbum ("You bought a bridge last night/now you´re watching it burn..." – Pins in Dolls), encerrando "Here´s Luck" com "sutil" coloquialismo ("And though the things that don´t kill us will make us last, it still kicks our ass" – a faixa oculta Chasing the Sun). Junto de Levy, completam a formação da Banda: Brian Halverson (guitarras e vocais), Jeff Victor (piano, orgão, teclas em geral), Noah Levy (baterias e percussão) e Trent Norton (baixo e vocais)
Com "Here´s Luck" fica evidente que Levy se integra ao seleto time formado por Jay Farrar (Son Volt), Jeff Tweedy (Wilco & Golden Smog), Mark Olson (ex-Jayhawks), Ryan Adams (ex-Whiskeytown) e Jacob Dylan (Wallflowers), jogadores completos, novos senhores da antiga e admirável arte de compor letras E melodias admiráveis.
A produção é primorosa, meticulosa, polida, mas sem excessos, ressaltando e valorizando o amplo espectro poético-melódico das composições de Levy, mas deixando a sonoridade genuína da banda intacta. Um tempero para o já palatável sabor das composições alegremente torturadas do rapaz, no qual se misturam cordas arranjadas à George Martin - o piano e o órgão tocados por John Fields e o quarteto de cordas em "Wilson Boulevard" e em "Pins and dolls" abririam um sorriso em Martin -, cítaras, flautas e outros instrumentos menos usuais em discos infelizmente mais recorrentes.
Certamente "Here´s Luck" não é um disco revolucionário, ninguém vai se lembrar onde estava quando o escutou pela primeira vez e lendas afins, mas é o trabalho de uma banda que tem genuíno amor pelo velho e bom pop-rock e que se entrega - visceral e sofisticadamente - à árdua tarefa de manter tal estilo em evidência num cenário em que mudernos, rappers, boy bands e rockers de butique são a "mainstream" (e neste sentido, são absolutamente alternativos), sem ego trips, sem plágios dissimulados. Menos nome, menos imagem, mais música. No final, não é isso que importa?
Um disco como "Here´s Luck" ser lançado no Brasil é o que se pode chamar de "sorte" para quem curte música....
(Trama, por favor, lance o "Seen a Ghost"!)
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