Resenha - Psicoacústica - Ira!
Por Alisson dos Santos Cappellari
Postado em 15 de junho de 2003
Em 1988, o cenário musical brasileiro vivia o auge da ressaca provocada pela explosão do dito Rock Nacional e pela euforia consumista decorrente do Plano Cruzado. A crise econômica parecia ter atingido também a criatividade do meio musical nacional em que os artistas, salvo raríssimas exceções, não conseguiam reproduzir os sucessos de anos passados.
Uma das bandas a perceber essa transformação foi o Ira!. Vindo de dois discos de indiscutível qualidade, aclamados pelo público e de uma vivência tumultuada com a crítica, o grupo apresentou um novo trabalho que surpreendeu a todos pela proposta inovadora que representava.
Psicoacústica tocou na ferida da cultura musical da época. Em sua concepção, apesar da curta duração – oito faixas e pouco mais de meia hora de som -, foi um disco muito bem produzido. Poucas vezes no rock nacional se viu tamanho entrosamento entre os integrantes de uma banda. A guitarra de Scandurra nunca esteve tão afiada. Jung não lembrava aquele que um dia fora renegado pelos Titãs sob a alegação de falta de pegada. Nasi e Gaspa, além de impecáveis em suas atribuições, traziam significativas mudanças nas técnicas de gravação. A produção escalada para o disco também se destacava, uma vez que as relações com Liminha estavam abaladas após a gravação de Mudança de Comportamento.
Rogerio Antonio dos Anjos | Luis Alberto Braga Rodrigues | Efrem Maranhao Filho | Geraldo Fonseca | Gustavo Anunciação Lenza | Richard Malheiros | Vinicius Maciel | Adriano Lourenço Barbosa | Airton Lopes | Alexandre Faria Abelleira | Alexandre Sampaio | André Frederico | Ary César Coelho Luz Silva | Assuires Vieira da Silva Junior | Bergrock Ferreira | Bruno Franca Passamani | Caio Livio de Lacerda Augusto | Carlos Alexandre da Silva Neto | Carlos Gomes Cabral | Cesar Tadeu Lopes | Cláudia Falci | Danilo Melo | Dymm Productions and Management | Eudes Limeira | Fabiano Forte Martins Cordeiro | Fabio Henrique Lopes Collet e Silva | Filipe Matzembacher | Flávio dos Santos Cardoso | Frederico Holanda | Gabriel Fenili | George Morcerf | Henrique Haag Ribacki | Jorge Alexandre Nogueira Santos | Jose Patrick de Souza | João Alexandre Dantas | João Orlando Arantes Santana | Leonardo Felipe Amorim | Marcello da Silva Azevedo | Marcelo Franklin da Silva | Marcio Augusto Von Kriiger Santos | Marcos Donizeti Dos Santos | Marcus Vieira | Mauricio Nuno Santos | Maurício Gioachini | Odair de Abreu Lima | Pedro Fortunato | Rafael Wambier Dos Santos | Regina Laura Pinheiro | Ricardo Cunha | Sergio Luis Anaga | Silvia Gomes de Lima | Thiago Cardim | Tiago Andrade | Victor Adriel | Victor Jose Camara | Vinicius Valter de Lemos | Walter Armellei Junior | Williams Ricardo Almeida de Oliveira | Yria Freitas Tandel |
A obra ficou marcada na história, no entanto, pela complexa conjunção melodia-letra, aliada ao forte teor crítico das canções proposto pelo grupo. Rubro Zorro, a faixa inicial é um grande exemplo. Baseada na história do Bandido da Luz Vermelha, famoso psicopata paulistano da década de 60, a música é de grande intensidade, recheada de efeitos sonoros retirados do filme-biografia do homenageado, além da impecável declamação de Nasi ao fundo, como se fosse um mantra a retratar a consciência do criminoso. Outro destaque é a faixa Receita Para Se Fazer Um Herói. De letra simples e irônica, é uma verdadeira receita para se transformar "um homem feito de nada como nós" em um mito. Uma mordaz crítica sócio-religiosa. Não foi por acaso a escolhida do grupo para ser reproduzida no disco "ao vivo MTV". Críticas à Imprensa (Poder Sorriso e Fama), de cunho social (Pegue Esta Arma e Advogado do Diabo) e ao showbizz nacional da época (Manhãs de Domingo) também se fizeram presentes.
Contudo, a mais emblemática do álbum, e uma das mais incompreendidas da história da música nacional é Farto do Rock’n Roll. Verdadeira canção-desabafo, dona de uma letra direta, construída sobre um riff de Scandurra, retratando de forma nua e crua a saturação da fórmula roqueira nacional dos anos 80. Falando da busca de novas fontes de inspiração do grupo, a música apresentava um solo de scratch de Nasi – um dos primeiros da música brasileira – e o refrão grafado em letras maiúsculas no encarte do álbum (Fim de semana sim / Fim de semana não / Às vezes tudo bem / Às vezes sem razão / Já estou farto do Rock’n Roll). Uma verdadeira profecia sobre o cenário do showbizz nacional.
Talvez pelo cunho contestatório, a resposta dada ao álbum não foi a esperada. A crítica não compreendeu a proposta sugerida e o público não assimilou os novos rumos tomados pelo grupo. A história, no entanto, veio a apagar em parte o equívoco anteriormente cometido. Atualmente, Psicoacústica figura merecida e obrigatoriamente em qualquer lista das maiores obras do Rock nacional.
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