Resenha - Psicoacústica - Ira!

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Alisson dos Santos Cappellari
Enviar correções  |  Ver Acessos


Em 1988, o cenário musical brasileiro vivia o auge da ressaca provocada pela explosão do dito Rock Nacional e pela euforia consumista decorrente do Plano Cruzado. A crise econômica parecia ter atingido também a criatividade do meio musical nacional em que os artistas, salvo raríssimas exceções, não conseguiam reproduzir os sucessos de anos passados.

Rush e AC/DC: poucos sabem as verdadeiras formações originaisMetallica: ouça "Nothing Else Matters" em escala maior

Uma das bandas a perceber essa transformação foi o Ira!. Vindo de dois discos de indiscutível qualidade, aclamados pelo público e de uma vivência tumultuada com a crítica, o grupo apresentou um novo trabalho que surpreendeu a todos pela proposta inovadora que representava.

Psicoacústica tocou na ferida da cultura musical da época. Em sua concepção, apesar da curta duração - oito faixas e pouco mais de meia hora de som -, foi um disco muito bem produzido. Poucas vezes no rock nacional se viu tamanho entrosamento entre os integrantes de uma banda. A guitarra de Scandurra nunca esteve tão afiada. Jung não lembrava aquele que um dia fora renegado pelos Titãs sob a alegação de falta de pegada. Nasi e Gaspa, além de impecáveis em suas atribuições, traziam significativas mudanças nas técnicas de gravação. A produção escalada para o disco também se destacava, uma vez que as relações com Liminha estavam abaladas após a gravação de Mudança de Comportamento.

A obra ficou marcada na história, no entanto, pela complexa conjunção melodia-letra, aliada ao forte teor crítico das canções proposto pelo grupo. Rubro Zorro, a faixa inicial é um grande exemplo. Baseada na história do Bandido da Luz Vermelha, famoso psicopata paulistano da década de 60, a música é de grande intensidade, recheada de efeitos sonoros retirados do filme-biografia do homenageado, além da impecável declamação de Nasi ao fundo, como se fosse um mantra a retratar a consciência do criminoso. Outro destaque é a faixa Receita Para Se Fazer Um Herói. De letra simples e irônica, é uma verdadeira receita para se transformar "um homem feito de nada como nós" em um mito. Uma mordaz crítica sócio-religiosa. Não foi por acaso a escolhida do grupo para ser reproduzida no disco "ao vivo MTV". Críticas à Imprensa (Poder Sorriso e Fama), de cunho social (Pegue Esta Arma e Advogado do Diabo) e ao showbizz nacional da época (Manhãs de Domingo) também se fizeram presentes.

Contudo, a mais emblemática do álbum, e uma das mais incompreendidas da história da música nacional é Farto do Rock'n Roll. Verdadeira canção-desabafo, dona de uma letra direta, construída sobre um riff de Scandurra, retratando de forma nua e crua a saturação da fórmula roqueira nacional dos anos 80. Falando da busca de novas fontes de inspiração do grupo, a música apresentava um solo de scratch de Nasi - um dos primeiros da música brasileira - e o refrão grafado em letras maiúsculas no encarte do álbum (Fim de semana sim / Fim de semana não / As vezes tudo bem / As vezes sem razão / Já estou farto do Rock'n Roll). Uma verdadeira profecia sobre o cenário do showbizz nacional.

Talvez pelo cunho contestatório, a resposta dada ao álbum não foi a esperada. A crítica não compreendeu a proposta sugerida e o público não assimilou os novos rumos tomados pelo grupo. A história, no entanto, veio a apagar em parte o equívoco anteriormente cometido. Atualmente, Psicoacústica figura merecida e obrigatoriamente em qualquer lista das maiores obras do Rock nacional.


Outras resenhas de Psicoacústica - Ira!

Sete Pecados do Rock Nacional: Ira! - Psicoacústica




GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato. Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Denuncie os que quebram estas regras e ajude a manter este espaço limpo.


Todas as matérias da seção Resenhas de CDs e DVDsTodas as matérias sobre "Ira!"


Rush e AC/DC: poucos sabem as verdadeiras formações originaisIra!: ouça entrevista de Edgard Scandurra ao podcast Gugacast

Ira!: Edgard Scandurra comenta a polêmica Pobre PaulistaIra!
Edgard Scandurra comenta a polêmica "Pobre Paulista"

Fafá de Belém: meu espírito é heavy metal, diz a cantoraFafá de Belém
"meu espírito é heavy metal", diz a cantora

BRock: Os 10 melhores álbuns dos anos 80BRock
Os 10 melhores álbuns dos anos 80


Metallica: ouça Nothing Else Matters em escala maiorMetallica
Ouça "Nothing Else Matters" em escala maior

Andreas Kisser: os álbuns que marcaram o guitarristaAndreas Kisser
Os álbuns que marcaram o guitarrista

Iron Maiden: Steve Harris pensou em acabar com a banda em 1993Iron Maiden
Steve Harris pensou em acabar com a banda em 1993

Humor: O dia em que Steve Vai foi humilhado por ChimbinhaHumor
O dia em que Steve Vai foi humilhado por Chimbinha

Cristina Scabbia: Símbolo sexual? Fico surpresa com isto!Cristina Scabbia
"Símbolo sexual? Fico surpresa com isto!"

Tony Iommi: Eu não faço música para ofender as pessoasTony Iommi
"Eu não faço música para ofender as pessoas"

Aquiles Priester: Os cinco álbuns mais marcantes da vida deleAquiles Priester
Os cinco álbuns mais marcantes da vida dele


Sobre Alisson dos Santos Cappellari

Autor sem foto e/ou descrição cadastrados. Caso seja o autor e tenha dez ou mais matérias publicadas no Whiplash.Net, entre em contato enviando sua descrição e link de uma foto.

adClio336|adClio336