Resenha - End Of The Century - Ramones
Por Cristiano Viteck
Postado em 31 de julho de 2005
A história já foi contada milhões de vezes. Em 1974, quatro rapazes novaiorquinos formam uma banda de rock sem nem ao menos saberem tocar direito seus instrumentos. Tentam fazer covers de seus ídolos mas as versões eram tão sofríveis que logo decidem escrever suas próprias músicas, que eram marcadas pela economia de acordes e pelo desleixo com as letras. Com algumas composições no repertório eles assumem jaquetas de couro e jeans rasgados como uniforme e tomam emprestado o pseudônimo que Paul McCartney usava para se registrar nos hotéis e pronto: nasciam os Ramones e, com eles, era inaugurado o punk rock. Daí em diante a música pop jamais seria a mesma.

Mas, por trás desse conto de fadas existia uma realidade muito mais obscura e que só acabou se revelando com o fim do grupo, no dia 06 de agosto de 1996. Drogas, álcool, frustrações, brigas, disputas por garotas e pelo controle da banda. Este era o clima em torno dos Ramones na maior parte dos 22 anos em que o grupo existiu. Enfim, uma realidade muito distante daquela imagem de família feliz que os "irmãos" Ramone vendiam para a mídia e para os fãs. E é justamente sobre este lado negro da banda que os diretores Michael Gramaglia e Jim Fields apontam os holofotes no documentário "End of the Century: The Story of the Ramones", lançado originalmente em 2003 e que acaba de ganhar edição nacional em DVD.
Praticamente desconhecidos como documentaristas, Gramaglia e Fields mergulharam de cabeça no projeto logo após a morte do vocalista Joey, vitimado pelo câncer em maio de 2001. O que a princípio tinha tudo para dar errado, acabou se tornando o documentário mais importante já produzido sobre os Ramones, fugindo totalmente dos clichês da maioria dos filmes sobre bandas de rock. Ao invés de jogar confetes, os diretores colocam o dedo na ferida. Contando na maior parte do tempo com entrevistas registradas exclusivamente para o documentário – com exceção daquelas com o vocalista, por razões óbvias – "End of the Century" consegue traçar um perfil cru dos Ramones, a ponto de o próprio guitarrista Johnny ter ficado perturbado quando assistiu ao vídeo pela primeira vez.
Relacionamentos
"Acho que podemos ser amigáveis uns com os outros, gostar uns dos outros, mas não conseguimos conviver nem nos comunicar", declara o baixista Dee Dee logo no primeiro "take" do documentário. Pronto. Está aberta a porta para revelações extremamente pessoais e talvez nunca antes ditas, pelo menos não de forma tão explícita. "Joey não era a minha idéia de vocalista", afirma Johnny que, mais adiante, pressionado por Gramaglia e Fields, confessa ter se importado pelo menos um pouco com a morte de Joey, o seu desafeto declarado dentro da banda.
E é justamente quando trata das relações entre o guitarrista e o vocalista que "End of the Century" encontra o seu momento de maior tensão. Mesmo antes do fim dos Ramones, era de conhecimento dos fãs a eterna animosidade entre Joey e Johnny que, conforme entrevistas dos demais membros da banda e de pessoas próximas aos músicos, teria começado no final dos anos 70. Com a saída em 1978 do baterista Tommy, até então porta-voz oficial da banda, abriu-se uma lacuna pelo controle do grupo, espaço que passou a ser disputado entre o guitarrista e o vocalista. Porém, a situação azedou de vez por volta de 1980, quando Johnny roubou e acabou se casando com Linda, namorada de Joey. Todos os entrevistados garantem que Joey nunca superou este trauma, sendo que desde então a animosidade acabou se transformando em raiva e rancor jamais esquecidos pelo vocalista e pelo guitarrista, este morto em setembro do ano passado.
Também foi no meio daquela época conturbada que a banda gravou o seu quinto álbum, "End of the Century", produzido pelo legendário produtor Phil Spector. O que era para ser o clássico definitivo dos Ramones acabou se tornando um fiasco, uma vez que não só conseguiu desagradar aos fãs como também a Johnny, Dee Dee e o então baterista Marky. O único satisfeito com o disco, além do próprio produtor, foi Joey, um eterno apaixonado pela sonoridade pop dos anos 60.
Foi ainda a partir deste álbum que o guitarrista, conforme o documentário, teve a certeza que a sua banda jamais seria uma grande vendedora de álbuns e que não lhe restava alternativa a não ser viver na estrada e gravar discos atrás de discos para garantir a sobrevivência. Já Dee Dee é incisivo e avaliou que, diante dos desgastes das relações durante a gravação do álbum, "End of the Century" foi definitivamente o começo do fim dos Ramones.
Depoimentos
Com ênfase na fase primeira fase da banda, o DVD apresenta ainda uma série de depoimentos com artistas, produtores, familiares e amigos dos Ramones. Entre eles, Joe Strummer, do The Clash, que corrobora o discurso sobre o papel decisivo que o grupo novaiorquino teve na gestação da punk londrino.
Também estão presentes John Holmstrom e Legs McNeil, os criadores da revista Punk, a qual acabou batizando o movimento; Glen Matlock, dos Sex Pistols; Debbie Harry, do Blondie, Kirk Hammet, do Metallica; entre outros que dão seus depoimentos e comentam sobre a relevância dos Ramones para a história da música. Relevância que acabou sendo tardiamente reconhecida pela própria indústria musical, que em 18 de março 2002 incluiu o grupo no Rock n’ Roll Hall of Fame, cerca de dois meses antes da morte de Dee Dee Ramone por overdose.
Como o baixista fundador deixou claro na sua autobiografia "Coração Envenenado", uma história sobre os Ramones jamais poderia ter um final feliz. E de fato não teve. Personalidades explosivas convivendo diariamente, tendo suas relações desgastadas por intermináveis turnês e excessos de todos os tipos. Os bons, os maus, os feios. "End of the Century" está aí para mostrar tudo isso de maneira sincera e direta como só uma canção dos Ramones consegue ser.
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