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PRB

Black Metal: a avant garde do Metal

Por Ivison Poleto dos Santos
Em 06/06/18

Controverso desde o nascimento, na minha opinião em 1982 com o álbum "Black Metal" do Venom, e isto também já motivo para controvérsia, pois alguns dizem que se é para considerar o Venom, deve-se considerar o Mercyful Fate também. Outros já acham que o Bathory com o autointitulado "Bathory" é o primeiro álbum de black metal pela sua sonoridade. Alguns outros já acham que a primazia cabe às bandas suecas e norueguesas que surgiram no início dos anos 1990. Como se vê, só isso daria incontáveis e inflamadas discussões.

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Mas a questão primordial aqui não é essa. Acompanho o estilo desde 1985, pois um amigo era um entusiasta do gênero e mostrava sempre que podia, é claro com os nossos protestos, os lançamentos da época. Foi com ele que conheci o Slayer (na época ainda podia ser definido como black/thrash), Venom, Voivod, Possessed, Sepultura (ele tinha o famoso split com o Overdose, do qual eu só gravei o Overdose), e muitas outras. A postura das bandas de black metal dessa época era ser as mais rápidas, distorcidas, cruas e ferozes possível. Em uma entrevista nos anos 1980 à revista Metal o Sarcófago admitia que o que faziam era um hardcore com letras satânicas. Atitude saudável, devo confessar, porém aquela crueza muitas vezes se confundia com não saber o que fazer com os instrumentos. E, cá entre nós, o Metal é, e sempre foi, antes de tudo um movimento musical. Fãs e músicos exigem um determinado nível de destreza com os instrumentos. Pelo menos alguém na banda deve ser bom, ou guitarrista (quase sempre), ou o vocalista (também frequente), ou o baterista (sempre destaque nas bandas de metal extremo pela velocidade) e, de vez em quando, o baixista. Além disso, para os ouvidos humanos, a velocidade torna as músicas muito parecidas. Com essa consciência, as bandas passaram a inovar, mais notadamente quando foi lançado "Heartwork" do Carcass que deu uma aliviada na velocidade e agressividade instrumental, porém mantendo os vocais típicos do metal extremo.

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Venho acompanhando à distância as mudanças no gênero dos anos 1990 e, mais de perto, a partir 2016 quando comecei a fazer resenhas profissionalmente. Como disse, nunca foi exatamente um fã do estilo, portanto posso fazer uma análise mais fria e imparcial. Curiosamente, minha matéria de estreia aqui foi sobre metal extremo. Veja no link abaixo. E a minha opinião não mudou desde então. Aliás, mudou sim, venho considerando o black metal a avant garde do Metal.

Por que eu me rendi ao metal extremo?

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Mas por que avant garde?

O black metal sempre se colocou como um gênero extremo. Muitas bandas abandonaram de vez o satanismo predominante nos primórdios. Porém, não abandonaram o anticristianismo, o que são duas coisas bem diferentes. A postura pagã é uma das predominantes nas bandas atuais com retorno a ritos e religiões pré-cristãs, principalmente europeias.

Com fim da busca pela velocidade da luz, as bandas tiveram que variar não somente na cadência, mas também nas estruturas musicais para continuar recriando o caos sonoro sem tornar a música intragável. A saída foi a utilização de dissonâncias e estruturas harmônicas e melódicas pouco usuais inspiradas basicamente na música clássica. Salvo poucas exceções, o black metal rompeu definitivamente com as tradições do blues, gênero que utiliza estruturas não convencionais, e do jazz, também famoso pelas experimentações. Uma outra fonte fértil tem sido as influências retiradas das músicas tradicionais folclóricas com a incorporação de instrumentos antigos e, alguns, em desuso. Restaram apenas duas referências incólumes: os vocais guturais e a transgressão. No entanto, os vocais guturais são agora permeados por vozes dos mais diferentes tipos desde as vozes esganiçadas como que bruxas até vozes quase angelicais retiradas da música clássica e gritos e urros saídos das profundezas dos sete círculos do inferno. O céu, ou melhor, o inferno é o limite para as experimentações.

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As bandas mais novas também têm rompido com aquilo que é mais caro aos fãs de Metal que são os solos de guitarra. É possível ouvir álbuns e mais álbuns sem notar um mero solo de guitarra. Mais uma vez a intenção é fugir do convencional.

Houve também uma clara opção por riffs hipnóticos e repetitivos para criar tanto uma sonoridade doentia e uma aproximação do chamado rock progressivo, porém o que se tira deste progressivo são as estruturas harmônicas mais complexas para criar estranheza. Teclados, outrora desprezados e execrados, foram incorporados definitivamente das mais diversas formas. É possível ouvir pianos, cravos, teclados com sonoridade daqueles de crianças e, até pasmem, aqueles muitos usados nos anos 1980 por bandas de tecnopop. Tudo isso com a intenção de dar aquele desconforto aos ouvidos, mas nunca ao ponto de fazer o ouvinte desistir.

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Para mim, o grande trunfo é a composição de músicas que exploram as mais diversas emoções humanas, mas notadamente, é claro, estamos falando de black metal, da dor, do desespero, da angústia, da frustração, da rebeldia e tantas outras que são socialmente consideradas negativas e evitadas, mas que fazem parte da vida humana. O black metal é uma gritante - foi sem a intenção -demonstração do espírito humano sem frescuras, sem censuras. Nada daquela alegriazinha plástica e artificial imposta a todos os seres humanos pela indústria cultural que vem nos agredindo há anos com uma música, para dizer o mínimo, sem graça e sem gosto.

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Black metal é a representação mundana da atualidade.

Enfim, dentro dos limites (eles ainda existem) vale tudo no black metal moderno desde que choque.

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Sobre Ivison Poleto dos Santos

Veterano das guerras metálicas. Pesquisador, escritor, resenhista, músico frustrado (por isso tudo o anterior). Ao contrário da opinião comum, acho que o melhor do Metal ainda está por vir e que existem grandes bandas novas por aí. Só procurar. No meu caso elas vêm até mim.

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