Iron Maiden: Uma parábola da conquista, em El Dorado (TFF)

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Por Rodrigo Contrera
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A música El Dorado, de The Final Frontier, do Iron Maiden, além de remeter a outras faixas de outras bandas, consegue nos levar à época da "descoberta" (ou seja, da conquista), e à visão que o outro (o conquistador) tem dos locais onde ele travará o seu destino (as Américas). Continuando meu trabalho de dissecar as músicas da Donzela, uma a uma, com material gráfico, reminiscências ao rock de outras bandas, e a todo tipo de influência (assim como à música mesmo), falo agora sobre "El Dorado", segunda faixa de The Final Frontier, o 15o álbum da Donzela de Ferro.

A faixa que segura a pegada

Pois o disco continua (estamos apenas na segunda faixa). El Dorado, que virou single. Um dos principais hits deste CD, que fez e ainda faz muito sucesso nos shows. Uma música bem mais tradicional, no aspecto ironesco, com uma entrada triunfante e um ritmo de cavalgada ditando a condução de tudo.

Capa do single

Música (com letra - em inglês)

Uma música cujo universo possui coisas em comum com a música anterior, de forma aparentemente inusitada e até com The Book of Souls. E que tem também algo a ver com a gente, latino-americanos. Mas não enrolemos. Sobre o que a música trata? Do mito do El Dorado. De onde é esse mito? Ele vem da Colômbia, do povo Muisca, um dos povos mais prósperos que houve naquela região. O que o mito significa? Ele narra a descida do novo chefe do povo, um homem dourado (não uma cidade dourada), devidamente parlamentado, com ouro e pedras preciosas, ao centro do lago Guatavita, onde ele dedica esses bens aos deuses em honra a eles. Claro que essa cerimônia era devidamente acompanhada pela multidão e por aqueles que viriam a ser os conquistadores.

Mito do El Dorado

Aqui um aspecto relevante. O El Dorado era um homem, não uma cidade nem um destino dourado. Por outro lado, a oferenda dos bens preciosos não era dada como forma de provar alguma magnificência, mas pelas propriedades espirituais que eles representavam, assim como o fato de refletirem a luz e a cor do Sol, salientando uma renovação da vida. Nesse aspecto, é preciso ressaltar como eram e ainda são diferentes as formas de entender a vida pelos povos autóctones e pelos descendentes dos conquistadores.

Peça real, em ouro

Os povos e a conquista

Um pequeno excurso pessoal cabe bem agora. Em meados dos anos 2000, eu visitei o Peru e o Equador, dentre os países andinos pelos quais eu tinha maior interesse. Visitei Cuzco e vi como aquela sociedade ainda reacende ao povo inca.

Cuzco

Note-se: o povo inca era um povo, eles mesmos, de conquistadores, que estavam na quarta fase do seu império. Mas esse povo ainda mantém ali, naquela cidade, muitos sinais de pujança, embora os espanhóis tenham feito todo maior esforço para impedir isso. Os templos incas foram "soterrados" pelas igrejas, mas estão ainda lá, presentes. As ruas mantêm as obras que os incas haviam projetado para elas. Os fortes estão em ruínas, claro, mas não desapareceram de todo.

Inti Raymi

E as cerimônias principais em honra do deus Sol (a Inti Raymi, por exemplo), continuam sendo feitas, em meados de todo ano. Por outro lado, ainda no Peru, houve lugares, perto de Lima, a capital, em que os povos que ali habitavam realmente estabeleceram construções com ouro puro, até para ajudar à navegação. Mas, já no Equador, essa opulência não existia. Ali, como vimos no museu minha então esposa e eu, haviam vivido centenas de povos diferentes, nada conquistadores ou fadados ao imperialismo como os incas, e nada opulentos, mas cada um com sua forma de ver o mundo. Ou seja, essa ideia de que (como veremos daqui a pouco) haveria um povo rico, repleto de ouro e pedras preciosas, que por causa disso atrairia os conquistadores é uma história mal contada. Pois havia, sim, povos que utilizavam sua riqueza de forma opulenta - mas atribuindo-lhe um valor que não era o dos conquistadores. E por outro lado havia também muitos outros povos nada similares, que tinham pontos de vista diferenciados e particulares sobre a vida - e que não foram respeitados e compreendidos pelos povos que viriam dominar tudo.

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Em suma, o mito do El Dorado mostra a cerimônia dourada como algo ritualístico que não tem nada a ver com o mito de uma cidade dourada ou de um lugar repleto de riquezas, prontas a serem coletadas pelos conquistadores. Já o tratamento que a banda faz ao mito, na letra, mostra claramente como essa ideia de posse, de conquista, perpassava a mentalidade dos conquistadores, e era divulgada por aí. A grande sacada do Iron é mostrar a conquista sob o ponto de vista de uma personagem que chama os conquistadores (que conquistadores, ainda veremos). Ou seja, o Iron coloca-se, em relação ao mito, do lado da mentalidade conquistadora. Seja como for, é interessante que nós, que queremos entender a letra dessa banda de que tanto gostamos, entendamos o mito tal como ele realmente foi, e a letra do jeito como ela representa uma determinada mensagem.

Uma outra leitura

Acontece que, embora a banda, nesta música (feita por Adrian, Steve e Bruce), se refira explicitamente a El Dorado (com as palavras separadas, e não juntas, como Eldorado), a acepção que se atribui a ela é bastante diferenciada, como várias fontes fazem perceber. Pois parece que há aqui, escondida, uma outra mensagem - que nada tem a ver com o mito muisca. Isso fica claro ao se perceber que a remissão a El Dorado é mais genérica, tal qual o próprio Edgar Allan Poe faz em seu poema Eldorado, como terra mítica, a que todos aspiram (a citação é de LooseCannon, no fórum dos fãs do Maiden, o MaidenFans Forum).

El Dorado

A leitura do LooseCannon é a de que o Bruce (ele, especificamente) estaria, na música, se referindo ao mito do Eldorado enquanto cidade do ouro que todos querem conquistar, mas sob o ponto de vista de alguém que promete o Eldorado enquanto sonho mas que engana, e que ganha em cima. Em suma, seria uma música contra os bancos, os fomentadores dos sonhos alheios, e todos esses que vendem a ideia de conquistar o Eldorado, quando na verdade pouco se importam com o destino desses que jogam sua vida inteira no sonho. Dessa forma, a música pouco teria a ver com o mito muisca, e apostaria numa via indireta de criticar certas instituições com base na ideia de uma terra mítica, dourada, pela qual os conquistadores tudo fariam.

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Claro que essa leitura é interessante e faz sentido. Pois, se formos acompanhar a letra com atenção, percebemos que a leitura bate. Desde o fato de que alguém se propõe a contar uma história, segundo a qual existiria uma terra distante que valeria a pena conquistar (uma visão), mas cuja verdade é contada "numa noite fria de inverno", para alguém que "já navegou por glória", por um "joker sem remorsos, que manipula os receios". Tudo parece realmente se encaixar na ideia prévia bolada pelo comentador do fórum. Chegam inclusive a ser citadas as pirâmides de ouro, mas enquanto mentiras eternas, sendo que o joker mostra-se então sempre um passo adiante, queimando o dinheiro de quem tenta (sobre quem fala).

YouTube - El Dorado (com letra em português)

O caráter provisório e incerto da empreitada vem logo a seguir na letra. Desde o fato de que o conquistador quer um contrato, mas que não o tem em mãos, até o fato de que o conquistador aposta apenas numa hipótese, na qual acredita, tudo faz crer que a insegurança faz parte do jogo - e que o sonho é aquilo que empurra o conquistador rumo ao seu destino. Em suma, o narrador faz uso das paixões para lucrar, para levar aquele que busca à sua própria perdição. É quando chega o refrão, em que El Dorado é vendida enquanto lugar de jogo e de tentativa. Estamos na metade da música, agora.

A música

No quesito musical, El Dorado assemelha-se a outras obras da banda, bem anteriores, em que parecemos estar envolvidos numa pegada frote e bem arranjada (confesso-lhes que não sei bem que faixas me lembra). Os solos inclusive encaixam bem, também aqui (comparando a faixa à anterior, a TFF), mas há poucas variações estranhas na estrutura da música. No geral, tudo segue bastante similar ao começo da faixa. É quando o narrador se define, diz que a glória é algo do passado, que a história acontece mesmo desse jeito, e que o risco é no fundo de quem se deixa levar pelo sonho. Até o momento em que o próprio narrador concorda: é difícil para um homem honesto lidar com a própria vida. El Dorado torna-se então uma viagem para aqueles que apenas tentam. Enquanto o narrador ganha.

As imagens

Diversos vídeos, circulando pelo YouTube, utilizam o imaginário das pirâmides de ouro, ou seja, da cidade de ouro, para vender a ideia do El Dorado. Curiosamente, a banda não faz muito isso. Ao contrário, as pirâmides viriam a ser usadas só muito posteriormente, em The Book of Souls, mas não mais com a ideia de pirâmides de ouro.

The Book of Souls

Na verdade, as imagens do Iron Maiden em The Book of Souls remontam mais ao povo maia (até pela própria pesquisa), e de forma indireta à forma como o Predador foi tratado quando foi lançado (mostrando seu planeta original, com pirâmides bem similares às dos maias).

O Predador e suas pirâmides

Seja como for, a mensagem mesma que a música passa não foi tratada de forma particular pela banda. Ficou mais como uma mensagem sem imagem clara e definida. Poderia ter tido, claro, mas não foi o que aconteceu.
Com isto, eu tentei avançar na leitura da música El Dorado, pela Donzela, em TFF. Continuem me acompanhando. Até a próxima!
Up the Irons!

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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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