Em 15/03/2009 | Resenha - Iron Maiden (Autódromo de Interlagos, São Paulo, 15/03/09)

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Resenha - Iron Maiden (Autódromo de Interlagos, São Paulo, 15/03/09)


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O objetivo do texto abaixo não é simplesmente fazer uma análise fria e impessoal do que foi a apresentação do IRON MAIDEN no Autódromo de Interlagos nesse 15 de março de 2009. O que se buscará aqui é tentar se aproximar um pouco da perspectiva de alguém que é fã da banda e tenha comparecido ao espetáculo. Por isso mesmo, desde já, há de se pedir desculpas ao caro leitor, mas alertá-lo de que se deseja mesmo a tal análise fria e sem demonstração de qualquer emoção, não é nessa resenha que irá encontrá-la. E isso por um simples fato: é impossível descrever um show do Maiden, sobretudo um como o que São Paulo assistiu nesse fim de semana, sem se fazer valer da emoção.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

IRON MAIDEN: AUTÓDROMO DE INTERLAGOS – SÃO PAULO (15/03/09)

A história desse evento começa muito antes da entrada da banda ao palco. O Autódromo de Interlagos fica quase no extremo sul da metrópole paulistana, um local distante para a maioria das pessoas, tanto residentes em São Paulo quanto os que chegam de outras cidades, além de ser um lugar com poucas opções de acesso. A chuva que caiu na região à tarde e que deixou o trânsito ainda pior só fez tudo se tornar mais complicado. No entanto, o fato de ser uma área difícil de se chegar não constituiria nenhum grande problema.

A beleza das imagens de uma multidão tomando conta dos arredores do autódromo contrastava com todas as dificuldades enfrentadas pelos fãs para conseguir adentrar o local da apresentação. Havia muito pouca informação sobre as formas de entrar ou até mesmo para saber em qual fila ficar. Um único portão de acesso era o lugar por onde dezenas de milhares de pessoas teriam que passar, já que a divisão entre as entradas da pista premium e pista normal só ocorria depois de já percorrida uma razoável distância dentro das dependências de Interlagos. Com isso, aconteceu o óbvio: a formação de filas gigantescas que, segundo algumas informações, chegaram a impressionantes 2 km faltando menos de uma hora para o início previsto do espetáculo. Os felizardos que conseguiam passar por essa primeira ‘provação’ tinham que andar por um longo caminho até chegar à área reservada ao show. No local, o que antes era um gramado tornou-se um verdadeiro lamaçal, no sentido literal da palavra. No caminho da pista premium até os banheiros reservados para este setor, várias pessoas tinham dificuldades até mesmo para se equilibrar. O Autódromo de Interlagos tem alguns fatores ruins, como ser num ponto distante da maior parte da cidade e por não ter uma acústica favorável à realização de grandes shows. De positivo, há o espaço disponível para se abrigar grandes públicos e a possibilidade de fazer uma pista onde o fundo está em nível mais alto que a frente, o que em teoria permitiria uma visualização melhor para todos. No entanto, a maior parte dos problemas apresentados foi mais em decorrência de falhas no planejamento da estrutura do que propriamente do local do show em si. Apesar de tudo isso, o motivo que fazia com que aquelas milhares de pessoas estivessem ali era maior do que todos os contratempos enfrentados: o IRON MAIDEN.

Coube mais uma vez a Lauren Harris a função de atração de abertura, apresentando músicas de seu álbum “Calm Before The Storm”. A banda que a acompanha mostrou-se tecnicamente competente, com o guitarrista mantendo inclusive uma boa interação com a plateia. Lauren ainda não apresenta uma voz de todo consistente, mas tem uma boa presença de palco e já mostra ter carisma. Seu som é bom para o que se propõe e não há dúvidas de que existe público para seu trabalho, só que talvez seja um erro apresentar seu material para um perfil de público como o do IRON MAIDEN, que dificilmente se interessará por tal tipo de som. Por mais que estar em turnê com uma banda do porte da Donzela represente a oportunidade de se apresentar para grandes audiências, é pouco provável que ela consiga angariar fãs para seu trabalho dentre os que seguem o grupo inglês. No entanto, os ‘maidenmaníacos’ foram receptivos com a banda e deram uma boa resposta a todas as solicitações da cantora.

Terminada a apresentação da banda de abertura, Interlagos continuava a receber um número enorme de pessoas. Pouco antes do horário previsto para início do show principal, um mar de gente tomava conta de toda a área reservada para o evento. A uma determinada altura, parte do público arrumou um jeito de pular para um morro no lado esquerdo da plateia, uma área inicialmente proibida, mas para cuja invasão a organização não poderia fazer nada, a não ser se adaptar à eventualidade. Pouco depois das 8 da noite, acompanhado de alguém da produção, Rod Smallwood aparece, ovacionado como se ele mesmo fosse um dos músicos do Maiden. O empresário veio ao palco para pedir desculpas pelo atraso e solicitar um pouco de paciência por parte dos fãs, pois ainda estavam por resolver algumas questões técnicas que surgiram devido à chuva e, principalmente, para que todas as pessoas que ainda não tinham conseguido entrar no autódromo pudessem se juntar à multidão. Pra terminar sua participação, disse ‘apenas’ que aquele provavelmente seria o maior público da banda em um show, à exceção dos festivais, justamente na “capital mundial do metal”. Bastou isso para que o público vibrasse como se estivesse ouvindo algum dos clássicos que a banda estava por executar. Nesse meio tempo, improvisaram algumas divisórias para separar o público que já lotava o morro na lateral da pista, além de providenciarem a presença de policiais e até mesmo de cães atrás da grade provisória. Embora haja discordâncias sobre o número de fãs presentes, com relatos de 60 a 100 mil pessoas (segundo Bruce Dickinson), parece que a estimativa oficial é de 63 mil abnegados para ver a banda.

Eis que após quase 70 minutos de atraso, “Doctor Doctor”, do UFO, ecoou do sistema de som, o que era o sinal que todos os presentes esperavam: chegara enfim a hora de ver o Maiden. Seguiu-se o clip da banda na estrada, com imagens do já célebre avião ‘Ed Force One’ e com a clássica “Transylvania” servindo como trilha sonora. O exaltado discurso de Winston Churchill, que introduzia à clássica ‘World Slavery Tour’ e que também antecipa a entrada da banda nessa atual turnê já foi o suficiente para provocar uma catarse coletiva. A execução de “Aces High” como abertura dos shows talvez seja, sem exagero nenhum, o momento mais bombástico que uma plateia de música possa experimentar atualmente, e isso considerando todos os shows de todos os estilos musicais, pois é simplesmente impressionante a forma como o IRON MAIDEN entra no palco e mais impressionante ainda é a maneira como o público reage ao primeiro contato com a banda. Cada palavra da letra, cada melodia, cada passagem é reproduzida pelos milhares de fãs da Donzela de um jeito que o som emanado pela audiência consegue se sobrepor a toda a potência do sistema de som da banda.

A sucessão de clássicos absolutos do heavy metal foi a constante das 2 horas de show. Na sequência vieram “Wrathchild”, onde o microfone de Bruce Dickinson apresentou uma falha discreta e “2 Minutes To Midnight”. É até desnecessário falar que as músicas foram cantadas em uníssono pelos fãs e que a empolgação do público presente contagiava a banda, que mostrava cada vez mais garra e entrega na execução das canções. Dickinson então dialogou pela primeira vez com a plateia, pedindo novamente desculpas pelo atraso, questionando sobre o que aconteceu com o tempo em São Paulo, saudando o pessoal que tinha se ajeitado no tal morro ao lado da pista e exaltando novamente o público que, segundo ele, era o maior da banda até hoje, fora apresentações em festivais. Logo em seguida emendaram “Children Of The Damned”, que provocou arrepios em quem viu os desempenhos sobretudo do guitarrista Adrian Smith e de Bruce. E o sujeito canta, meu caro leitor, mas canta muito. Canta, pula, sobe plataformas, corre de um lado para o outro, pede a participação do público e faz tudo isso sem dar um sinal de cansaço, algo impraticável para muitos de seus colegas de profissão e com a metade de sua idade. “Phantom Of The Opera”, clássico atemporal do heavy metal, não tem explicação. Ver Dave Murray e Adrian Smith na beira do palco tocando as tão famosas melodias de guitarras gêmeas dessa música ou ver de perto Steve Harris fazendo as lendárias linhas de baixo dessa canção é uma experiência indescritível. Quem viu, viu. Não tem como transformar essa sensação em palavras. “The Trooper” veio à seguir, com a tradicionalíssima performance de Bruce Dickinson com bandeira britânica em punho e o coro exaltado dos milhares de fãs. Em mais uma pequena pausa para falar com o público, Dickinson provou mais uma vez como consegue manter uma plateia na mão como ninguém. Ao solicitar que as pessoas dessem dois passos para trás para facilitar a vida de quem estava na primeira fila, foi prontamente atendido. Tudo bem que pedir isso e anunciar “Wasted Years” na sequência é maldade.

Após mais um discurso, onde falou inclusive da passagem da banda pela Amazônia, mais um momento sublime. “Rime of the Ancient Mariner” e seus treze minutos do mais clássico heavy metal por si só valeriam o ingresso. A canção foi tocada à perfeição, com uma grande performance do batera Nicko McBrain. Mais uma vez, assim como no ano passado, foi um momento antológico olhar para o público e ver um mar de luzes acesas durante a parte lenta da música. Nela a produção da banda começou a apresentar o principal dos efeitos pirotécnicos que prometeram trazer à América Latina nessa parte da turnê. Apesar de alguns artifícios terem falhado devido aos danos provocados pela chuva, o efeito visual empolgou os presentes. “Powerslave” é outra canção que faz parte da lista de momentos inesquecíveis proporcionados pela banda. Bruce surgiu por trás de uma cortina de fogo, assim como na World Slavery Tour, num efeito que irradiava calor até mesmo sobre quem estava próximo ao palco. Só que, muito mais do que qualquer efeito visual, o maior efeito dessa música é ela em si. E os solos dessa canção conseguem passar um sentimento de empolgação tamanho que muita gente pulava como criança durante sua execução. “Run To The Hills” e “Fear Of The Dark”, que tanta gente sempre reclama de suas permanências nos setlists, foram cantadas pelo público de maneira ensurdecedora. Os fãs já não as querem mais nos shows? Tá bom... Para fechar a primeira parte da apresentação, “Hallowed Be Thy Name”, talvez o maior clássico do IRON MAIDEN e a própria “Iron Maiden” (a música), onde a enorme esfinge com o rosto do mascote Eddie se abre atrás da bateria e dá lugar a uma enorme múmia, em mais uma versão do mascote.

A banda agradece a todos e se retira do palco. É claro que ninguém se moveu nem meio metro de onde estava até que o sexteto retornasse com “The Number Of The Beast”, sua sequência de fogos e toda a energia da banda e do público. “The Evil That Men Do” foi um dos pontos mais altos do show, dado o grau de empolgação de todos os envolvidos ali (banda e fãs). Nessa canção, houve uma nova entrada do mascote Eddie no palco, em sua versão ‘cyborg’. Pra terminar um show que já tinha se transformado num evento histórico, fecharam com “Sanctuary”. No meio da música, Bruce fez uma pausa para ‘apresentar’ os músicos e prometer um novo disco para 2010 e uma nova turnê para 2011. A ovação para cada um dos músicos, sobretudo para Steve Harris, foi impressionante. O lendário baixista, visivelmente emocionado, batia no peito e apontava para os fãs à sua frente agradecendo. Ainda haveria tempo para um momento cômico onde Bruce e Nicko McBrain iniciaram uma dança meio desengonçada em resposta ao coro de milhares de vozes saudando o baterista. Ao término da música, a banda agradece muito aos fãs e se retira em definitivo. Enquanto os roadies não entraram no palco e começaram a desmontar os equipamentos, ninguém no público havia arriscado sair de onde estava, ainda com alguma esperança que a banda voltasse. No entanto, aquele realmente havia sido o desfecho de um show que nenhum presente ao local se esquecerá jamais.

O telão apresentou falhas que, seja em decorrência da chuva ou não, devem ter atrapalhado a melhor visualização por parte do público ao fundo. O som esteve muito melhor do que na última passagem da banda em São Paulo, no Palestra Itália. A banda em si esteve tecnicamente impecável. Não há o que criticar na performance de nenhum dos seis integrantes. Agora, o que mais chama a atenção nem é a competência dos músicos no manejo de seus instrumentos e, sim, a postura da banda diante de seus fãs pois, do ponto de vista da emoção, da entrega, do demonstrar estar gostando de fazer o show, talvez ainda não haja ninguém para desbancar o IRON MAIDEN. Ver Dave Murray tocar por duas horas sem tirar o sorriso do rosto em nenhum momento sequer, ver a entrega física de Bruce Dickinson, a energia descontrolada de Janick Gers, a cara de satisfação do contido Adrian Smith ou ver a lenda viva Steve Harris agitando com os fãs como se fosse um moleque no meio deles é algo indescritível, tão empolgante quanto ouvir cada um dos clássicos tocados pela banda. Como vários fãs dizem, Harris não é só o baixista e o líder da banda, ele representa tudo o que o Maiden e até mesmo o que o heavy metal é.

No final, uma confusão pior que na entrada, pois o público não chega ao mesmo tempo mas sai ao mesmo tempo. Um único caminho estreito foi o que ofereceram como saída para dezenas de milhares de fãs. Para piorar, uma ambulância vindo em sentido oposto disputava espaço com uma massa de pessoas cansadas e sem saber direito para onde ir. Nem há como criticar alguns fãs que derrubaram uma parte da estrutura que cercava o caminho da saída, pois esses fãs fizeram de maneira torta o que a organização deveria ter feito antes. Pra se ter uma ideia e para quem tem noção de como é o circuito de Interlagos, o show foi realizado ao lado da subida que vai para a reta dos boxes e o público teve que sair por uma passagem alternativa criada atrás do famoso “S do Senna”, mas isso tendo que andar pelo meio do circuito, quase chegando na reta oposta. Na saída, um emaranhado de vendedores ambulantes ainda disputava espaço com quem queria sair do local, fora os congestionamentos dentro e fora do Autódromo. Por sorte, em nenhum momento houve a necessidade de se utilizar uma saída de emergência para uma evacuação rápida. Ao contrário do que tanta gente pensa, o público headbanger deu um show de civilidade, sejam aqueles que foram para o célebre morro ao lado da pista e que assustaram a segurança do local, seja o público em geral. Sim, sempre há alguém inconveniente nesses shows mas, num geral, as pessoas que compareceram ao evento e que tiveram que superar os problemas no local, encararam tudo na base da paz e do bom humor.

Essa resenha só pode ser terminada de um jeito, que foi o mesmo jeito que terminei a resenha do show do ano passado, ou seja, com a constatação de que assistir a um show do Maiden é uma experiência pela qual toda pessoa que gosta de rock deveria passar um dia, sem exageros. Só que isso é algo que talvez apenas quem já viu e vivenciou sabe bem o que é. Mais uma vez, há de se pedir desculpas aos que queriam ler uma resenha cerebral, fria, isenta de qualquer emoção, mas não há como falar de um show desses sem falar de emoção. Não dá pra saber o que será do futuro do metal. Provavelmente ele irá continuar por muitos e muitos anos. Agora, uma coisa é certa: enquanto Steve Harris estiver por aí tocando seu baixo, fazendo seus shows e gravando seus discos, a existência do metal está garantida.

Setlist:

Aces High
Wrathchild
2 Minutes to Midnight
Children of the Damned
Phantom of the Opera
The Trooper
Wasted Years
The Rime of the Ancient Mariner
Powerslave
Run to the Hills
Fear of the Dark
Hallowed Be Thy Name
Iron Maiden
(Bis)
The Number of the Beast
The Evil That Men Do
Sanctuary

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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