Bem-vindos à era do impasse. O impasse das grandes mídias de comunicação, como as conhecíamos antigamente. A era das mudanças inevitáveis e inadiáveis que chegaram avassaladoramente sem bater a porta e nem pedir licença. O preço que todos pagaram por um progresso que todos desejavam.
O preço, aos olhos dos consumidores, no entanto, tem sempre que ser o melhor, o mais confortável para os seus bolsos. E, sem dúvida, realmente é. Representa o que eles acham mais justo pagar, especialmente diante de uma realidade sufocante de preços altos e recessão como a que se vive na aldeia global – uma expressão, aliás, que é e sempre será a tradução dos neoliberalistas para a palavra “mundo”. O impasse ao qual me referi, portanto, tem a ver com preços e consumidores, e mercados-alvo, e tudo o mais que você puder imaginar em termos de consumo de comunicação, pois a comunicação se tornou realmente um admirável bem de consumo, sim, senhoras e senhores. E não adianta dizer que não, você aí sentado na poltrona de seu lar com Internet em alta velocidade via modem speedy e banda larga, e com o controle remoto de sua antena Sky nas mãos. Todos sabemos que sempre foi, mas convenhamos: apenas mais recentemente isso se tornou mais claro e evidente, à medida que as grandes tecnologias proliferaram nesse ramo.
Só para citar uma das mídias da comunicação que mais fizeram dinheiro até hoje, e que agora sofre com a era do impasse: a televisão. Simplesmente o maior canal de TV do Brasil há muito tempo, a Rede Globo, atravessa neste exato momento um importante período de reestruturação de todas as suas políticas de programação, pois nunca mais atingiu os tão sonhados 100% de audiência ou quase dos longínquos anos 60, dos militares e dos milhares de brasileiros postados à frente das telas irradiando o “Jornal Nacional” e as novelas em preto-e-branco de Janete Clair em horário nobre, como Selva de Pedra, por exemplo. São tempos que se foram e não voltam mais, por mais que a experiência televisiva enverede por caminhos exóticos, como os reality shows e as cada vez mais freqüentes misturas interativas de dramaturgia e notícias em pseudo-jornalísticos e shows de auditório esquizofrênicos. A Rede Globo sofre, assim como todos os outros grandes canais abertos do mundo afora, combatendo um gigante chamado Internet, que lhe roubou grande parte de sua audiência. A enxurrada de informações, culturais ou não, que as infindáveis conexões à monstruosa rede propiciou, fomentando literaturas, cinematografia e manifestações artísticas e populares no mundo inteiro, desviou as atenções de milhões de olhos das telas de TV – pois a Web nada mais é, não nos esqueçamos deste dado importantíssimo, caros leitores, do que o mero ato de ler, seja com qualidade ou não, mas metamorfoseado, estilizado, transformado em algo que sincretiza, com adendos fantásticos, sons e imagens, uma evolução insuspeita da leitura. E, ironia das ironias, uma outra mídia está se divertindo com tal disputa: o cinema, que com o advento do pequeno e ignóbil aparelho de TV, sofreu da mesma forma uma perda de impacto diante das massas, tendo inclusive que, no final dos anos 50, para competir, inventar novas formas de filmagem e exibição em grandes salas para tentar manter o velho charme, agora se regozija com esta tão incauta vingança torta que a Internet (e outras mídias, através dela) promove. Tudo o que a TV fez ao clássico cinemão, que ia bem até ela surgir, nos idos de 1950, agora está sendo pago, talvez em dobro até, à caótica rede mundial de computadores. Apenas os canais de TV pagos não estão à mercê desta ameaça literalmente virtual – por vários motivos que não cabe discutir aqui e agora, sendo um deles, por exemplo, o simples fato de que simplesmente pegaram, evidentemente transcodificada para a sua realidade, muito da linguagem dinâmica da Internet.
Mas sendo a televisão um dos monstros da comunicação que sofre com essa nova era que chegou, e que hoje mendiga um, dois, ou míseros cinco pontos no chamado Ibope para sobreviver, dependendo do horário, qual seria um dos outros? Bem, é aqui que a nossa conversa fica mais interessante, e adentra aspectos sobre os quais eu gostaria de discorrer um pouco para tentar mostrar-lhes como os tempos estão mudando, conforme o que Bob Dylan adorava cantar (the times they are-a-changin’). Eles realmente estão.
Eu diria que a indústria fonográfica é um desses senhores certinhos de terno-gravata-e-maleta-na-mão que, depois de ser assaltado e passar o diabo nas mãos da nua e crua realidade das ruas e do povão, vai tentar voltar para casa em frangalhos... e totalmente transtornado, nunca mais com a mesma visão de antigamente. Isso, indubitavelmente, força o sujeito à revisão de uma série de valores em sua vida. Acho que é isso que ainda vai acontecer (a longo prazo, evidentemente) à indústria fonográfica. Senão, vejamos como toda a maré forte e tempestuosa subjugou este grande e velho Titanic exposto à arrebentação:
Em meados dos anos 1980, mais precisamente entre 1983 e 1986, uma nova mídia sonora desenvolvida por japoneses e americanos, chamada compact disc, inicia a sua incessante escalada rumo à popularidade mundial. O conclamado “disco laser”, como era chamado, justamente pelo fato de ser reproduzido em aparelhos especiais através de um agulha ótica com o referido raio, representava a evolução tecnológica fonográfica em quase 90% dos casos, gerando, segundo os especialistas da época, uma alta fidelidade na reprodução de sons jamais experimentada ou ouvida por ouvidos humanos anteriormente. A pureza de som do tal “CD”, como logo começou a ser chamado, era realmente de espantar. Ainda me lembro de alguns anúncios de revistas especializadas, em 1987 ou 88, onde críticos atestavam quais os clássicos que haviam tido as suas melhores transcrições para CD na época. As obras sinfônicas foram os carros-chefe da produção mundial de CD’s durante o período de cinco anos que compreendeu o grande advento da nova mídia: sinfonias de Chopin, Mozart e Beethoven. Concertos conduzidos por Karajan, e outros grandes. “Carmina Burana”, de Orff, ou “O Anel dos Nibelungos” de Wagner, com a sua majestosa “Cavalgada das Valquírias”... as grandes óperas imortais... Tudo isso foi utilizado, em suntuosa escala, para ajudar a promover e dar impacto à nascente mídia do CD. Você poderia ouvir a orquestra tocar como se estivesse em sua sala! O mais tênue roçar do arco sobre um violino poderia se tornar perceptível em algum momento, bem como a respiração de uma soprano em uma passagem das mais emocionantes... maior fidelidade e perfeição sonoras, impossível. Hoje em dia, sabemos que novas mídias estão a disputar com o CD a condição de melhores (como o MD), deixando-o quase no chinelo, mas na época foi um admirável golpe de marketing. E, ainda que alguns dos primeiros CD’s produzidos decepcionassem (e muito!) aqueles que os compraram – por uma simples questão de despreparo tecnológico das fábricas de discos e de equipamentos, ou por uma extraordinária ilusão impossível de satisfazer criada pela publicidade -, a verdade lentamente se tornava uma só: o bom e velho LP, o long-play de vinil, estava com os seus dias contados.

Foi tudo muito rápido para muita gente sequer notar ou entender como aconteceu. Muitos apenas se lembram de, repentinamente, começarem a ver CD’s de seus artistas favoritos em bancas de camelô e pequenas lojas espalhadas por todos os lados, vendidos a preços muito mais acessíveis do que o dos CD’s oficiais, produzidos pelas gravadoras. Como combater R$ 5,00 ou R$ 6,00 quando se vende normalmente a R$ 20,00 ou até R$ 30,00? Uma guerra quase impossível de ser vencida... E, mais uma vez, os culpados por trás de tudo eram eles, os grandes vilões que atazanavam os velhuscos conglomerados da comunicação, a TV e as gravadoras: a Internet e seus computadores. O que aparente seria um simples aparato de armazenamento de arquivos em grande escala, provocado pelo sempre crescente fluxo de informações nas máquinas e na rede, logo provou receptar bem também músicas e videogames, transformando a gravação de CD’s em uma das atividades mais espúrias dos últimos anos. Espúrias – ouvi bem? A disseminação de tal “hobby” já chegou ao ponto de gravadores de CD serem vendidos a ofertas sensacionais nas principais casas do ramo, e a preços bastante acessíveis na própria Internet, nos anúncios de diversos sites especializados. O que parece incomodar mesmo a indústria fonográfica e suas grandes gravadoras e artistas indignados é a modalidade lucrativa desse ato: as pequenas empresas que produzem em larga escala a partir de matrizes excelentes (às vezes, escamoteadas do seio das próprias gravadoras) para um comércio maciço. Não só brasileiras, mas a maioria delas, aliás, tailandesas e chinesas.
Talvez fosse só isso: os CD’s piratas, o combate ao comércio deles nas ruas e às numerosas gangues que os produzem, e tudo estaria bem. Mas não parou por aí, e a agonia do grande sistema fonográfico, como o conhecíamos, tem início, causando a falência de gravadoras de renome e a perda do lucro de seus contratados. Como se não bastasse, mais uma vez, aquela vilã das instituições centenárias da comunicação – sim, ela, a democrática (pero no mucho) Internet – estimulou o desenvolvimento de uma nova forma de arquivo que pudesse ser trocado, puxado, a velocidades maiores, e de forma mais ágil. Do ancestral formato de arquivo musical WAV, que se conhecia desde a época do Windows 3.1, chegamos a formas mais comprimidas e dinâmicas como o WMA e o popularíssimo MP3, e pronto: agora as músicas de seus artistas favoritos trafega por fibra ótica a centenas de kilobytes por segundo, e você já pode não só gravar os seus próprios CD’s como deixar as suas músicas preferidas no próprio computador, ou transferi-las para o som do carro, ouvi-las no seu aparelho de DVD... o inferno para as gravadoras. Afinal, a redenção da gratuitade musical chegou: música para todos os gostos, de graça e democrática, livre de quaisquer pacotes obrigatórios como a seleção que o artista grava sob o nome de “álbum” (um conceito já ultrapassado) ou preços. Há ainda (e haverão sempre, como os colecionadores de vinil) os apaixonados pelos discos, suas capas e todos os conceitos de arte que a embalagem e a contenção física da música criaram, ao longo dos anos, e que continuarão amantes dos discos e CD’s produzidos pelas gravadoras, com selos, fotos, logotipos, fichas técnicas, letras e tudo o mais que eles trazem consigo. Vejo-os, entretanto, como um grupo restrito, museólogos, bastante reduzido com o advento das novas gerações.

Além de tudo isso, principalmente em países de economia injusta, como o Brasil, é muito difícil justificar-se estilos de vida luxuosos e nababescos de artistas musicais como os citados logo acima, que se empenham em manter um status quo já superado, comprando CD’s de R$ 30,00 que são vendidos na porta de sua casa por R$ 6,00. A elite musical luta contra o fenômeno social da pirataria olhando para os seus próprios umbigos, alegando pagamento de contas de bandas e músicos contratados, e gastos com shows e turnês, mas o volumoso aparecimento na mídia de fotos suas em mansões e resorts suntuosos e em viagens e festas milionárias rivaliza com o que dizem. Arautos da luta contra a pirataria, como Zezé di Camargo & Luciano, que o digam! Todos os artistas que apregoam a revolta contra a liberdade da distribuição da música – uma forma de arte livre por natureza; inclusive, das amarras físicas – são aqueles que ascenderam até o período do final do século passado, década de 1990, e já fizeram as suas riquezas com um tipo de comércio que parece, agora, fadado à morte gradual. A música, finalmente, ganha o status de liberdade e integração à vida que sempre lhe pareceu inerente! Acredito que, a partir do momento em que novas tecnologias que permitam o trânsito e armazenamento de arquivos musicais do mundo virtual de uma maneira bem mais ampla forem desenvolvidas e lançadas, o CD ou qualquer outra mídia que contenha as músicas deverão, lentamente, desaparecer. Em um futuro não muito distante, onde tudo se conecta ou se interliga, você recebe as músicas que você quer e as guarda, em seu aparelho celular ou no som de seu veículo, diretamente da Internet, ou liga o seu celular ao seu aparelho de som e ouve os últimos sucessos do momento em MP3 ou em outra forma digital ainda mais ágil e apurada – tudo pela web mesmo. As rádios não acabaram – apenas se adaptaram à nova realidade, assim como a TV, e são também simbióticas à Internet, mesclando-se ao mundo virtual. A música, afinal, flui livremente pelas ondas e cabos de todo o mundo, e para ouvi-la, não compre nenhum disco ou artefato de contenção físico – apenas conecte-se. A música está por aí, rondando livre pelo mundo fora. E como parte do mundo virtual, ela é muito mais livre e abstrata do que o simples e concreto pedaço de plástico chamado CD. Está em todo lugar. De repente, ela faz parte do ar que você respira.
Difícil concebê-lo para quem ainda está preso aos velhos padrões de distribuição de música impostos pela indústria fonográfica de décadas atrás, não? Mas já está acontecendo – basta prestar atenção. E isso tudo quer dizer, afinal, que não se pode mais render algum dinheiro com esse negócio de música, então? O destino da música então é esse, ser produzida como lazer e sem nenhum fim lucrativo, para o consumo virtual mundial? Obviamente, não.

Todos os sistemas desenvolvem-se, e crescem. Passam por mudanças e adaptações. Os conglomerados que hoje conhecemos como gravadoras e indústrias de discos também já estão no caminho para uma grande adaptação, mesmo que não muito clara ou consciente disso. Tateando no escuro, simplesmente encontra-se o caminho, e inevitavelmente acontecerá. O que não se pode fazer é insistir em um sistema vetusto que já está moribundo na UTI da história comercial – como as elites de músicos do porte de um Metallica ou Gilberto Gil insistem. O destino da música aponta, cada vez mais, para a sua liberdade em um mundo virtual. O modo de render com ela deverá consistir, portanto, não em seu aprisionamento em CD’s ou MD’s para distribuição ao público, mas em como administrar a sua produção e distribuição no próprio “admirável mundo novo virtual”, que cresce inexoravelmente.

A perspectiva de lucro com a música, portanto, é totalmente diferente, mas, dependendo do jeito como a distribuição for administrada, pode ser tão rentável e gratificante quanto. Talvez, não seja um lucro tão rápido e fulminante quanto aquele que o mercado musical já experimentou um dia: 300.000 discos vendidos por hora, um milhão de cópias em poucos minutos etc. Provavelmente, todos estes índices são como aqueles 100% no Ibope das novelas da Globo – estatísticas que nunca mais serão atingidas, pois eu já disse: a pirataria e a Internet estão derrubando tudo isto por terra. Talvez, a longo prazo e com certa perspicácia, possa ser um lucro muito admirável, sim. Mas talvez possa ser, também, um lucro ainda mais rápido e fulminante, pois lembremo-nos: a grande população virtual está apenas crescendo, cada vez mais, a cada dia que passa, e não os meros compradores de discos oficiais das gravadoras, cada vez mais escassos – mais uma vez, é aquela velha estória, “pra quê pagar R$ 30,00 se eu posso ter por R$ 6,00 ou até mesmo de graça”? Esta grande população virtual é que representará o mercado do futuro, um mercado que não mais será atingido diretamente, mas indiretamente, determinando o gosto popular que encarece ou não a obra de um artista a ser distribuída para rádios virtuais, sites e pages de música.
Muitos novos tipos de serviço e contrato surgirão a partir deste novo cenário – mas as gravadoras mais antenadas devem já, a partir de agora, irem pensando em como será realizada a transição, pois o pioneirismo nela determinará em quem estará na dianteira do mundo musical do futuro. Há grandes chances, por exemplo, das menores (as ditas independentes) chegarem lá antes das majors da atualidade, pois muitas já têm uma visão mais clara desse futuro e já começam a desenvolver projetos de distribuição de música exclusivamente via net. O caminho para elas, que já estão mexendo diretamente com a coisa, está, por assim dizer, mais pavimentado.

Afinal, a tecnologia vem é para isso mesmo, não? Facilitar as coisas.
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Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB – Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.
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