50 Anos de Rock - Parte 2 - Me chamam lobo mau, eu sou o tal...

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Por Denio Alves
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Esta é a segunda de uma série de 3 matérias especiais sobre os 50 anos de surgimento / popularização de um dos maiores gêneros musicais de todos os tempos, procurando analisá-lo do ponto de vista histórico, social, comportamental etc, etc...

Mês passado, nem bem a primeira parte desta matéria foi publicada, alguns leitores e admiradores deste delirante gênero musical já escreveram indignados, me perguntando como é que eu podia estar utilizando o tal lance do "aniversário" proposto pela mídia (que é uma coisa bem comercial e establishment mesmo) para fazer um artigo daqueles, renegando a verdadeira idade do rock (que remete a bem mais do que os alardeados 50 anos) e ainda endeusando branquelos como Elvis e Bill Halley, que nem são os verdadeiros pais da criança (como eu mesmo disse, conforme uma citação no mesmo artigo, dizendo ter sido "uma das grandes injustiças da música pop: os branquelos que se apoderaram do suingue negróide pra fazer grana" – está lá, é só ler). Realmente, concordo com tudo isso – só que deixo bem claro, também, que se é algo relacionado ao rock e se é para promovê-lo (como o suposto "aniversário de 50 anos", burilado pela mídia), é dever dos seus verdadeiros amantes não ficar de fora e comentar algo a respeito do assunto – mesmo que seja contra! Se no artigo anterior, soou a favor, é porque continuo mantendo a minha opinião de que, sim, a mídia, as gravadoras e os meios de comunicação são monstros do capitalismo horrorosos e devastadores mesmo, mas por outro lado, foram eles que deram o passo inicial na proliferação do rock no mundo e o expandiram além-fronteiras, numa época em que a democracia da Internet e das mídias alternativas, por exemplo, não estava nem perto da mamadeira ainda. Ou você acha, sinceramente, que sem a ajuda do rádio e da indústria de discos, Chuck Berry conseguiria se fazer ouvir longe e influenciar as grandes massas de roqueiros e estilos de rock, que surgiriam depois? O grande problema foi que, depois que essa expansão mundial ocorreu, impedindo que, entre outros povos, nós, brasileiros, estivéssemos só ouvindo batidinhas de samba e bossa nova até hoje, a mídia e os meios de comunicação se prostituíram demais, e o excesso de informação unido à vontade interminável de ganhar dinheiro com o "artista da semana nosso de cada dia" transformou o circo da música pop nessa grande bobeira imprestável que está aí hoje em dia.

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Bem... foi bom essa discussão acontecer, também, porque só fez confirmar ainda mais uma tese que eu defendi naquele artigo: a de que o rock é, antes de tudo, fenômeno midiático. Discutir rock, às vezes, é pior do que discutir religião, política ou futebol, os grandes assuntos incendiários por excelência! Como fenômeno de mídia, o rock controverte, polemiza, divide opiniões, é santo e é profano ao mesmo tempo, e põe todo mundo para abrir alas para ele e atirar pedras ao mesmo tempo. Pedras que, por mais que os anos passem, continuam rolando... só mesmo um campeão de audiência como o rock para ter esse efeito cultural. É poder de mídia puro. Se fosse sobre a obra de Richard Strauss e suas valsas vienenses, ninguém estaria gastando tanto tempo em digressões. E aí o rock cumpre bem o seu melhor papel: põe o fogo pra queimar! Assume de vez a sua cara feia e remelenta, de quem acabou de acordar cheio de raiva, põe a linguona encapetada pra fora, e mostra a que veio – provocar uma baita confusão. Como o caro leitor pode notar, eis aí a justificativa para o subtítulo desta matéria: foi tirado de um velho rockinho do Roberto Carlos nos anos 60, Jovem Guarda – isso mesmo, sras. e srs., o homem já fez música da boa. Ainda que soe extremamente inocente e infantil para a roqueirada de hoje (que curte bois-da-cara-preta como Slipknot e Marilyn Manson...), se chamava iê-iê-iê, e era muito bom para o que se propunha: romper com os preconceitos monotonérrimos dos bossistas. Uma brasa, mora?

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Sid Barret
Sid Barret
Só pra enfeitar a questão de que o rock é provocador de polêmicas inclusive entre os próprios roqueiros, me lembro de um fato engraçado, de dois conhecidos quase saindo a tapa em um fórum virtual, há algum tempo atrás, sobre a real participação ou não de Syd Barret (do Pink Floyd) nas sessões de gravação dos Beatles, em 1967, do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. O motivo da teima toda, aliás, morreria dentro de pouco tempo: quando foi lançado o CD "Anthology 3", cobrindo raridades e sobras de estúdio dos Beatles no período 1968-69, ficamos sabendo, através da versão limpa e remasterizada de "What a Shame, Mary Jane" (antes só disponível em bootlegs com péssima qualidade sonora), que a faixa em questão pertencia, na verdade, ao período das gravações do "White Álbum", os vocais eram mesmo só de John Lennon, alterados eletronicamente, e os efeitos sonoros psicodélicos haviam sido adicionados, em diferentes sessões, por ele, Yoko Ono e George Harrison. Apesar disso, até hoje, conheço gente que afirma, de pés juntos, que Barret passou por lá e deu uma mexidinha nos controles... Sei lá, sempre vai aparecer gente dizendo que já ouviu uma versão diferente da faixa e que diz: "olha, está lá... se você ouvir, você vai ver...".

Legal. Se você OUVIR, você vai VER. É sempre pungente a ligação entre os dois sentidos (audição e visão) quando se fala no rock. Um grande roqueiro até já fez uma bela canção abordando tal dicotomia (David Bowie - "Sound and Vision", 1976). Em qualquer outro estilo você pode sempre ouvir a música desvinculada de sua parte visual – ou seja, os seus executores. Mas no rock a coisa muda e você quer ver o cara que toca, dada a sua intrínseca ligação com a mídia, com o "ver para crer", os escândalos que o permeiam, desde a sua criação - os quebra-paus por causa das sessões de cinema do filme "Sementes da Violência", conforme já citado na matéria anterior, o rebolado de Elvis, a dança marota estilo "pato" com a guitarra de Chuck Berry etc. É um punhado de fatores que faz o rock, dede tenra idade, ser intimamente ligado com o visual também. Outro fenômeno de mídia: é o estilo musical multimidiático por excelência. Faz você querer não só ouvir, como ver também. Little Richard foi um artista performático pioneiro, a primeira bicha-louca do rock, berrando e uivando desvairadamente com aquela cabeleira, olhos faiscantes perigosos e um bigodinho malandro, enquanto martelava pra valer no pianinho, o que fazia qualquer um pensar "que tipo de entidade espiritual baixou nessa criatura pra ele aprontar isso?".

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Jerry Lee Lewis
Jerry Lee Lewis
Os ataques de epilepsia demoníacos não paravam por aí. Continuavam com Jerry Lee Lewis, que, devido a um acidente de infância, tinha uma perna mais mole que a outra, e jogava ela por cima do piano enquanto o tocava, se esgueirando sobre ele de pernas arreganhadas, uma indecência para a época, cruz credo! Tudo isso em plenos anos 50, e o cara tinha saído de uma família evangélica e era primo direto do pastor Jimmy Swagart (aquele famoso, da televisão). Não bastava isso: num belo show em que ficou enfurecido por terem colocado Chuck Berry como artista principal do evento, Lewis simplesmente tacou fogo no piano enquanto o tocava e arrebentou o banquinho e tudo que estava mais próximo a ele, numa performance endiabrada que antecedia, em oito anos, os happenings de destruição de guitarra e equipamentos de grupos como The Who e Jimi Hendrix Experience!

Entendamos que todas essas coisas que aconteciam, espontaneamente – por ingenuidade, caipirice, ou pura manguaça dos bisavôs do rock – iam parar nas manchetes dos jornais e das grandes "revistas de rádio e TV" da época. Quem escutava os trinados de um Little Richard, ou os rosnados enlouquecidos de Jerry Lee Lewis e Eddie Cochran, naqueles velhos compactos 78 rotações por minuto, acompanhados de um ritmo sincopado e vibrante, QUERIA ver os caras, porque sabia que eles não eram normais e que faziam isso ou aquilo. Eram uns caras diferentes. E tudo que não é normal sempre chama a atenção do público, especialmente o jovem.

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A eterna má fama do rock... ah, eis o assunto que é o preferido de dez entre dez detratores do gênero. "Rock é coisa do capeta", "rock é coisa de maconheiro, de cabeludo", "quem ouve rock vai queimar no inferno", "roqueiro é psicopata", "ouvi falar de um serial killer que era roqueiro", e por aí vai... Mas existe médico roqueiro. Existe engenheiro roqueiro. Homens em altos cargos do poder roqueiros. Muitos profissionais liberais roqueiros. Tem até senador e juiz de direito roqueiros. Esse pessoal não é do mal, aos olhos da sociedade – pelo menos não à primeira vista, pois são importantes e possuem bons empregos, boas remunerações e fontes de renda. Desses ninguém fala (só do político roqueiro – mas aí já nem é por causa do rock). Mas vai falar do boy roqueiro, ou do desempregado roqueiro. O garoto da entrega de pizza roqueiro. Ih... aí já fudeu tudo!

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Me lembro que, em 1993, eu era apenas um jovem magricela e cabeludo, com espinhas na cara, vivendo a clássica fase do "e agora?", com vestibular a fazer e mil dúvidas na cabeça em relação ao meu futuro e como arrumar uma bela garota sem uma chave de carro na mão. Só de uma coisa eu tinha certeza: que eu gostava de um bom rock n’ roll. E nessas de viver umas e outras, de amigos indo embora estudar em outros lugares e outros ficando, enquanto outros já estavam se perdendo e se danando, a Internet nem tinha chegado ao grande domínio público ainda, e uma de minhas grandes diversões era a leitura obrigatória (além dos livros de escola) de revistas que marcaram aquela época, como BIZZ (que depois virou a decepcionante "ShowBizz"), ROCK BRIGADE e TOP ROCK. Das três, sabemos qual a que sobrevive até hoje nas bancas, mas eu sempre tive especial afeição pela BIZZ e pela TOP ROCK – pela própria abordagem mais ampla que ambas tinham do cenário musical, apesar da última mostrar uma linha editorial mais voltada para o heavy metal mesmo. Pois é, numa edição de (se não me engano) janeiro de 1994, a TOP ROCK publica a matéria "Rock x Escola: Escolas em guerra contra o metal", que me põe a rolar de rir com os testemunhos de jovens roqueiros de escolas de 1.º e 2.º graus de várias regiões do país que sofriam com o preconceito de pais e professores em relação ao ritmo musical que fazia a cabeça deles. Vi ali, no entanto, vários casos que se assemelhavam fielmente aos de colegas e amigos meus da época. Casos como os das alunas Carla e Maitê, do Colégio Liceu na Mooca (em SP), que tentaram fazer um trabalho escolar sobre o Iron Maiden, barrado pela professora de inglês. Ou dos proclamados "únicos headbangers" da cidade de Goiandira (GO): Rodolfo Henrique (o "Johnny Scotch"), Erlando Júnior ("Michael K"), William Ronan e Geraldino "Satanás" - uma galera invocada que era discriminada pelos outros habitantes da cidade na época. O simples relato destes guerreiros do rock (não sei se são sobreviventes – gostaria até de saber, se alguém ainda for vivo e puder me mandar um e-mail e entrar em contato) já passa bem uma idéia de como era barra pesada, há alguns anos atrás, ser um roqueiro convicto, num lugar simplório, "terra de Leandro & Leonardo". Segue um trecho transcrito da matéria:

"Rodolfo conta: ‘Quando fui ao colégio com o jeans rasgado, a diretora me suspendeu por uma semana. Quando voltei, os alunos me chamavam de maconheiro, bicha. A professora de Geografia e OSPB da minha escola (Colégio Dom Emanuel), me humilhou e aos meus amigos diante da classe, nos chamando de palhaços, dizendo que rock não é coisa de gente.’".

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"Os garotos encararam e pediram a tradução de uma música do Metallica. Olha o que aconteceu: ‘Fomos duramente criticados. Demos o troco, xingamos Chitãozinho e Xororó e quase fomos espancados. Deprimidos, fomos para uma casa longe da cidade cantar o que a gente gosta e um babaca que caçava tatu ali perto chamou a polícia. Os policiais nos acusaram de sermos um bando de terroristas!’, disse Rodolfo."

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São relatos incríveis, de uma época gostosa da minha vida e da de muita gente, mas que nos mostram como viver nos anos 80 e 90, com essa pecha de "roqueiro", não era fácil, muitas vezes.

O rock pode sempre ter tido uma cara mais feia e arrebitada para as hipocrisias da sociedade em geral. Entretanto, quando se fala em feitos de mal comportamento, dificilmente as pessoas se lembram que isso é algo inerente à atividade artística, pois ela se sobressai mais aos olhos públicos do que as outras atividades profissionais, e artistas de grande renome, NÃO ROQUEIROS, já aprontaram coisas mais espantosas e até piores do que muito roqueiros, só que, pelas suas carinhas amáveis e suas auras de anjo perante o grande público, não foram tão condenados e apedrejados em praça pública como seriam... se fossem roqueiros.

Paganini
Paganini
Os exemplos pipocam. Já no séc. 18, o maestro e violinista Niccolo Paganini (figura também da matéria sobre Rock e Satanismo, aqui no WHIPLASH!) chocou a todos com a sua destreza no violino, tocando o instrumento como um endiabrado e despertando suspeitas sobre um suposto pacto com o diabo – isso muitos anos antes do blues e da lenda de um tal Robert Johnson. O interessante é que este músico clássico, venerado como um dos grandes intérpretes de uma música convencionada como séria e erudita, era um sem-vergonha de primeira, que levava uma vida mundana e desregrada de vícios, em especial pelo jogo. Ficou famoso na época, não só pela habilidade com o arco, como também com a esbórnia...

Jimmie Rodgers
Jimmie Rodgers
Nos anos 30, um dos pais da música country norte-americana (ao lado de outro baluarte, Hank Williams), o cantor Jimmie Rodgers, já lavava a égua, fumando e bebendo feito um possuído e tendo casos com mulheres casadas, correndo de maridos enciumados em finais de shows, e falando sobre tudo isso em canções de sua autoria, bastante realistas – simplesmente vinte e cinco anos antes que o rock se dignasse a mostrar o lado podre e sujo da realidade e seus vícios em letras de músicas. Jimmie Rodgers pode ser considerado, lado a lado com o bluesman Robert Johnson (da mesma época) um dos grandes pioneiros do que viria a ser a rebelde atitude rock n’ roll disseminada por gente como Iggy Pop e Ozzy Osbourne.

Também não vou ficar citando nomes por aí pra me complicar depois, mas, pra reforçar que não é só roqueiro que é "do mal" e apronta, sabemos que, aqui mesmo no Brasil, já teve cantor sertanejo e pagodeiro que andou tomando todas e mais algumas, deu uns "tirinhos" por aí, e ao pegar carrão importado pra sair a 150 km por hora nas rodovias, andou tirando a vida de gente inocente. Isso sem falar nesses verdadeiros arautos do trinômio "celularzinho/carro importado/exame de DNA", os pagodeiros, que aumentam deveras a taxa de densidade demográfica brasileira, espalhando centenas de filhos pelo território nacional com fãs e candidatas a modelo malas, e depois dão no pé. Atitude mais roqueira, impossível, né? E as orgias nababescas com fãs, escolhidas a dedo depois daquele showzinho? Cheira a Led Zeppelin e Rolling Stones, mas não – acontece direto em vários rodeios e exposições agropecuárias por aí com esses "medalhões do sucesso" que aparecem na televisão todo dia e tocam direto nas rádios. E esse pessoal é um bando de anjinhos – eles aparecem nos programas de auditório dando sorrisinhos fraternos para as câmeras, mandando beijinho para as fanzocas, e até financiam ONGs e ajudam entidades assistenciais – mas deixa um empresário bem marketeiro não estar segurando as pontas por trás pra ver se eles fazem isso...

Ozzy Osbourne
Ozzy Osbourne
Mas é assim mesmo. Muitos inocentes pagam pelos pecadores – e ainda continuarão pagando. Obviamente, que muito roqueiro também apronta e merece a fama que tem. Mas, sinceramente, você acredita que uma figura como o Ozzy que você vê no seriado The Osbournes é aquele mesmo que, nos anos 70, barbarizava com o Black Sabbath, ou que mordia morcegos nos anos 80? Todo mundo amadurece, meu filho... Quando se é jovem, é muito fácil chocar, pois você está simplesmente querendo se impor como personalidade, e então é comum não medir as conseqüências. Isso acontece com roqueiros, pagodeiros, sambistas... todo mundo.

Agora, como eu afirmei na primeira parte deste artigo, tem uma coisa que é sempre problemática, e não muda: a imagem enfadonha que os meios de comunicação sempre têm, em geral, do rock. Me lembro de outro fato, enfático, que ilustra bem o nível de familiaridade dos meios de comunicação "adultos" com esse ritmo maroto que é o rock: as sempre conturbadas aparições de astros do gênero em programas e shows transmitidos pela TV – muitas já habitantes do terreno da lenda, mostrando que, sempre que a rebeldia, a irreverência e a controvérsia dão suas caras em um veículo de divulgação onde, mais do que em qualquer outro, "o anunciante paga e a gente se cala", a porca torce o rabicó mesmo. Alguns casos famosos desse conturbado relacionamento:

Ed Sullivan
Ed Sullivan
1) No decorrer de toda a sua existência, o campeão de audiência da TV norte-americana The Ed Sullivan Show, com seu apresentador que serviu de grande modelo para o nosso Silvio Santos, leva ao seu palco algumas das maiores atrações do rock de todos os tempos, no auge de suas carreiras... mas não sem alguns qüiproquós. É no tal programa, de alcance nacional, que Elvis Presley é censurado da cintura pra baixo em 1956 – sua dança era considerada obscena demais para os padrões da época, e os produtores e anunciantes mandaram cortar a pélvis de "Elvis, the Pelvis" pra valer. Já em 1967, os Rolling Stones acabam tendo que trocar o refrão de seu novo single, "Let’s Spend the Night Together" (Vamos passar a noite juntos), para "Let’s Spend Some Time Together" (Vamos passar algum tempo juntos). Era sacanagem demais para os produtores e anunciantes Mick Jagger anunciar o convite para uma trepada fugaz de uma noite só em rede nacional, pleno horário nobre. O cantor então acabou tendo que concordar com os argumentos do apresentador Ed Sullivan para amenizar um pouquinho aquela que pode ser considerada como a canção que profetizava as "ficadas" noturnas dos jovens de hoje em dia. No mesmo ano, entretanto, o programa de Ed recebe uma outra banda de emergente sucesso, considerada "os Rolling Stones americanos", chamada The Doors, que iria apresentar o hit "Light My Fire". Esta continha um verso considerado incitador do consumo de drogas – "we couldn’t get much higher" (nós não poderíamos ficar mais ‘altos’ – ou chapados). Diante do alerta do cunhado de Ed, que mantinha as relações comerciais do programa com seus anunciantes, o velho apresentador vai ter uma conversinha com o vocalista Jim Morrison... que não adianta muito. Morrison não muda uma vírgula sequer do trecho no momento ‘x’, e ainda levanta a voz para cantá-lo mais alto diante das câmaras.

2) Jimi Hendrix, ao se apresentar no programa de TV da apresentadora e dublê de cantora inglesa Lulu (uma poplet do final dos anos 60), ao lado do seu grupo Experience, em 1968, resolve abandonar o repertório previamente combinado dentro das rigidérrimas restrições de tempo da televisão, e ataca de "Sunshine of your Love", música do Cream, em homenagem ao grupo de Eric Clapton que estava encerrando atividades. Pra quê... em dois minutos apenas são cortados do ar, e Jimi nunca mais faria uma longa apresentação para um programa de TV na Inglaterra.

3) A TV americana, esse monstro "siste" que gosta de se aproveitar comercialmente de qualquer onda "jovem" que surja só pra faturar um pouquinho a mais, pega carona em um dos maiores fenômenos do rock nos anos 70, que atingiria uma febre entre os adolescentes só comparável à beatlemania: a "kissmania". No auge do sucesso da banda Kiss, inúmeras equipes de TV americanas (como a NBC) filmam shows quase inteiros do grupo para mostrar trechos em inserções durante os telejornais e relatarem textos sensacionalistas sobre eles. É o tipo de propaganda negativa que acaba funcionando muito mais a favor do que contra o artista (o famoso "falem mal mas falem de mim"). É dessa época lendária a veiculação de boatos do tipo "os discos do Kiss contêm mensagens satânicas rodadas ao contrário" (já típico da época do Led Zeppelin), "o Kiss utiliza técnicas de hipnose nos jovens" (idéia usada no videoclipe de "Love it Loud", anos depois), e "Kiss significa ‘Kids In Satan’s Service’ – garotos a serviço de Satã". Os pastores eletrônicos da TV americana deitam e rolam, e caem de pau. A molecada delira e curte ainda mais. Muitas partes de shows do Kiss que são exibidos na TV a partir de 1976 contêm cenas cortadas ou tapadas com tarjas pretas (como aquelas cenas com Gene Simmons sangrando seu linguão ou com participações de modelos seminuas).

4) Essa é clássica: Johnny Rotten (dos Sex Pistols) fala um sonoro "fuck" durante uma entrevista em um popular programa da TV britânica, em 1977. A banda é execrada no dia seguinte, e pra inteirar direitinho o negócio, ainda resolvem comemorar o jubileu da Rainha Elizabeth com o lançamento do polêmico single "God Save the Queen", com ampla cobertura da imprensa.

5) Só no Brasil, alguns casos de transmissões de shows de rock pela TV se tornaram lendários. A partir da segunda metade da década de 80, com o primeiro Rock in Rio (em 1985) e o prestígio da geração Rock Brasil daquela década (com grupos como Barão Vermelho, Titãs, Paralamas do Sucesso, Metrô, Ultraje a Rigor, e vários outros), a televisão brasileira sofre um "boom" de programas de videoclipes e shows, e vira moda ser roqueiro. A apresentadora Glória Maria, da Rede Globo, ganha para sempre a antipatia dos amantes de heavy metal quando, durante uma matéria para a cobertura do Rock in Rio 1, inventa a expressão "metaleiro", que além de tudo passa uma conotação suburbana de classe operária na tal reportagem. Fãs de grupos como Iron Maiden, Saxon e Venom passam a ser vistos de forma caricatural em vários programas de TV e pelo grande público, passando uma idéia "viciada" e gozadora dos adoradores do metal – tendência da mídia que também já ocorrera com os punks. Nada é tratado com seriedade, e ao longo de todos os anos 80 e 90, fatos míticos aconteceriam: Erasmo Carlos é ruidosamente vaiado pela turba ensandecida de headbangers ao tentar se apresentar com visual "Bruce Dickinson", no primeiro Rock in Rio (1985); no segundo Rock in Rio, é a vez de Lobão tomar vaia e otras cositas mas ao tentar tocar na noite dedicada ao metal, e do jornalista da Globo Pedro Bial dar bobeira filosofando sobre a bunda flácida de Axl do Guns N’ Roses (1991); no Hollywood Rock de 1993, Kurt Cobain, do Nirvana, em uma egotrip mega-depressiva, simula masturbação e dá sua clássica cusparada nas câmeras da Globo, que cobria o evento, além da apresentadora Maria Paula tomar uma tomatada do público ao apresentar a banda durante plena transmissão. Os títulos das músicas do Nirvana são todos trocados, numa das maiores pisadas de bola da TV brasileira com o rock, e entre uma música e outra do show no Rio, os integrantes do grupo fazem irônicas piadinhas com a imagem das estrelas do rock e com o fato da promotora do evento ser a indústria do cigarro. "Eu não ligo se eu vou morrer de câncer por fumar ou não. Eu fumo porque eu posso, eu fumo porque eu sou um rockstar", resmunga Kurt ao microfone em uma de suas brincadeiras com Chris Novoselic enquanto afinam (inutilmente) seus instrumentos; e no Hollywood Rock de 1994, provavelmente só pra sacanear de vez mesmo com o telespectador roqueiro brasileiro (que só assiste a shows de rock totalmente cortados), a Rede Globo, num ímpeto de atitude e coragem, resolve exibir a apresentação do lendário vocalista do Led Zeppelin, Robert Plant, na íntegra. Detalhe: com os títulos das músicas quase todos trocados também e as guitarras equalizadas em um volume quase inaudível, numa sensacional falha de mixagem da equipe técnica que cuidava da transmissão durante o show inteiro!

Kurt Cobain (Nirvana), no Hollywood Rock de 1993
Kurt Cobain (Nirvana), no Hollywood Rock de 1993
Tudo isso, meu caro amigo, eu me lembro bem: aconteceu numa época em que MTV apenas engatinhava em solo brasileiro, e não existiam todas estas opções de canais de TV pagos e especializados em transmissão de eventos de música. Mas não nos enganemos – não mudou muita coisa de lá para cá, e o rock ainda é mal visto e mal transmitido por muita gente. O máximo que se pode fazer, na maioria das vezes, é aquilo que estamos cansados de ver (e ouvir): põe um fundinho de uma musiquinha do Oasis num comercialzinho aqui, um trechinho da nova do Audioslave naquela propagandinha de celular ali, e vamo simbora! E assim é bom, porque todo mundo acha bonitinho e bem-feito e não tem nada de cusparada melequenta do Cobain na câmera, e nem virtuosismos chapantes indesejáveis do Hendrix que ultrapassem o horário da novela começar – ai, que beleza de publicidade, esse comercial tem um belo visual e agrada todo mundo! Depois de tudo isso exposto, dá para levar a sério mesmo o pretenso "Aniversário de 50 Anos do Rock" divulgado pelos canais de TV? Existe mais respeito por este meio de expressão musical, ou pelas eternas e enfadonhas transmissões de carnaval, de axés, de falsos caipiras e de bundas que cantam, o ano inteiro e sem parar?

O espetacular e definitivo uso comercial do rock n’roll para vender sonhos e ilusões na grande tragicomédia do capitalismo moderno global: eis como a mídia aprendeu a domesticar a fera, senhoras e senhores.


Na próxima e última parte desta matéria: o que o rock deixa para o futuro? Existe algo de realmente efetivo do rock para a velhice, ou é tudo ‘espero morrer antes de envelhecer’? Qual é o verdadeiro legado deste ritmo estranhamente atemporal para toda uma geração que está aprendendo ainda a rockar? O rock tem futuro? O rock viverá? Existem chances deste vetusto senhor continuar rebolando com sua guitarra e andando de bermudinhas por aí, como Angus Young? O rock e o que será dele – e o que será de nós também!


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Sobre Denio Alves

Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB - Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.

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