Esta matéria foi publicada em 13/02/10. Procura matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?
A coluna de DUFF McKAGAN (LOADED, VELVET REVOLVER) é publicada toda quinta-feira na coluna Reverb do Seattle Weekly. Ele escreve sobre o que está circulando por seu iPod toda segunda.
Eu estava num estúdio de gravação dia desses e tinha tempo de sobra. Se eu não estiver lendo um livro ou escrevendo, por muitas vezes eu saio fuçando atrás dum jornal ou uma revista. Nesse dia, eu me deparei com 'Cobain', uma revista-tributo publicada pela Rolling Stone alguns meses depois da morte de Kurt em 1994.
Eu não posso apontar as razões, mas do nada, naquele estúdio escuro, eu fiquei embargado e emotivo. Eu li esse livro do começo ao fim, e enquanto claramente lembro bem desse hiato, eu não acho que o foco da tristeza tenha batido em mim até esse momento. Uma tristeza profunda que agitou muita emoção com a qual eu não tivesse lidado ainda. Eu não sei, pra ser honesto.
Eu estava no mesmo avião que Kurt estava naquele vôo de Los Angeles alguns dias antes de sua morte. Ambos estávamos chapados. Nõs conversamos, mas superficialmente. Eu estava em meu inferno, e ele no dele, e parecíamos ambos entender isso.
Quando chegamos a Seattle e fomos até a esteira de bagagem, passou pela minha cabeça convidá-lo pra ir até minha casa ali e naquele momento. Eu tinha um sentimento verdadeiro de que ele estava solitário e sozinho naquela noite. Eu me sentia da mesma maneira. Havia uma aglomeração louca de pessoas ali em público. Eu estava numa banda de rock muito famosa, e ele estava numa banda de rock muito famosa. Nós estávamos um do lado do outro. Muitas pessoas pararam pra olhar. Eu me distraí por um minuto e Kurt disse tchau e saiu em direção ao carro que o esperava. A casa nova dele era pra baixo da minha nova casa na mesma rua. Eu recebi uma ligação de meu empresário dois dias depois dizendo que Kurt tinha morrido.
Eu acho que eu estava insensível pra esse tipo de coisa naquele ponto da minha vida. Eu tinha perdido dois de meus melhores amigos por overdose de drogas. Pessoas em minha própria banda tinham tido overdose várias vezes. Minha vida e meu vício estavam rodando fora de controle, e meu corpo estava falhando em várias maneiras. É possível que eu fosse incapaz de sentir tristeza, incapaz de pegar o telefone e ligar pra Krist [Novoselic, baixista do Nirvana] ou Dave [Grohl, baterista do Nirvana]. Na verdade, eu tinha uma auto-estima tão baixa naquele ponto, que eu tenho certeza que eu achei que minha ligação não teria impacto sobre esses caras legais.
Eu tinha ficado muito animado em idos de 1991, quando bandas da minha cidade natal de Seattle começaram a ficar famosas e terem reconhecimento por sua música magnífica. Eu estava orgulhoso porque eu sabia que a cena era única e auto-suficiente e aberta a novas e diferentes idéias.
Alguns anos depois, no MTV Awards, onde tanto minha banda como o Nirvana se apresentaram, eu me queimei quando percebi hostilidade pra cima de minha banda vinda do lado do Nirvana. Em meu delírio induzido por bebedeira e droga, eu ouvi o que queria ouvir, e fui atrás de Krist Novoselic atrás do palco. Eu não tinha controle sobre mim próprio então. E Krist, eu peço desculpas por aquele dia.
Krist, meu colega e amigo, eu sinto muito pela sua perda, também. Eu sinto muito que não pude ser seu amigo naqueles dias. Nós tínhamos tanta, tanta coisa em comum. Nós temos tantas coisas em comum hoje em dia.
Eu sinto muito por não ter tido o discernimento de apenas chegar em você e conversar no MTV Awards em 1992. Eu era louco e insano então. Minha maneira de lidar com qualquer tipo de conflito tinha se estreitado a pugilato de buteco. Kim “Fastback” Warnick, meu mentor, me ligou no dia seguinte ao meu mico e acabou comigo por causa disso. Eu me senti tão baixo. Eu simplesmente não sabia como lhe telefonar e pedir desculpas. Meu sonho de estar em uma banda que todo mundo no mundo acreditasse tinha tornado-se realidade. As complicações que vieram com isso também estavam se fazendo presentes. Você estava lidando com as mesmas coisas que eu estava. Nós poderíamos ter tido muito assunto pra conversar.
Eu fico feliz por você ter superado aquela temporada louca da sua vida. Só um homem forte passa por aquela devastação e não sai permanentemente aleijado. Sua banda deveria ter sido uma daquelas que continua estabelecendo novos padrões pro que uma banda de rock é. Sua carreira e visão foram podadas. Nós músicos apenas não falamos desse tipo de coisa, achando que é um pouco sensível demais. As pessoas esperam que a gente simplesmente supere isso. Por quê, nós não temos nossas pilhas de dinheiro pra com as quais nos fazermos sentir-se melhor: se as pessoas apenas soubessem.
Eu não estou tentando envergonhar você, Kris. Talvez eu apenas esteja agora tentando tomar as rédeas da situação e exorcizar meus próprios monstros ocultos, eu fico feliz que agora somos amigos e eu espero que essa parte da história dure pro resto da vida.
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Nacho Belgrande, 33 anos, residente em Marilia - SP, é professor de inglês e francês, apesar de formado em Técnico de Engenharia de Estúdio pelo Recording Workshop de Los Angeles, nos EUA. Suas lembranças musicais mais remotas datam de 1983, com a fervilhante passagem do Kiss pelo Brasil e da alta popularidade do Queen no país. Fã(nático) por Mötley Crüe (de quem tem mais de 100 CDs), segue de perto também o trabalho de Slayer, Krisiun, Guns N´ Roses, Van Halen e Ozzy Osbourne, entre outros.
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