Atenção músicos: vocês estão f-u-d-i-d-o-s

  

Por Nacho Belgrande, Fonte: Playa Del Nacho
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Por Paul Resnikoff
Traduzido por Nacho Belgrande

“Eu passei uma tarde toda lendo e relendo a avalanche de artigos, comentários, análises e emails relacionados a um rompante isento e eloquente. O New York Times, o NPR, o Los Angeles Times, o TechDirt, Hypot, Lefsetz, o Huffington Post. Milhares de palavras, centenas de comentários, dúzias de emails, vários posts; não tenho certeza de ter passado por nada parecido antes.

Isso porque David Lowery não apenas cutucou a ferida essa semana, ele pode ter, sozinho, destruído anos de utopia digital pós-física e ridícula. Em um desabafo cristalizante, que transcende gerações e inacreditavelmente viral.

E depois de uma década de digitália embriagada, essa é a ressaca que finalmente sobe, e é enfim encarada na manhã de segunda-feira, quando você finalmente se olha no espelho e admite que tem um problema. E condensa tudo em um detalhado ‘momento de lucidez’…

1. Não, artistas não podem simplesmente fazer shows e vender camisetas

Isso não funciona. Na verdade, quase nenhum artista independente consegue fazer isso, exceto aqueles que já foram desenvolvidos em algum momento por grandes gravadoras [como Amanda Palmer] ou um grupo de profissionais sérios. A maioria dos outros está ralando para sobreviver em turnê, fazendo-o com grande dificuldade e trabalhando sem parar.

2. Registros físicos de gravações valem ZERO hoje em dia; o ecossistema deles se extinguiu.

Algumas pessoas compram CDs. Menos pessoas ainda compram vinil. Os downloads via iTunes ainda estão aumentando. Mas em média, em todos os formatos, gravações se tornaram imprestáveis. E isso tem tido repercussões drásticas para a indústria musical, e para as vidas de artistas que de outro modo seriam criativos e produtivos.

3. o Spotify não é uma solução benéfica pros artistas. Certamente não nesse momento, e muito possivelmente, nunca.

O Spotify conseguirá alguma vez dar camisa pra algum artista? Isso é especulação pura. Claro, pode por ventura ter uma penetração como tem na Suécia dentro dos EUA. Mas isso não está acontecendo AGORA. Não é uma solução justa para os artistas NESSE MOMENTO. Ao invés disso, está deixando pessoas como o CEO Daniel Ek podres de ricas, engordando as grandes gravadoras e potencialmente dando aos banqueiros do Goldman Sachs mais uma teta.

4. o Kickstarter significará alguma coisa pros artistas no futuro, mas só pra alguns poucos.

Amanda Palmer pode deter o recorde mundial por muito tempo, mas haverão outras histórias de Kickstarter. Algumas sairão do nada, mas a maioria irá envolver artistas já estabelecidos, particularmente aqueles desenvolvidos por uma grande gravadora ou uma empresa do tipo. Isso não irá substituir o nababo financiamento outrora oferecido pelas gravadoras.

5. O esquema ‘faça-você-mesmo’ raramente surte resultados, e quase sempre afunda em meio à competição.

Não interessa se você está cantando direto na orelha do seu fã. Porque eles estão ouvindo ao Spotify em fones de ouvido enquanto mandam SMS e jogando Angry Birds. Alguns podem se dar bem, mas a maioria não conseguirá sem equipes sérias, marketing de ponta e muita penetração na mídia. Justin Bieber precisou da grande engrenagem da indústria, não importa o quão bonita a história dele com o YouTube seja.

6. Infelizmente, a maioria dos artistas está em pior situação na era digital do que estavam na era física.

Na verdade, temos que agradecer a David Lowery por essa constatação. Porque a implosão da venda de gravações impactou quase todo outro aspecto da monetarização da música [apesar de não ter atingido a criatividade musical em si]. E sua compensação é geralmente uma fração do que um artista ‘de sorte’ poderia esperar ganhar em outros tempos.

7. Os jovens em sua maioria não compram música. Eles compram hardware e acesso.

Eles rumam em direção ao conteúdo digital gratuito, e ocasionalmente pagam por coisas como shows quando eles estão com dinheiro. São jovens adultos que provavelmente não querem lições de moral sobre os males do download. Assim como todo mundo – a despeito da geração.

8. Pessoas mais velhas compram menos música do que antes. Cada vez mais, elas compram hardware e acesso com mais frequência.

Se você quer mesmo vender um produto estereotipado, faça outra Suzan Boyle. Ainda é um mercado que não gira em torno de música gratuita e contato constante com os fãs. Mas pessoas mais velhas trocam arquivos, ouvem streamings, roubam música e compram menos do que antes.

9. o Google é uma grande parte do problema.

Lowery está certo. O Google NÃO ESTÁ INTERESSADO em proteger criadores de conteúdo artístico. O interesse deles é outro. Direito autoral é um incômodo pra eles, a menos que envolva seus próprios códigos. Na verdade, qualquer coisa além do DMCA destrói a habilidade deles de atender a seus consumidores, permanecerem competitivos, e fazerem dinheiro. E é por isso que o Pirate Bay é uma das ‘hot searches’, e a razão pela qual acrescentar ‘mp3’ a qualquer busca por um artista produz páginas e páginas de resultados.

10. Você é uma grande parte do problema.

Só porque é legal, não significa que esteja ajudando aos músicos. Não se trata de compartilhamento de arquivos, mas a receita oriunda do Spotify, Pandora, Turntable, FM, ou sites do tipo é muito baixa. É um erro de arredondamento, mais pra zero. O paradoxo é que os fãs de música estão vivendo abundantemente, enquanto os artistas estão recebendo migalhas.

11. O Google, os ISPs e os fabricantes de hardware venceram.

Não importa o quão brutal a guerra com Hollywood fique. Quantas mansões de milionários da internet sejam reviradas. Os fãs de música não vão começar a comprar discos de novo. Na verdade, além da playlist, o conceito de enfileiramento de faixas se tornará cada vez mais distante para as novas gerações.

Não se trata de quem está certo, é apenas o mundo no qual toda a comunidade musical vive agora.

12. Todo mundo mente sobre roubos

Eu só ouvi algumas poucas pessoas admitirem que compartilham arquivos: meus amigos chegados, Bob Lefsetz, e Sergey Brin. Se você tem uma coleção de iTunes de mais de alguns milhares de músicas, você quase certamente as trocou, baixou via torrent, ou trocou de HD em sua vida. E todo mundo tem uma coleção de alguns milhares de músicas.

13. Sucessos tipo ‘ganhador da loteria’, feitos pras massas, irão continuar.

Nichos estão disponíveis e por vezes respondem. Mais frequentemente, o marketing para as massas vence. E a maioria dos músicos está jogando com chances muito baixas.

14. Esse NÃO é o melhor momento para se estar na indústria musical

Conferências como a MIDEM fazem dinheiro com esse otimismo instantâneo. Mas eu trabalho no ramo musical agora. Eu estive em uma grande gravadora nos anos 90. E a realidade é que essa é a melhor época que já houve para os fãs, mas com certeza NÃO o melhor momento para aqueles tentando fazer dinheiro em cima desses fãs. E tal como David Lowery descreveu tão sombriamente, pode ser uma jornada incrivelmente deprimente até para um artista ‘bem sucedido’.

Essa é a realidade na qual vivemos agora, e você tem que agradecer muito a David Lowery por torná-la tão óbvia.”

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Sobre Nacho Belgrande

Nacho Belgrande, 33 anos, residente em Marilia - SP, é professor de inglês e francês, apesar de formado em Técnico de Engenharia de Estúdio pelo Recording Workshop de Los Angeles, nos EUA. Suas lembranças musicais mais remotas datam de 1983, com a fervilhante passagem do Kiss pelo Brasil e da alta popularidade do Queen no país. Fã(nático) por Mötley Crüe (de quem tem mais de 100 CDs), segue de perto também o trabalho de Slayer, Krisiun, Guns N´ Roses, Van Halen e Ozzy Osbourne, entre outros.

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