Povo compra, mas não ouve: fim da moda do vinil pode estar perto
Por Nacho Belgrande
Fonte: Playa Del Nacho
Postado em 12 de agosto de 2015
Um quarto dos jovens que compram discos de vinil nunca os ouve, diz uma pesquisa feita entre fãs ingleses em 2015.
Alguns de nós pode tomar isso como pilhéria ou um comportamento pretensioso, mas o futuro do vinil pode estar em sua habilidade em achar pontos de venda que transcendam sua função básica de formato musical.
Tendo perdido há muito a batalha do custo e conveniência para formatos rivais, o vinil, ainda assim, está desfrutando de seu revival mais prolongado desde a introdução do CD.
As vendas têm subido agudamente desde 2007, com um pico de 54% em 2014 – impulsionadas por cifras contabilizadas nos EUA, Reino Unido e Alemanha; ainda assim, o total de vendas é pífio se comparado ao montante total de venda de produtos musicais.
A varejista independente bretã Rough Trade tem tipificado as fortunas frívolas da mídia. A empresa cresceu na era dourada dos anos 80 com uma gravadora que contratava astros de renome mundial como os Smiths e uma famosa loja em Londres, onde artistas do primeiro escalão como o Talking Heads tocavam, o que levou a uma rede de distribuição global e novas lojas de Paris a Tóquio.
O império encolheu dramaticamente à medida que novos formatos surgiam. A rede de distribuição pediu falência em 1991, e as lojas fora do país fecharam.
Mas, após ter sido reinaugurada em 2007, a Rough Trade está indo muito bem novamente. A gravadora está contratando grandes nomes, e novas lojas têm sido abertas no Reino Unido e em NYC, sendo que esta última em um local enorme que se tornou a maior loja de discos da cidade, isso tudo em uma época na qual várias empresas do ramo, mesmo as solidificadas, estão fechando.
A manobra audaciosa se sustenta em prover um ‘terceiro lugar’ entre a casa e o trabalho, diz o coproprietário Stephen Godfroy, que outros formatos não teriam como oferecer.
"Esse era o papel original da loja de discos", diz Godfroy. "Ser mais do que um ponto de compras… um lugar de congregação para mentes criativas e independentes, um lugar que recompensasse a curiosidade com descobertas, apelando a todas as idades e gostos na música. "
O crescimento tem sido sustentado pelo preço decadente da música, acredita Godfroy.
"Nos últimos cinco anos, temos visto uma ressurgência particular graças ao acesso barato à música como se ela fosse um serviço público, e as gerações mais jovens estão descobrindo os méritos do vinil pela primeira vez.
"Acessar música tornou-se virtualmente gratuito. Isso aliviou o valor derivado de possuir um artefato musical gravado, dos quais o vinil é o mais atraente. As gerações mais jovens, e atentas a formatos ouvem música em vários formatos e aparelhos, mas cada vez mais optam por investir em vinil quando se trata de suas gravações mais queridas, dado o valor sensorial único que o vinil tem. "
A Rough Trade tem procurado ampliar seu apelo através de parcerias comerciais amplas, mas cuidadosamente escolhidas, e suas lojas também abrem espaço para livros, bicicletas e até produtos para a pele.
"Temos sido mais ousados quando se trata de redefinir o que uma loja de discos pode ser", diz Godfroy.
Mas o fim do vinil se avizinha?
A verdade é que o produto central disso tudo está sendo cada vez mais ameaçado por limitações logísticas. A produção de vinil depende de equipamento que não tem sido modernizado desde a era áurea e mão de obra capacitada é ínfima.
Há cerca de doze prensas de vinil nos EUA e um punhado na Europa, e elas têm que atender a toda a indústria, e à medida que a demanda cresce, os prazos de entrega podem levar meses.
Apenas duas empresas no mundo todo produzem o verniz necessário para masterizar um LP, uma das quais é mantida por um único homem no Japão. Quando sua empresa foi afetada pelo tsunami de 2011, a indústria também o foi.
"Todo o setor é baseado em maquinário e tecnologias de 50 anos", diz Raik Hölzel, chefe do departamento de mídias sociais da Handle With Care, um fabricante de mídias de Berlin que se especializa em vinil. "A solução é investir no desenvolvimento de novas máquinas, mas não há tanto dinheiro no ramo para encorajar os agentes globais a investir nisso. Todo mundo está esperando ver como é que o mercado se desenvolve – 2015 pode ser o fim dessa euforia do vinil. Por enquanto, máquinas velhas significam mais lucros. "
As vendas sobre, mas estão mais espalhadas, com pedidos menores, diz Holzel, que encorajado pela proliferação do vinil em gêneros novos. A Orquestra Filarmônica de Berlin é um cliente novo. As vendas internacionais também têm sido fortes, e Holzel cita parcerias valiosas com selos do Reino Unido.
Um modo de compensar os problemas no volume tem sido variar o produto e lançamentos com novidades estão em ascensão – como capas elaboradas e vinis coloridos. Os fabricantes também recebem pedidos de variações bizarras, como LPs prensados em café, sangue e cinzas de crematórios.
"Esses detalhes são importantes agora, vemos muito mais edições limitadas", diz Holzel. "É importante para os reais entusiastas ter algo especial…. tentamos fazer lançamentos bem únicos."
Dado o custo relativamente alto do vinil e o tempo exigido para se manter uma coleção, seu futuro poderia ser um nicho de luxo, acredita Dominik Bartmanski, um sociólogo na Universidade Técnica de Berlin, e autor de "Vinyl: The Analogue Records In The Digital Age. "
"O vinil não tem como reconquistar o mercado mainstream, mas pode se manter como uma mídia relevante", ele diz.
"A música digital é incontestavelmente muito prática, e agora é um padrão, e, portanto, rotina no modo de consumir música no cotidiano. A música analógica exige atenção ritualizada mais elaborada. É rotina versus ritual.
"O vinil tem um potencial por ser um meio ‘ritualístico’ melhor… você não quer baixar seu prato favorito, você vai a um bom restaurante para saborear aquela comida. Certas experiências não são baixáveis ou possíveis de serem salvas em um HD."
Se a moda dos vinis continuar, a indústria pode precisar de conhecedores, mais do que de consumidores.
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