Resenha - Some Kind of Monster - Metallica

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Resenha - Some Kind of Monster - Metallica


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Em um determinado episódio da série de desenhos The Simpsons, os personagens participavam de um concurso chamado How Low You Can Go, algo como "Quão baixo você pode ir". Não era uma exibição do melhor de cada um, mas do seu pior, do mais grotesco que cada pessoa podia fazer. Com Some Kind of Monster, o Metallica dá uma credencial de backstage para o público, mas também revela ser uma banda heavy metal nos níveis psicológico e pessoal.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Publicado originalmente no site
Final Cut (http://finalcut.zip.net)

O período abordado pelo documentário - da saída de Jason Newsted até os primeiros shows de lançamento de St. Anger - é o mais sombrio da carreira do grupo, mais delicado inclusive que a morte de Cliff Burton em 1986. Se lá era o auge do Alcoholica, observamos o nascimento do PsicologA. Toda a tensão acumulada em anos de estrada, bebida e música explode quando o processo de composição muda. Saem as letras de James Hetfield e entram versos produzidos coletivamente. É o estopim que quebra mais ainda a banda por dentro e o documentário capta a cena da explosão maior: Jaymz sai do estúdio, bate a porta e vai parar em uma clínica de reabilitação por longos meses.

Com um dos cérebros da banda desconectado do mundo, resta a Lars Ulrich e Kirk Hammett pensar não só o Metallica, mas também as suas vidas. Se Kirk está tranqüilo - e muitas vezes diz que as coisas vão acontecer, os problemas serão solucionados, numa visão um pouco Poliana versão metal -, Lars sofre as conseqüências da sua postura de rockstar... as críticas por investir em arte, a dor de ver Jason Newsted tocar e pagar para ter todo o staff de roadies do Metallica para o desconhecido Echobrain enquanto o Metallica não tem rumo e, principalmente, todo o eco do caso Napster. Esse episódio poderia ser melhor abordado, mas o documentário arrisca e até mostra o clássico cartoon "Money Good, Napster Bad". É o retrato perfeito de uma banda de metal rachada, tão rachada que até os fãs começam a abandonar.

A figura do psiquiatra Phil Towle revela a sua importância na volta de Hetfield. Peça-chave para a gravação do disco, ao passo que serve para conduzir e evitar novos atritos entre a banda, deixa-se levar pelo ritmo e chega a ser alvo de piadas sobre a sua presença nas gravações. Como diz Nietzsche, quando você olha muito pro abismo, o abismo olha pra você. Além disso, o eterno líder do Alcoholica admite que a presença de Phil foi como ter um novo pai na sua vida. E, mesmo que seja uma propaganda de bom moço, ver uma pessoa trocar a caça de ursos na Rússia por mais tempo com a sua família já é uma atitude louvável.

Em vários momentos, Lars e James criticam toda a fama, todo mainstream agregado ao Metallica nos últimos anos. Também pudera, não é fácil ser líder no metal, líder no rock em si, ter baladas tocando em rádios românticas e ainda tentar seguir o seu fluxo natural de criação. O fardo da fama pesou nos ombros e a própria saída de Jason revela isso no começo do documentário. Quando alguém tenta respirar fora do grupo os outros naturalmente o criticam - sendo que a postura despojada de Jason é o sonho dos que ficaram.

Bob Rock, alvo de boa parte das críticas pós-black álbum, aparece como um produtor/amigo de Lars, que sabe o que deve fazer para continuar com a banda. Cada vez mais, aparece como um membro "não- oficial" da banda, situação que não é do agrado de Hetfield. Fica no ar a pergunta "será que a presença de Bob Rock faz bem pro Metallica?".

O barco vira quando a banda entra em sintonia, quando os egos - brilhante a cena sobre os solos de guitarra - entendem que só vai existir Metallica se houver tolerância e, principalmente, capacidade de reconhecer e dar o braço a torcer. James consegue uma proeza, que é aceitar que outros escrevam letras - mesmo que elas fiquem uma bela coleção de fucks. A letra de Sweet Amber não só mostra que a banda não gosta de algumas coisas do estrelato, mas ainda mantém um pouco do sarcasmo de outrora.

Essa virada de jogo chega ao auge na escolha do novo baixista. Se o clima parece não fluir na sessão com os fãs, a motivação por encontrar alguém para preencher o posto que Bob Rock esquentou dá fôlego para o trio. É nítida a superioridade de Robert Trujillo na disputa com os outros. Os candidatos todos tinham os seus méritos, mas o "ogro" do Suicidal Tendencies encaixa fácil na trupe, pena que Battery não aparece na íntegra. Ele ainda mantém a força no baixo, pois mesmo o saudoso Cliff Burton e Jason eram os mais elétricos no palco.

Outros pontos interessantes da jornada são as referências aos atritos presentes no passado, em um interessante resgate das gravações do Black Album. A cena faz você ter vontade de rever A Year and a Half in a Life of Metallica, outro bom vídeo da banda. Some Kind of Monster também prova que o Metallica, seja fazendo marketing ou descargo de consciência, sabe fazer vídeos (não falo de clipes). Live Sh*t, Cunning Stunts e S&M acompanham bem esse fluxo.

Mas o melhor momento do filme é protagonizado por Dave Mustaine. Outrora alcoólatra, foi expulso da banda em 1982 e montou o Megadeth por vingança e recalque. O sentimento, que já fora mostrado no especial do Megadeth para o canal norte-americano VH1 e lançado em DVD por aqui com o nome do programa (Behind the Music), faz com que o bad boy revele ser um cordeiro que até hoje reclama estar fora do rebanho, a eterna mágoa de estar fora do clubinho. O desejo de voltar ao passado e receber um convite para o Alcoólicos Anônimos e não a expulsão da banda, junto da frase de novela "você não sabe o que eu passei nestes anos", coloca Mustaine no seu devido posto de falastrão do metal.

Some Kind of Monster é um grande ajuste de contas do Metallica com seus fãs. Talvez mais interessante para quem conhece o som, é um belo documentário sobre como os rockstars ficam velhos e reagem às pressões do meio. É preciso estar com a cabeça aberta para ver e também pensar sobre todo o "mondo Metallico". Se o Spinal Tap (e o Massacration também, de um jeito brasileiro) é a piada do metal - não compreendida por todos -, o filme é o oposto, o mais denso drama do gênero musical. Basta ver a cena de Lars gritando FUCK na cara de James para ver o clima de chuvas e trovoadas entre eles. Mais de 1200 horas de gravação por mais de um ano afastam esse vídeo de outras produções como The Osbournes.

Chamado por alguns de PsicologA, a obra dá novos tons ao turbulento St. Anger, mas ainda não o salva da nota 7 e da bateria à la tambor de lixo. As quase duas horas de filme mostram que fazer este CD foi uma prova de fogo para a banda. Quem olha e ainda acredita na banda fica com uma esperança de dias melhores, que contagia até quem pelo menos espera alguma música decente do quarteto. Sobreviver após este inferno indica que o Metallica tem mais força do que imagina, basta apenas voltar a pensar como seres que erram e que precisam aceitar os outros para continuar em frente. Olhe a banda rindo do comercial para a rádio e tire as suas conclusões. Pessoalmente, acho que ainda há música pela frente.

O ponto negativo fica na abordagem um pouco branda de Kirk e, principalmente Lars. James ganha o status de bebum oficial do grupo, ofuscando boa parte da fama dos outros amigos - que também já enfrentaram problemas semelhantes. As drogas fazem parte do universo rock and roll e talvez faltou à dupla Joe Berlinger e Bruce Sinofsky mexer mais nesse ponto. Apesar disso, o saldo é altamente positivo, pena que não passou nos cinemas por aqui.

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