Uma pala sobre Dazed & Confused

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Uma pala sobre Dazed & Confused

Por Guilherme Rodrigues

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Uma pala sobre Dazed & Confused, um despretensioso filme dos anos 90 que acabou alçado ao status de cult, detonando toda uma onda revival da década de 70 e sendo influência para os criadores da série That ‘70s Show e até para Cameron Crowe e seu Quase Famosos.

"Agora que você tem dezoito, o que vai fazer da vida?
Eu, eu, er... eu sei lá!"
(Ou A lógica da gloriosa imbecilidade)

Entrando no assunto

Algum tempo atrás, visitando um site que conheço e que também trata de rock (wwww.roquenrou.com.br), topei com uma pesquisa sobre o melhor filme de rock ou que tivesse rock na trilha sonora. Tive vontade de participar, mas não conseguia reduzir minha lista de filmes favoritos a menos de vinte. Ficaria um lance desproporcional indicar vinte filmes, então deixei para lá. Daí, aproveitando a lembrança de tantos filmes legais, decidi rever alguns, assim como ver também outros que a galera indicou na tal pesquisa. Depois de algumas semanas em meio a muitas emoções baratas e a DVD’s e VHS amontoados na sala de estar, acabei chegando a uma lista reduzida: os meus cinco filmes indispensáveis! Cinco filmes absolutos! (apesar dessa coisa de top five, Alta Fidelidade não figura na lista dos cinco, embora entre na dos vinte). Mas aí muito tempo tinha se passado e a tal pesquisa havia caducado. Então, me propus a escrever alguma coisa sobre cada um desses cinco filmes. Para começar, escolhi falar sobre o menos conhecido dos cinco (especialmente aqui no Brasil, onde o mesmo não figura nem na lista de filmes relacionada pelos escribas do whiplash.net). Arranjei mais tempo, vi o filme mais umas três vezes (a fita já tá capenga, de tanto uso), busquei alguma informação na internet e desci a lenha no teclado. É essa matéria que apresento agora.

Videocassete: eternizando o Corujão em VHS

Há uns dez anos atrás, eu ainda morava com meus pais e lá em casa não tinha TV a cabo. Eu quase sempre chegava das baladas pelas três ou quatro da matina e ia correndo futucar a geladeira em busca de redenção para o estômago. Depois de providenciar algum comestível, ligava a televisão, acendia o último cigarro (parece que foi ontem, mas naquele tempo o Ministério da Saúde ainda nem informava que fumar dava câncer, hemorróidas, esclerose múltipla, essas coisas...), abria a última latinha e se tivesse alguma sorte pegaria um clássico passando no Corujão. Às vezes, antes de sair, eu me informava sobre os filmes que iam passar na madrugada e deixava o videocassete programado para gravar o que eu queria... encurtando a estória, acabei vendo muita coisa boa nesse esquema... Operação França, Corrida Contra o Destino, Mais Forte que a Vingança, Amargo Pesadelo, O Enigma de Andrômeda, Fantasma do Paraíso, Hair, dentre outros marcos do cinema... foi assim que vi também Dazed & Confused...

Cartaz original do filme, 1993

Dando Play

Fade up: um Pontiac GTO, 1970, serpenteando supercool pelo pátio ensolarado da Lee High School, Austin, Texas. Um baixo anuncia Sweet Emotion como companheira mais-que-perfeita da imagem e em letras grandes na parte inferior da tela surge o título: “Dazed and Confused” (o locutor brasileiro anuncia com seriedade risível o título em português: “Jovens, Loucos e Rebeldes”)... enquanto rolam os créditos, tomadas entrecortadas mostram alunos correndo em busca de suas salas, mas também alguns simplesmente jogando conversa fora, dando uns tapas na famosa bituca e morrendo de rir, enquanto Steven Tyler dá o resumo da estória de uns e outros:

You Talk about things and nobody cares/ You're wearing other things that nobody wears/ You're calling my name but you gotta make clear/ I can't say baby where I'll be in a year...

Corte rápido para os corredores da escola, no centro da tela, em letras sem destaque: “último dia de aula, 28 de maio de 1976, 1:05 da tarde”.... novo corte para o pátio, onde saltam do Pontiac quatro figuras: Randall “Pink” Floyd (Jason London), Kevin Pickford e suas respectivas gatas, Simone (Joey Lauren Adams) e Michelle (Milla Jovovitch)... ainda no pátio, Pink se despede de Simone, combinando talvez se verem na festa que vai rolar à noite, provavelmente na casa do Pickford... Pickford e Michelle seguem com Pink (só mesmo nos anos 70 para um apelido como “Pink” não ter conotação sexual)... os três sabem que estão atrasados para as aulas, mas isso parece não ter a menor importância, senhores que são dos corredores já esvaziados de alunos... caminham até o final do corredor e avistam no bebedouro uma peça rara tomando água como quem toma uma birita forte... Pickford o reconhece imediatamente: Slater, meu camarada... Slater (Rory Cochrane) usa boina e camiseta marrom com um trevo canábico desenhado no plexo... ele é o stoner do filme, aquele que só não está chapado quando acorda... testemunha o diálogo um Abraham Lincoln desenhado na parede com os olhos propositalmente raiados de vermelho (Slater teria feito aquilo com o batom da Michelle, entre gargalhadas... Abe’s high, man... cool Abe, cool Abe...). Eles combinam de se encontrarem mais tarde, na festa do Pickford... cabe a Pickford, aliás, entre uma e outra ondulação imaginária pelas paredes, dizer a primeira de uma série de frases-piada definitivas que existem no filme: “fumando” quinze horas por dia... depois voltam pelo corredor em direção às salas de aula, onde encontram Mike (Adam Goldberg), Tony e Cynthia (Marissa Ribisi) conversando sobre o que farão à noite... eles são os geeks da estória, inconformados que o seu maior trunfo, a inteligência, seja um atributo tão pouco valorizado em meio a atletas, doidões e estúpidos rituais de trote para calouros... fica acertado que eles três também irão à festa do Pickford, afinal a vida não é feita somente de conjecturas e nada como uma boa e valiosa experiência visceral para reavivar o lado animal que ainda existe em algum canto deles, embora nenhum dos três acredite realmente nisso... (depois que Pink e Cynthia entram na sala de aula, Tony acaba contando para Mike o sonho erótico que havia tido na noite anterior e que faria até Freud cair na gargalhada)... Pickford e Michelle se despedem de Pink, que entra e encontra Jodi e Shavonne, as gatinhas da escola, discutindo os simbolismos que existem em “A ilha de Gilligan” (um seriado popular nos EUA nas décadas de 60/70)... Pink as convida para também irem à festa do Pickford... ainda dentro da sala, Pink é procurado por Dawson, seu colega no time de futebol americano da escola... Dawson diz a Pink que o treinador do time está exigindo que todos os atletas assinem uma declaração se comprometendo a não chaparem com nenhum tipo de droga (entenda-se: álcool, fumarentos e barbitúricos em geral) e nem tomarem qualquer atitude que prejudique ao time ou à escola até o final da temporada... (até onde chegaria a paranóia na America: hoje em dia qualquer empresa submete seus empregados a inconstitucionais exames sobre o consumo de drogas, sem nenhum questionamento ou polêmica).... Entrega um papelzinho com o modelo de declaração para que Pink, o quarter back do time, assine... ele, cabreiro, guarda o papel no bolso, sem assiná-lo...talvez mais tarde ele até assine, mas fica ressentido com aquele autoritarismo... Terminada a aula, Dawson e Pink vão ao encontro de Benny (Cole Hauser), outro colega de time, que está na aula de carpintaria dando polimento numa espécie de ripa... essa ripa não será usada em nenhum jogo e sim na iniciação dos “calouros” (um ritual quase sexual de espancamento das traseiras dos novatos).... os três morrem de rir, antecipando a agonia dos moleques durante o “trote”... as risadas chamam a atenção de Jodi, que topa com eles no corredor e saca sobre o que falavam e riam... ela pede que tenham cuidado quando fossem bater no seu irmão, o calouro Mitch Kramer (Wiley Wiggins), ele era muito “magrelo”... os três garantem a Jodi que tomarão cuidado com Mitch, secretamente sabendo que baterão em dose dupla no moleque por causa daquele pedido... os três saem para o pátio, onde encontram Melvin e O’Bannion (um irreconhecível Ben Affleck, em - pasme! - ótima atuação). O’Bannion ficou reprovado no último ano e anseia descarregar toda sua frustração e fúria nos traseiros dos calouros pelo segundo ano consecutivo (o trote só podia ser “ministrado” nos novatos pelos veteranos do último ano). O pavilhão onde ficam as salas de aula dos novatos era do outro lado da escola e como a campainha ia tocar em menos de cinco minutos eles decidem ir de carro para chegar a tempo do estouro da calourada. A caminhonete de Benny estava por ali, eles sobem na carroceria e partem para as aventuras do dia definitivo em sua teenage wasteland....

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Acima: o quase irreconhecível Ben Affleck encarna à perfeição o babaca O’Bannion e tem seu momento de glória “iniciando” o calouro Mitch Kramer – à direita)

Contracapa da fita

Todos os personagens que se espera ver num filme teen estão aí: os caras legais com as gatas e os carros mais cool, os doidões, os CDF’s, os atletas, os babacas, as gatinhas, os calouros, os losers e, claro, o Rock & Roll...

O tema “adolescência” e esses personagens já renderam poucos filmes bons e muitos ruins nas mãos de outros diretores. Quem não se lembra dos famosos e engraçados filmes teen dos anos 80, que tinham Patrick Dempsey e Anthony Michael Hall como protagonistas (“Gatinhas e gatões”, “Mulher Nota Mil” e “Namorada de aluguel”)? Dignos de menção também “Um Verão Muito Louco” (com o imberbe John Cusack sob o comando de um dos melhores diretores do gênero, Savage Steve Holland), “Picardias estudantis” (primeiro trabalho de algum destaque de Sean Penn e do então roteirista Cameron Crowe) e “Curtindo a vida adoidado” (com um impagável Matthew Broderick sob a direção de John Hughes, então o grande artífice do cinema teen). Estes dois últimos foram filmes legais e engraçados, com alguma significância e algo mais que uma visão imbecilizante da juventude, onde todos os personagens ou são idiotas demais ou dramáticos demais; onde quase tudo gira em torno de um nerd qualquer perder a virgindade ou dos absolutamente “bonzinhos” tendo a vitória final sobre os absolutamente “mauzões” (embora eu morra de rir com as bobagens de A Vingança dos Nerds e Porky’s). Os exemplares do cinema teen em sua maioria, contudo, são uma lástima, e infelizmente os últimos representantes do gênero não fazem muito para melhorar a situação, retratando absurdas situações em que até sexo e tortas fazem parte (ativamente) da mesma tomada... sem comentários...

Dazed & Confused (filmado e lançado em 1993) é um filme que passa longe da leviandade com que o tema “adolescência” costumeiramente é tratado em Hollywood, sem cair no dramalhão ou no politicamente correto. “Talvez eu não seja um cara dramático, sei lá, mas me lembro de uma completa ausência de grandes acontecimentos durante minha adolescência na escola. A essência de ser adolescente para mim tinha mais a ver com energia e rock & roll. Não havia grandes estórias de amor, nenhuma gravidez indesejada, nada desse tipo. Éramos só um bando de garotos rodando à noite pela cidade em nossos carros, procurando festas, birita e mulheres, com a fita de Fandango, do ZZ Top, rolando ininterruptamente no toca-fitas”, relembra o diretor Richard Linklater.

O diretor Richard Linklater no set de filmagens
Linklater, diretor norte-americano que trafega confortável entre a cena independente e o cinemão (ele esteve em cartaz há pouco tempo, aliás, com “Escola de Rock”), já tinha feito “Slackers”, filme experimental que mostrava jovens dos anos 90 curtindo seus vinte e poucos anos, suas angústias e suas vidas sem perspectiva... Richard sempre curtiu esse tema, as angústias que atormentam a vida da gente até em geral meados dos 30 anos... necessidade de aceitação pelo grupo, auto-afirmação perante os pais, escolha e definição de um caminho profissional, dividir satisfatoriamente o tempo entre a seriedade dos estudos e a curtição do rock & roll, descolar amigos e alguém legal pra partilhar a vida, enfim... Linklater juntou a pouca grana que havia conseguido com “Slackers” e conseguiu convencer dois produtores de Hollywood, Jim Jacks e Sean Daniel (“Arizona Nunca Mais” e “Tombstone”), de que seu projeto de filme teen era viável. Haveria público nos cínicos anos 90 para assistir um filme sobre adolescentes fumando “mãe natureza” o tempo todo, ouvindo Rock & Roll nos toca-fitas de seus muscle cars, espancando calouros e festejando o último dia de um ano letivo numa pequena cidade do Texas dos anos 70? Em tese não, mas os dois produtores conseguiram persuadir a Universal Studios com o argumento de que o filme seria o retrato da geração do anos 70 da mesma maneira que “American Graffiti” (filme de George Lucas, 1973, para a mesma Universal) havia sido para a geração dos anos 60. O estúdio topou a empreitada e estabeleceu meio a contragosto um orçamento de U$ 6.9 milhões para o filme - uma fortuna para Richard, que fizera “Slackers” com apenas 23 mil doláres.

Mike e Tony, os intelectoboys da estória, questionando os ridículos rituais juvenis de iniciação dos calouros...
Linklater sabia que sua trama não seria o convencional início-meio-e-fim dos filmes hollywoodianos... A ação básica se daria no último dia de aula antes das férias de verão de 1976, ano do bicentenário da declaração de independência dos EUA... sua idéia era captar toda a excitação e euforia que rolava nesse dia (a cena em que uma campainha anuncia o fim das aulas e início das férias, com Alice Cooper berrando School’s Out na trilha incidental, é tão libertária quanto universal), mas também toda a ansiedade que já rondava alguns personagens (os formandos) às portas da vida adulta, responsabilidade, trabalhar, pagar contas, ir ou não pra faculdade, blá-blá-blá... captar um dia na existência de uma galera num momento decisivo de suas vidas, e como se sabe a vida não tem um roteiro convencional... o fio condutor da estória seria os meninos e meninas andando em seus muscle cars, conversando na escola, nas lanchonetes, aplicando o trote nos calouros e calouras, dançando nos bailinhos, paquerando nos postos de gasolina, fumando quinze horas por dia e finalmente deixando cair na “farra de cerveja” que seria a coroação da noite, tudo devidamente colorido com fartas doses de rock... Richard também optou pela ausência de um protagonista... o filme é um desfile de personagens que são apresentados ao espectador numa série de diálogos rápidos, que parecem mais vinhetas de insano humor e personalidade. Juventude condensada??? Não é lugar para cinismo barato... são exatamente esses diálogos rápidos e o ritmo imprimido que dão graça e sobretudo verossimilhança ao filme.... quem faz muito sentido aos 16, 17 anos?

Dada a ausência de um roteiro estruturado, Linklater sabia que a escolha dos atores “certos” seria decisiva para o sucesso artístico do filme. Seriam eles que dariam alma, carne e ossos ao filme. Foi chamado então Don Phillips para escolher o elenco. O lendário diretor de casting estava aposentado (Don tinha escolhido e montado o elenco de marcos do cinema como Um Dia de Cão, por exemplo), mas aceitaria o convite com uma condição: teria liberdade absoluta para escolher um elenco composto somente por atores e atrizes desconhecidos do grande público (como fizera no filme Picardias Estudantis). Linklater vibrou com a exigência de Don, já que a Universal vinha exercendo pressão para que ele colocasse Brendan Fraser no papel de Randall “Pink” Floyd... Richard não enxergava no bom moço Fraser a multifacetada personalidade que faria de Pink o personagem harmonizador do filme, aquele que seria a ponte entre os nerds e os atletas; entre os calouros e as gatinhas; entre o velho e o novo. (Don acabou escolhendo um elenco que revelaria alguns nomes posteriormente bastante conhecidos, como o já citado Affleck, Milla Jovovitch e Matthew McConaughey)...

Desconstruindo Dazed & Confused

Levando tudo que se falou aí para trás em consideração, seria apenas mais um filme teen com um elenco desconhecido do grande público; seria apenas mais um exercício em busca de estilo por parte de um diretor novato na indústria; seria apenas mais um filme que ninguém se lembraria depois de ocasionalmente vê-lo... a gente poderia elencar uma série de outros “seria”, mas Dazed & Confused é feito com a matéria-prima dos mitos, aquela intangível qualidade que torna alguns filmes universais e eternos.

Há muitas coisas legais a se destacar sobre o filme.

A primeira é que Linklater não embutiu em seus personagens aquelas personalidades unidimensionais, estáticas, tão fundamente estereotipadas que não se consegue entrever nem a mais remota possibilidade de evolução. Nem poderia ser assim. Segundo o próprio diretor, o filme é autobiográfico e construir personagens imutavelmente estúpidos teria sido uma confissão de fé... ou seja, os personagens têm sim a lógica da gloriosa imbecilidade respeitada (quem nunca foi abobalhado aos 15, 16 anos, que atire a primeira pedra!), mas também fica claro que essa “postura” é natural da adolescência, uma maneira de encarar o período em que se começa a descobrir as pressões que virão na chamada “vida adulta” (e enxergar que não tem mesmo muita lógica em querer “virar gente grande”) ... Linklater não traz julgamentos definitivos... por mais losers que sejam alguns dos personagens, eles são mostrados com simpatia insuspeita do diretor, que dá a eles a possibilidade de redenção de suas vidas miseráveis.

Matthew McConaughey como o hilário Wooderson
O loser mais legal é Wooderson, personagem que surge mais adiante no filme, vivido por Matthew McConaughey; um cara de vinte e alguns que insiste em andar com a garotada porque sente que seu auge pessoal foi aos quinze, dezesseis anos. Wooderson, em cena antológica, destila a seguinte pérola sexista: “É isso que eu amo nas gatinhas da escola: eu fico velho, elas sempre têm quinze aninhos...” huauhauhahuahuauha... Quem está acostumado a ver McConaughey nos papéis de galã trá-lá-lá de “Contato”, “EdTV” ou “Tempo de Matar”, terá uma grata surpresa com sua atuação como o figuraça Wooderson.

A segunda, é a ausência daquele pastiche melodramático, aquele discurso pronto sobre “o que é a adolescência”, onde tudo é problema e rejeição. A intenção de Linklater era construir personagens da maneira mais fiel à realidade de sua adolescência, sem os filtros suavizadores de memória que inevitavelmente vêm com a meia-idade; ou seja, não fazer um filme de adolescentes sob a ótica de um “adulto”. Foi particularmente feliz na consecução da idéia, porque os personagens são retratados de maneira despojada, e ainda que eles tenham suas preocupações, dúvidas e ansiedades, isso não toma a frente do desejo de curtir a idade e seus acontecimentos, ou seja, nada que rock & roll all nite and party everyday não ajudem a melhorar... não espere ver também a mensagem “não fume maconha, você ficará brocha e burro, ou vice-versa” (hehe), tão comum nos filmes do início dos ‘90s... alguns personagens realmente queimam tudo até a última ponta, mas em nenhum momento o filme assume ares de apologia às drogas ou faz do consumo um lance gratuito ou vulgar... em 1976, fumar maconha já tinha alcançado o status de “costume”, já estava tão inserido na cultura jovem, que fazer um filme da época sem retratar isso seria o mesmo que mostrar os anos 90 sem computadores e internet (e convenhamos, para quem tinha de usar aqueles cabelinhos escorridos partidos no meio e aquelas calças boca-de-sino, dar uns tapas era até compreensível)... então, que o esquadrão anti-drogas não se preocupe, nada é escancarado em Dazed. Não se verá baseados a toda hora, nem moleques chafurdando na decadência... Linklater não é um leviano qualquer e sabe que boas doses de “sugestão” acabam tendo mais efeito que simples imagens....

Slater, Pink e Dawson fumando quinze horas por dia...
Outro elemento fundamental do filme é a trilha sonora. Linklater se lembra: “eu acho que a música exerce um papel tão importante quando se tem 14, 15 anos, que extrapola conceituações intelectuais. É como se ela fosse um colega que a gente tem todas as horas. Eu lembro que costumava me identificar com quem curtia o mesmo som que eu. Eu achava que a música que eu ouvia era um retrato da minha personalidade. No fundo, a música é como um grande amigo que te acompanha nos bons e maus momentos da adolescência mais do que em qualquer outra idade”. Explica-se então que Linklater tenha torrado boa parte do orçamento comprando os direitos de uso das canções no filme (só o direito de usar Sweet Emotion na abertura teria custado 24 mil doláres, mais do que o orçamento integral do filme anterior de Richard). Esse gasto fez rolar uma série de desentendimentos do diretor com a Universal. O estúdio queria que fossem contratados artistas contemporâneos para fazerem covers das canções que Linklater queria no filme. O diretor quase deu tilt geral com a sugestão do estúdio. Era um filme de época, portanto as canções originais eram insubstituíveis. Usar versões das canções seria jogar toda a autenticidade que se pretendia ver estampada no filme pela janela. A solução para o impasse foi Richard ter aberto mão dos seus direitos sobre a venda da trilha sonora, o que teria lhe rendido algo em torno de 30 milhões de dólares. Valeu a briga - e o prejuízo - de Richard, porque as canções são elementos fundamentais do filme, trafegando em meio à ação dos meninos e meninas, fornecendo “comentários” sutis sobre suas personalidades, além é claro de dar o contexto do que se ouvia na época. Rolam em momentos-chave do filme Alice Cooper, Aerosmith, Black Sabbath, Deep Purple, Ted Nugent, Black Oak Arkansas, Foghat, Kiss, Steve Miller Band, Lynyrd Skynyrd, Bob Dylan, Dr. John, Edgar Winter Group, Rick Derringer, Nazareth, Sweet, War, ZZ Top, The Runaways e, claro, Peter Frampton (em 1976, Frampton era unanimidade nacional, aliás mundial, e seu Frampton Comes Alive vendia horrores). Teria rolado a canção que dá nome ao filme (Dazed & Confused) e também Rock & Roll, ambas do Led Zeppelin, não fosse a impossível quantia de 200 mil dólares pedida pelos direitos de uso das mesmas.

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Acima: Mitch Kramer se recupera da primeira noitada de sua vida ao lado dos “caras legais” ao som de Slow Ride, do Foghat.

Mas se engana quem pensa que o filme é um veículo para aquela melancolia “ah-como-era-legal-aquele-tempo”.... Linklater não é daqueles caras nostálgicos, para quem tudo de bom aconteceu nos ‘70s e só nos ‘70s. Sua visão de ser adolescente nos anos 70 passa a léguas de ser idealizada ou revisionista. “O período que vai em média dos 13 aos 18 anos está entre os mais agonizantes de toda a nossa vida, embora depois de uns quinze anos a gente acabe se relembrando dele com uma nostalgia que tende a bloquear toda memória dolorosa... eu certamente me lembro de todos os momentos humilhantes...”, diz o diretor. Essa visão é materializada na boca de Pink, quando quase ao final do filme ele decreta: “Se esses são os melhores anos de minha vida, me lembre de me matar.” Então não espere ver um filme mostrando que ser adolescente nos anos 70 foi algo particularmente melhor que a adolescência de gerações passadas ou futuras.

No entanto, em arte “certas coisas” fogem ao controle dos criadores, e ainda que fique evidente que o diretor não era um saudosista, o fato de a produção ter conseguido reproduzir os “estilos” do período com detalhismo quase maníaco – passando por elementos subjetivos como a radical despolitização do jovem e o humor sexista/ingênuo até os já citados cabelinhos escorridos partidos ao meio, calças boca-de-sino arrochadas nas meninas e bigodinhos criminosos nos meninos - acabou criando um “pedaço” instantâneo de nostalgia. O filme acabaria influenciando desde os criadores da série “That ‘70s Show” - uma sitcom escancaradamente baseada em Dazed - até Cameron Crowe, que pegou confiança na idéia de que um filme autobiográfico sobre adolescência nos anos 70 não era tão absurda assim... Cameron, aliás, já disse repetida vez que um dos filmes que gostaria de ter feito é Dazed & Confused...

O que fica depois do stop

À parte a onda retrô gerada pelo filme, é exatamente essa visão despida de saudosismo de Linklater que tornou os personagens de Dazed & Confused universais e atemporais... cá entre nós: ir de uma sala a outra; de uma matéria a outra; de uma balada a outra; passar por alguns inevitáveis momentos humilhantes e vergonhosos; curtir um rock & roll com os amigos, chapando uma boa gelada (e, conforme as preferências, outras cositas más) na velocidade memorável da adolescência... será que a terra do nunca é tão diferente assim hoje em dia??? Sei lá, até deve ser, mas Black Dog continua queimando alguns fusíveis e os ingressos para o próximo show do Arrowsmith continuam esgotando rápido... got to go faster, man... got to go faster....

Se você é daqueles que torcem o nariz quando rola Show me the way nas rádios ou que só gostam de filmes “com mensagem”, ouvir Caetano Ternoso ou ver o último do Almodóvar são opções; mas se vez por outra passeia pela sua cabeça a lembrança de pequenos momentos mágicos, como a primeira noitada, o primeiro porre ou a primeira vez que Whole Lotta Love atingiu a corrente sangüínea, então Dazed & Confused é O FILME...

Coolt movie! J


Serviço: Dazed & Confused nunca foi lançado no Brasil, seja em cinemas, VHS ou DVD, sendo, portanto, bastante difícil encontrá-lo. O jeito é torcer para que a Globo ou uma TV a cabo qualquer reprise o filme para que se possa assisti-lo (e, no meu caso, gravá-lo novamente); ou então, para aqueles que sacam bem inglês (e tenham os dólares!), há a possibilidade de adquirir o DVD do filme, disponível apenas para a Região 1 (EUA e Canadá).

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