Rock, Memória e Emoção - Nenhum de Nós Encanta Jumirim/SP
Resenha - Nenhum de Nós (Motocross Fest, Jumirim, 20/09/2025)
Por Flávia Pais da Silva
Postado em 11 de outubro de 2025
No sábado, 20 de setembro de 2025, Jumirim/SP foi palco de um daqueles encontros musicais que ficam guardados na memória coletiva. O Motocross Fest, tradicional evento que reúne esporte, cultura e música, recebeu uma das formações mais emblemáticas do rock brasileiro: Nenhum de Nós. Criada em 1986, em Porto Alegre/RS, a banda consolidou-se como um dos grandes nomes do cenário nacional, carregando consigo não apenas o peso dos anos 80, mas também a longevidade de quem soube se reinventar sem perder a essência.

OS ANOS 80 E O SURGIMENTO DE UM CLÁSSICO
Muito já se falou sobre a efervescência musical da década de 1980. É inegável que o período ofereceu ao Brasil e ao mundo uma safra de artistas que marcaram gerações. Mas, pessoalmente, sempre considerei que 1986 foi ainda mais especial. E não digo isso apenas por ter nascido nesse ano, mas pelo fato de ter sido exatamente o momento em que Nenhum de Nós começou sua trajetória. Com uma sonoridade própria e letras que uniam poesia, crítica e emoção, o grupo logo conquistou espaço e, ao longo do tempo, construiu uma discografia repleta de canções que se transformaram em hinos.
O INÍCIO DO SHOW
O setlist preparado para o público de Jumirim foi uma verdadeira viagem pela história da banda. Abrindo com "Santa Felicidade", a atmosfera de celebração se instalou imediatamente. A música, com sua energia contagiante, serviu como convite para todos mergulharem na noite. Em seguida, "Amanhã ou Depois" e "Eu não Entendo" deram continuidade ao aquecimento, com melodias que alternavam entre o intimista e o expansivo, mostrando como a banda ainda se conecta com seus fãs de forma visceral.
CAMINHOS DE MEMÓRIA
"Eu Caminhava" e "Primeiros Erros" trouxeram uma sensação agridoce. A segunda, regravada com grande sucesso também por Capital Inicial, foi recebida com coros altos, como se cada palavra fosse uma lembrança compartilhada entre quem estava no palco e quem estava na plateia. Esse diálogo silencioso, mas profundamente sentido, é o que torna os shows do grupo momentos únicos.
LUZ E ESPERANÇA
Quando as primeiras notas de "Girassol" ecoaram, o público reagiu com entusiasmo. A metáfora da flor que busca o sol dialoga com a própria trajetória da banda, sempre em movimento, sempre em busca de novos horizontes. Em seguida, "Sobre o Tempo" adicionou uma camada de reflexão, lembrando que a vida é feita de instantes fugazes e que cada segundo deve ser vivido intensamente.
CLÁSSICOS REINVENTADOS
Curiosamente, "Diga a Ela" acabou sendo retirada do repertório, substituída mais tarde por outra faixa. Mas "Gita", releitura de Raul Seixas, tomou conta da cena e mostrou a versatilidade do grupo em homenagear ícones sem perder sua identidade. Outro momento marcante foi "Julho de 83", que acabou cedendo espaço para "Born to Be Wild", reforçando a sintonia entre banda e público em improvisos que apenas a experiência permite.
ENTRE LEMBRANÇAS E PROMESSAS
Na reta final, vieram "Você Vai Lembrar", "Vou Deixar" e a sempre impactante "Camila". Esta última, lançada ainda nos anos 80, permanece como um dos maiores sucessos do rock brasileiro. Sua interpretação em Jumirim foi acompanhada por milhares de vozes, provando que algumas histórias nunca perdem a força. Ao cantar "Camila, Camila", todos reviveram o impacto daquela letra visceral, que fala de dor, de identidade e de resistência.
ENCERRAMENTO EMOCIONANTE
O fechamento ficou por conta de "Paz e Amor" e "Astronauta". Essas duas canções, em especial, funcionaram como um abraço coletivo, uma mensagem clara de que a música pode, sim, transcender fronteiras, épocas e estilos. Foi um desfecho perfeito, unindo intensidade e ternura, exatamente como se espera de uma trajetória tão rica.
UMA HERANÇA RECHEADA DE INCRÍVEIS PREDICADOS
O show no Motocross Fest não foi apenas mais uma apresentação. Foi a reafirmação de um legado que atravessa décadas e permanece atual. Nenhum de Nós mostrou que continua a carregar o espírito dos anos 80, mas com a maturidade de quem viveu, aprendeu e transformou cada experiência em melodia. E para quem esteve em Jumirim naquela noite, ficou a sensação de ter participado de um encontro raro entre passado e presente, emoção e reflexão.
De maneira geral, os anos 80 foram, sem dúvida, incríveis para o rock. Já o ano de 1986, em particular, merece um lugar especial. Não é advogar em causa própria por ter nascido naquele ano, mas reconhecer que dali surgiram histórias como a do Nenhum de Nós, capazes de atravessar gerações com autenticidade.
E como diz um dos trechos mais belos da noite, em "Sobre o Tempo":
"O tempo passa e nem tudo fica, a obra inteira de uma vida, o que se move e o que nunca vai se mover, se mover".
Um lembrete de que instantes como o do último sábado devem ser vividos com intensidade, pois ficam gravados não apenas na memória, mas no coração de quem esteve presente. E eu estava!
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