Queremos!: resenha e fotos do festival no Rio de Janeiro

Resenha - Queremos! Festival (Marina da Glória, Rio de Janeiro, 15/06/2019)

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Por Gabriel von Borell
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Fotos: Daiana Carvalho

A segunda edição do Queremos! Festival foi realizada no último sábado (15), novamente na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, trazendo nomes em alta da música brasileira, além de artistas já consagrados por aqui e atrações internacionais.

Com público consideravelmente superior ao ano passado (dessa vez foram oito mil pessoas), o evento deu provas de que evoluiu e está maior, e melhor.

Bem organizado, quase tudo funcionou perfeitamente, tirando algumas poucas questões de logística e atendimento (principalmente no bar). No line-up, 12 atrações se dividiram entre dois palcos não simultâneos (o Rosa e o Amarelo) e empolgaram os presentes do início ao fim do festival, que mais uma vez se encerrou com 14 horas de música.

Sob a regência animada e competente do maestro Felipe Prazeres, a Petrobras Sinfônica foi responsável pela abertura do evento, às 14h50, 20 minutos após o horário previsto. O público começava a chegar aos poucos e a orquestra foi atraindo as pessoas ao executar clássicos do Queen que apareceram na oscarizada cinebiografia de Freddie Mercury e banda, "Bohemian Rhapsody" (2018).

Enquanto os excelentes músicos eruditos tocavam seus instrumentos, os fãs davam voz às composições, em uma parceria improvisada linda de ser ver. Não faltaram canções para se emocionar como "Love of my Life", "Radio Gaga", "Under Pressure" e a própria "Bohemian Rhapsody", claro, além das mais agitadas como "Another One Bites the Dust" e "We Will Rock You".

Formada por Macloys Aquino (guitarra), João Victor Santana (guitarra/sintetizadores), Aderson Maia (baixo), Ricardo Machado (bateria) e o vocal poderoso de Salma Jô, a banda goiana Carne Doce mostrou em seguida o porquê de ser considerada uma das melhores novas bandas de rock na cena nacional.

Com muita entrega no palco, e um pouco de atraso em função de problemas técnicos, o grupo apresentou canções dos álbuns "Princesa" (2016) e "Tônus" (2018). Entre as mais conhecidas estavam "Artemísia", "Falo", "Comida Amarga" e "Amor Distrai (Durin)".

Não era difícil ficar hipnotizado pela performance corporal de Salma em meio às batidas eletrizantes das faixas apresentadas. Pena que a Carne Doce não foi escalada para tocar mais tarde e assim atingir mais pessoas.

A catarinense Jade Baraldo foi a terceira atração do festival. Com apenas 20 anos e muita atitude, ela, que se destacou no The Voice Brasil 2016, surgiu no palco ao lado de dois bailarinos e colocou todo mundo para se mexer com seu pop dançante, que também mistura um pouco de indie, jazz e bossa nova.

Na reta final da apresentação, a cantora precisou pausar o show por alguns minutos devido à falhas técnicas, mas o imprevisto não abalou a dinâmica no palco. Jade apresentou canções que vão estar no seu primeiro álbum, com lançamento para breve, como "Brasa", "Nem o Mar (Pôde Levar") e "Vou Passar".

Tendo lançado seu disco de estreia, "Um Corpo no Mundo", em 2017, a baiana Luedji Luna fez seu show quando o sol começava a sumir e a lua ia tomando forma. Nesse momento, o público na Marina da Glória crescia em ritmo mais avançado. Além da faixa-título do CD, a cantora mostrou à plateia as canções "Eu sou uma árvore bonita", "Banho de folhas" e "Acalanto", esta com a plateia cantando alto.

Luedji foi a primeira a dar um tom mais político ao evento. Em "Saudações Malungo", por exemplo, ela fez um necessário discurso sobre o extermínio da população negra pelas mãos da polícia militar. "É preciso pedir para que as PMs parem de matar os negros", disse.

Já em "Notícias de Salvador", Luedji, que prepara uma turnê europeia, convidou todos os baianos para cantar e matar saudade da Bahia. Muita gente cantou junto.

Na sequência, às 18h20, o fenômeno do tecnobrega Duda Beat realizou, sem dúvidas, o show mais concorrido da noite. Isso porque ela cantou no palco Rosa, que, em relação ao Amarelo, tinha menos espaço para o público se posicionar.

Por isso, era tarefa árdua assistir à performance da artista mais de perto, sem ficar espremido em meio público. Mas ninguém se importava.

Os fãs se acabaram ao som das faixas do álbum de estreia de Duda, "Sinto Muito", lançado em 2018. Esbanjando simpatia e animação, a cantora, com seu figurino espalhafatoso, se movimentava de um lado para o outro do palco, dançando e interagindo com a plateia.

Foi desse jeito com "Bixinho", "Parece Pouco", "Derretendo" e "Egoísta".Teve ainda a versão forrozeira eletrônica para "High by the Beach", de Lana del Rey, que em português ganhou o nome de "Chapadinha", e uma cover de "Say You'll Be There", das Spice Girls, que animou até quem não estava ligado na apresentação.

"Comigo é assim, em uma música a gente chora, na outra a gente dança", afirmou a cantora. Como seu público é muito forte entre a comunidade LGBTQ+, Duda não deixou de criticar o governo Bolsonaro e a atuação de Sérgio Moro como ministro da justiça, causando fortes reações nos fãs.

"Esta foi a melhor plateia do ano", definiu Duda em determinado momento do show.

As 19h30, a canadense Allie X fez seu show no Palco Amarelo para uma plateia bem menor que a de Duda Beat (as duas deveriam ter trocado de palco), mas em compensação seus fãs fizeram muito barulho o tempo todo.

Com um collant bem cavado e sem meia calça, mesmo sem ter um corpo "padrãozinho" de popstar, a artista surgiu no palco e de cara provou que não está nem aí para as convenções. A voz potente da diva pop alternativa impressionava.

Allie, que também defende o movimento LGBTQ+, disparou um sucesso atrás do outro, como "Bitch", "Not So Bad in LA", "Paper Love", "Casanova", "Girl of the Year", "Little Things", "Good" e "Prime", enquanto os fãs acompanhavam em forte coro e gritavam "Allie, Allie, Allie".

Admirada, a moça disse: "Isso não existe nos Estados Unidos". No final das contas, o show dela terminou com quatro vezes o público do começo.

É possível também que o fato de Gal Costa ter vindo a seguir no Palco Rosa tenha prejudicado Allie. Pois muita gente visivelmente preferiu aguardar Gal com antecedência e esperar a chegada da veterana em um bom lugar. Marcado para 20h30, o show começou alguns minutos antes, com uma versão bem rock n' roll de "Dê um role", dos Novos Baianos.

Sob muitos aplausos, a baiana seguiu sua apresentação com diversos clássicos da MPB, como "Sua Estupidez", de Roberto Carlos, "As Curvas da Estrada de Santos", de Roberto e Erasmo Carlos, "London, London" e "Vaca Profana", de Caetano Veloso, "Volta", de Lupicínio Rodrigues, "O que é que Há", de Fábio Jr., "Que Pena (Ela Já Não Gosta Mais de Mim)", de Jorge Ben Jor, e "Chuva de Prata", de Ed Wilson.

A apresentação da turnê "A Pele do Futuro" também trouxe sucessos recentes do disco de 2018 lançado por Gal, como a blueszeira "Palavras no Corpo", "Sublime", "Minha Mãe" e "Cuidando de Longe". Entre uma música e outra, Gal trocava algumas poucas palavras com a plateia. Na maioria das vezes, agradecia a recepção calorosa e desejava bom festival a todos, o que bastava para o público reagir com vigor.

Versátil, depois de passar pelo rock, blues, bolero, disco music, Gal encerrou seu show em ritmo de arraiá com "Balancê" e "Festa no Interior". Bem apropriado para a data.

Depois do show cheio de disposição e energia dos oito irmãos de Chicago que compõem o talentoso grupo de jazz Hypnotic Brass Ensemble, era chegada a hora de Criolo enlouquecer o público. O rapper e sambista, em turnê com o álbum "Espiral de Ilusão" (2018), abriu a apresentação com "Boca de Lobo", fazendo os fãs de afirmarem.

Mais tarde, o artista, que estava bem agitado e parecia muito feliz em estar ali, cantou "Casa de Papelão", "Duas de Cinco", "Convoque seu Buda", "Grajauex" e "Não Existe Amor Em SP", entre vários outros hits. Conhecido por seu engajamento político e enfrentamento das mazelas sociais a que todos nós brasileiros somos obrigados a encarar, Criolo não decepcionou e manteve o tom de crítica a todo instante.

Por diversas vezes, ele repudiou os discursos de ódio que invadem nosso cotidiano dia após dia e ressaltou que somente o amor, em qualquer nível ou forma, pode vencer o preconceito e a maldade do mundo. Em resposta, os fãs puxavam o tradicional coro de "ei, Bolsonaro, vai tomar no c*".

O rapper disse ainda que a juventude presente é que pode mudar o que está acontecendo no país e transformar o futuro. Como ele versa em "Menino Mimado": "Foco, força e fé, já falou meu irmão. Meninos mimados não podem reger a nação. Eu não aceito essa indisciplina".

Quando o relógio já passava de 00h30, o aguardado Baco Exu do Blues estava prestes a subir ao palco. Antes disso, houve uma apresentação no telão, que mostrava dezenas de artistas e figuras públicas negros, como Marielle Franco, Jay-Z e Elza Soares.

A introdução de "Bluesman" anunciava a entrada de Diogo Moncorvo. Com duas backing vocals bastante participativas no show, Baco contagiou a plateia, que ele chama de "facção carinhosa", com hits como "Me Desculpa Jay-z", "Te Amo Desgraça" e "Flamingos".

Em "Abre Caminho", o rapper de 23 anos pediu para que todos abraçassem as pessoas que estavam ao seu lado. "Eu quero que todos aqui abracem a pessoa ao lado e pule com ela ao som dessa aqui ('Abre Caminho')", falou. "Aproveita que tá todo mundo filmando e vamos fazer isso entrar para o Guinness Book como "Mais pessoas se abraçando por metro quadrado", brincou Baco.

Antes de "Minotauro de Borges", o baiano pediu para que o público se separasse em dois lados da pista para que ele conseguisse enxergar um caminho entre a plateia. "Hoje me chamem de Moisés, porque abri esse mar de gente", disse, bem-humorado.

Foi então que Baco resolveu comentar também o cenário político do Brasil. "Eu odeio meu presidente!", bradou, talvez em função de recentes polêmicas. O público explodiu em gritos e palmas. Com show mais curto que algumas atrações principais que vieram antes, Baco mostrou que sabe comandar uma plateia e defendeu com garra o status de prestígio que seu nome carrega na música brasileira atual.

Com mais uma edição confirmada para 2020, o Queremos! Festival já se tornou uma relevante atração do calendário cultural carioca. Diante de seu crescimento, talvez seja até necessário trocar a exuberante Marina da Glória por um lugar maior, pois o local, agora, parece pequeno para o evento. E aí, qual artista você quer pedir para o ano que vem?



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Sobre Gabriel von Borell

Gabriel von Borell, nascido em 30/03/85, jornalista. Não vive sem música e também não se apega a rótulos musicais. Acredita que todo preconceito é burro, inclusive o musical. Escuta de tudo um pouco, considerando que um jornalista deve estar aberto pra conhecer e comentar sobre qualquer músico ou banda. Pode ser encontrado no Twitter em @gabrielborell.

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