Tom Morello largou mão do Yngwie Malmsteen para o Rage Against The Machine existir
Por Bruce William
Postado em 10 de março de 2026
Tom Morello virou um daqueles guitarristas que você reconhece em segundos, não porque toca "mais rápido" que todo mundo, mas porque parece estar tocando outro instrumento. Só que, antes de chegar nesse jeito de tocar que virou assinatura do Rage Against the Machine, ele passou por uma fase bem comum: a de tentar soar como quem ele admirava.
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E, pelo que ele contou em entrevista ao Guitar Interactive Magazine, essa referência tinha nome e sobrenome: Yngwie Malmsteen. Não no sentido de copiar nota por nota, mas naquele impulso de "quero ser o cara do shred", o guitarrista de técnica impecável que resolve tudo com velocidade e precisão.
A virada veio nos primeiros anos do Rage, num show que não tinha nada de glamouroso: tarde de quarta-feira, numa faculdade, abrindo para duas bandas cover. Ele conta que, na passagem de som, cada uma dessas bandas já tinha um guitarrista "nível Malmsteen", daqueles que chegam com a mão calibrada para impressionar. E pior: ele percebeu que estava embarcando na mesma canoa: "Foi mesmo nos primeiros anos do Rage Against the Machine que eu comecei a me identificar como DJ. A gente estava abrindo para duas bandas cover numa faculdade, numa tarde de quarta-feira - um show qualquer. Na passagem de som, cada uma das outras bandas tinha um guitarrista 'de primeira', no nível Yngwie Malmsteen. E era isso que eu estava tentando ser."
O Morello fala disso com uma mistura de humor e irritação, porque a sensação dele era a de estar entrando numa competição que já estava saturada: "Se um showzinho horrível desses já tem dois caras desse tipo, não precisa de um terceiro hamster correndo naquela roda."
O "DJ" que ele menciona não é meramente alguém que cuida das pickups ou algo do tipo: é um jeito de pensar o instrumento. Em vez de tocar guitarra como se fosse obrigatório soar como guitarra "clássica", ele começou a tratar os sons como textura - alternando chave seletora, trabalhando com efeitos, criando ruídos e ataques que lembravam scratch e linguagem de hip hop. Não é que ele largou a técnica de lado; ele só mudou o objetivo.
E aí dá para entender por que essa história encaixa tão bem com a estética do Rage. O grupo nasceu justamente dessa mistura de linguagens - rap, rock, funk, metal - e a guitarra do Morello só faz sentido porque ela não tenta "ganhar no braço" de um padrão antigo. Ela funciona como parte do groove, do choque e do recorte político do som.
Tem uma ironia boa nisso tudo: existe público para o Malmsteen, sempre existiu, e ninguém precisa fingir que não. Só que, no caso do Morello, o caminho que abriu para ele (e para um monte de guitarrista depois) veio quando ele parou de tentar ser "o sueco do palco" e aceitou que o que ele tinha para oferecer era outra coisa.
O que fica é que tem horas em que você percebe que imitar bem não basta - porque, se a sala já tem dois fazendo aquilo, o máximo que você vira é o terceiro da fila. E o Rage Against the Machine só podia nascer quando o Tom Morello parou de correr nessa roda.
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