Max & Iggor Cavalera: Um brutal resgate dos tempos áureos

Resenha - Cavalera, Korzus e Venomous (Audio, São Paulo, 16/06/2019)

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Por Alexandre Veronesi
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Falou em Sepultura, falou em CAVALERA. Por mais que Andreas Kisser e companhia estejam em excelente fase, é inevitável associar o nome aos irmãos que fundaram o grupo no longínquo ano de 1984, em Belo Horizonte. O line-up atual, embora muito melhor aceito que em outrora, ainda divide opiniões, fato em partes compreensível, visto o impacto estrondoso que a banda causou mundialmente entre as décadas de 80 e 90.

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Para os órfãos do Sepultura 'old school', MAX E IGGOR CAVALERA prepararam uma turnê especial, trazendo um repertório exclusivamente composto por clássicos, com foco nos álbuns "Beneath The Remains" e "Arise", lançados em 1989 e 1991, respectivamente. O giro em questão teve início no ano passado, e chegou ao fim no último dia 16/06, na Audio, em São Paulo. No mesmo evento, teríamos ainda o grande KORZUS, e a abertura do promissor VENOMOUS.

Com uma pontualidade britânica (que perduraria por praticamente todo o evento), às 19h sobe ao palco o VENOMOUS, já mandando de cara sua homenagem ao lendário Andre Matos (falecido em 08/06, decorrente de uma parada cardíaca) com a introdução de "Nothing To Say", clássico do Angra, seguida pela autoral "Penitence". O quinteto, formado por Thiago Pereira (vocal), Gui Calegari (guitarra), Ivan Landgraf (guitarra), Renato Castro (baixo) e Lucas Prado (bateria) apresenta uma sonoridade moderna, que transita entre diversas vertentes do Metal e Hardcore de forma bastante orgânica. Os destaques da atuação ficaram por conta de "Within The Silence", a nova "Black Embrace", o ótimo cover de "Overkill", do Motörhead, cantado pelo baixista Renato (que parece ter encarnado o próprio Lemmy Kilmister, tamanha a similaridade na voz), e "Green Hell", com todo seu 'groove' e 'brasilidade' (se é que esta palavra existe), responsável por encerrar o curto, porém certeiro show dos caras, em uma nota altamente positiva. Se você curte se manter atualizado com novas bandas e tendências dentro da cena, sugiro que dê uma atenção especial ao VENOMOUS.

O show do KORZUS era quase tão aguardado quanto a atração principal, pois além de a banda ser um dos maiores pilares do Thrash Metal tupiniquim, esta apresentação em especial contaria com a íntegra do aclamado "Ties Of Blood", registro de 2004. Sendo assim, após uma breve introdução no som mecânico, o palco é tomado por Heros Trench (guitarra), Antonio Araújo (guitarra), Rodrigo Oliveira (bateria), e, por último, Marcello Pompeu (vocal) e Dick Siebert (baixo), únicos remanescentes da formação original, para instaurar o caos através de "Guilty Silence", sucedida por "Respect" e "What Are You Looking For", devastadora trinca inicial do disco homenageado.

Conforme previsto, o setlist respeitou a ordem original das canções, então tivemos, na sequência, as 'quebra-pescoços' "Screaming For Death", "Never Get Me Down" e "Punisher" (uma das melhores e mais bem trabalhadas do álbum). Neste momento, Pompeu anuncia "Evil Sight" e tece, comovido, algumas palavras a respeito da grande pessoa e artista que foi Andre Matos, e que a banda decidiu por não convidar outro vocalista para fazer as vezes do mesmo, e sim utilizar a voz do próprio nos PA's, além das linhas de guitarra gravadas pelo também saudoso Hélcio Aguirra (Golpe de Estado, Harppia). Naturalmente, foi o momento mais emocionante da noite.

"Correria", como de costume, foi outro ponto altíssimo do set, contando ainda com a participação surpresa do eterno guitarrista e fundador do KORZUS, Silvio Golfetti.
Após "Cruelty" (a mais complicada do disco, nas palavras de Pompeu), houve uma certa queda de ritmo no show. Não por uma questão de qualidade, obviamente, mas sim pelo fato de os sons seguintes, "Ties Of Blood", "It Wasn't Me" e "The Sadist" possuírem andamentos mais cadenciados, além de não serem tão bem conhecidos por todos.

Para fechar a apresentação em grande estilo, retornamos à porradaria com "Who's Going To Be The Next" (com direito a um enorme 'wall of death' na pista), e "Truth", 'jovem clássico' presente no registro "Discipline Of Hate", de 2010. Quase desnecessário dizer, mas foi mais um grande espetáculo desta verdadeira instituição do Heavy Metal nacional, que já ultrapassa 35 anos de estrada, mantendo-se firme e totalmente relevante.

Relógio marcando 21h40 (ínfimos 10 minutos de atraso), casa lotada, e a espera chega ao fim. A introdução que soa nos PA's evidencia o que está por vir. IGGOR CAVALERA (bateria) é o primeiro a assumir seu posto, ovacionado. Logo após, recebemos com euforia Marc Rizzo (guitarra), Mike Leon (baixo), e é claro, MAX CAVALERA (vocal e guitarra), que abrem seu set de maneira brutal com "Beneath The Remains". A próxima? "Inner Self". A Audio veio abaixo, em um completo pandemônio.

O caos sonoro seguiu com "Stronger Than Hate" e "Mass Hypnosis", que foi precedida por um breve e eficiente solo de baixo. Aliás, o título desta última diz muito sobre o momento: a platéia parecia realmente hipnotizada e em estado de catarse, ao ver e ouvir aqueles hinos atemporais sendo executados pelos icônicos irmãos.

Encerrando a parte dedicada ao disco de 1989, tivemos "Slaves Of Pain" e "Primitive Future". Sem intervalo, nem tempo para respirar, a introdução de "Arise" ecoou pela casa, soando como um prenúncio do apocalipse. E o que aconteceu a seguir foi de uma grosseria inenarrável. "Arise", "Dead Embryonic Cells" e "Desperate Cry", trinca de abertura do registro de 1991, elevaram à máxima potência a enorme energia emanada por audiência e banda.

No meio de "Altered State", tivemos um trechinho de "War Pigs", do Black Sabbath, em um instante de interação entre Max e o público. "Infected Voice" fechou este segundo momento do set com a agressividade que lhe é peculiar, dando lugar a "Orgasmatron", clássico do Motörhead que foi regravado pelo Sepultura no início dos anos 90, em poderosa e memorável versão que acabou, posteriormente, entrando como 'bonus track' no relançamento de "Arise".

Quem tinha algum receio de que esta turnê fosse um mero 'caça-níqueis' (eu incluso), pôde respirar aliviado. Os irmãos CAVALERA estão no gás e em plena forma. MAX é um cara extremamente carismático, sua voz continua potente, e por mais que negligencie um pouco seu instrumento durante a apresentação, não chega nem perto de comprometer; IGGOR ainda é um verdadeiro animal nas baquetas, com a 'pegada' forte de sempre e a técnica em dia. Não à toa é referência mundial quando se fala em bateria no gênero; e seus asseclas Marc Rizzo e Mike Leon não deixam em nada a desejar, desempenhando ótima presença de palco e máxima precisão ao interpretar todas estas emblemáticas canções.

Dando continuidade ao massacre, o quarteto iniciou "Raining Blood", do Slayer, que serviu com introdução para "Troops Of Doom", única representante do "Morbid Visions" (1986) da noite. Logo após, Max deixa sua guitarra com o roadie e narra uma engraçada história da época do primeiro Rock In Rio, em 1985, quando Iggor e ele, no intuito de assistir ao evento, disputavam a televisão com o tio 'noveleiro'. Este foi o pretexto para a versão CAVALERA de "Dirty Deeds Done Dirt Cheap", do AC/DC, que naturalmente ganhou uma dose extra de peso, e teve a participação de uma jovem fã que subiu no palco a convite do frontman.

Finalizando o set regular, tivemos dois dos maiores hinos do Metal nacional, que transformaram a Audio, mais uma vez, em um grande caldeirão: as indispensáveis "Refuse/Resist" e "Roots Bloody Roots". Poucos minutos depois, os irmãos retornam sozinhos ao palco e, despretenciosamente, tocam versões de "Hear Nothing See Nothing Say Nothing" (Discharge) e "Polícia" (Titãs), além de um trecho de "Black Magic" (Slayer), dedicado ao pessoal do KORZUS. Com Rizzo e Leon de volta, os CAVALERA encerram sua poderosa e memorável apresentação com um medley contendo "Beneath The Remains", "Arise" e "Dead Embryonic Cells". Confesso que não entendi muito bem, mas depois de um SHOWZAÇO desses, tem como reclamar de algo?

SETLISTS

MAX & IGGOR CAVALERA

01. Beneath The Remains
02. Inner Self
03. Stronger Than Hate
04. Mass Hypnosis
05. Slaves Of Pain
06. Primitive Future
07. Arise
08. Dead Embryonic Cells
09. Desperate Cry
10. Altered State (trecho War Pigs - Black Sabbath)
11. Infected Voice
12. Orgasmatron (Motörhead)
13. Troops Of Doom (intro Raining Blood - Slayer)
14. Dirty Deeds Done Dirt Cheap (AC/DC)
15. Refuse/Resist
16. Roots Bloody Roots
17. Hear Nothing See Nothing Say Nothing (Discharge)
18. Polícia (Titãs)
19. Black Magic (Slayer - trecho)
20. Beneath The Remains / Arise / Dead Embryonic Cells

KORZUS

01. Guilty Silence
02. Respect
03. What Are You Looking For
04. Screaming For Death
05. Never Get Me Down
06. Punisher
07. Evil Sight
08. Correria
09. Cruelty
10. Ties Of Blood
11. It Wasn't Me
12. The Sadist
13. Who Is Going To Be The Next
14. Truth

VENOMOUS

01. Nothing To Say - intro (Angra)
02. Penitence
03. Within The Silence
04. Black Embrace
05. Martyr
06. Overkill (Motörhead)
07. Green Hell




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