Peter Murphy e David J: resenha e fotos do show em São Paulo

Resenha - Peter Murphy e David J (Carioca Club, São Paulo, 07/10/2018)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

O BAUHAUS foi uma das bandas mais influentes da história do rock. Embora tenha uma curta discografia, o quarteto formado por Peter Murphy, Daniel Ash, Kevin Haskins e David J foi uma das bases para o que convenciona chamar de Rock Gótico, com influência que passou também para vários outros estilos. E metade desse grupo esteve em São Paulo, mais precisamente no Carioca Club, para comemorar 40 anos de banda. E, claro, o Carioca lotou, embora não tenha chegado à sua capacidade máxima, para ver o encontro do vocalista Peter Murphy e do baixista David J, além de um baterista e de um guitarrista de apoio. Tendo sido divulgado o resultado do primeiro turno das eleições poucos minutos antes, seja para comemorar ou lamentar, o evento também serviu de escape para o ambiente do lado de fora, da Cardeal Arcoverde em diante. O show, produzido pela Free Pass, passeou principalmente pela fase áurea da banda, seus primeiros quatro anos. Nenhuma canção de "Go Away White", de 2008, foi visitada. Você confere mais detalhes aqui, com fotos de Fernando Yokota.

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As 20h em ponto, "Double Dare" deu início ao show. Peter Murphy, com longa barba, vem logo pra frente do palco em tom desafiador, como na letra da canção. A resposta do público são gritos apaixonados. Depois, esse mesmo público cantaria junto "In a Flat Field", um dos maiores sucessos do BAUHAUS. A banda de apoio não deixa a desejar em seu desempenho, principalmente o baterista. O guitarrista não se impunha como Daniel Ash, mas não comprometia.

Com coroa na cabeça (bem que poderia ser a deixa para "King Volcano"), Murphy canta "A God in an Alcove", precedendo a contagiante levada de baixo de "Dive". A interpretação de Murphy é um dos pontos fortes não só da apresentação, mas de toda a trajetória do BAUHAUS, a essência do gótico. Isso fica bem evidente em canções como "Spy in the cab" ou "Small Talk Stinks", que ele canta com megafone.

Os sucessos do BAUHAUS vinham e iam, como "St. Vitus Dance". Em "Stigmata Martyr", Murphy chega a pegar também uma guitarra, mas não faz muito com ela. "Nerves" começou com ruídos, e o público, numa faixa etária majoritariamente superior aos 30 anos, reagiu com gritos quando a canção realmente tomou forma. Ao fim da canção, um breve susto. Depois de apenas quarenta minutos de show, eles saem do palco e deixam apenas o ruído. Aliás, o ruído e a iluminação. Imagino o terror que deve ter sido para os fotógrafos, mas combina bem com a banda essa iluminação escura.

Felizmente, logo eles (menos David J, que demorou um pouco mais) voltam para continuar a "Festa estranha com gente esquisita". Os eduardos e mônicas (lembrem, a Mônica da canção do Legião Urbana, cujo estilo foi claramente também bebeu na fonte do rock gótico/pós punk, gostava do Bandeira e do Bauhaus, Van Gogh e dos Mutantes, de Caetano e de Rimbaud). A canção era "Burning from the Inside", com Murphy cantando de perfil, como se estivesse desfilando sem sair do lugar. E depois de "Silent Hedges", um tanto mais acústico, principalmente por ser tocada com violão ao invés de guitarra, vem o acachapante maior sucesso do BAUHAUS, conhecida até por quem não curte a banda.

Pelas batidas e ruídos o público reconhece "Bella Lugosi's Dead". Murphy pega um dos refletores e joga a luz em seu próprio rosto. E canta assim mesmo, o que dá um aspecto ainda mais lúgubre a apresentação. Mas na hora do refrão é o público que dá o show. Foi, claramente, uma oportunidade para estar de volta aos anos 80 e ver ali, ao vivo, como se estivéssemos numa casa suja de Londres, esfumaçada e fria, assistindo à essência do rock gótico. Ao fim, Peter, sem ter trocado com o público muitas vezes durante a noite, agradece como se já fosse embora mesmo. Mas todo mundo fica ali. O público quer mais. E ele inicia "She's in Parties" com uma escaleta. Pela primeira vez o palco é tomado por uma forte iluminação, mas toda vermelha.

O público ainda grita e pula na dançante "Kick in the Eye" e, pela empolgação das pessoas, o show poderia continuar por muito mais tempo. O próprio Peter Murphy parece querer continuar, mas David J parece não estar mais a fim. Só volta para um burocrático abraço rápido. Não se sabe se nem está assim tão feliz com a efeméride do aniversário ou se é mesmo só um esforço para manter a atitude blassé.

Talvez a aparente apatia fosse por causa do calor. Eles realmente voltam para mais um bis, mas David já se livrara da echarpe. Não deu para manter o charme. O público participa do show mais uma vez cantando junto o refrão de "The Passion of Lovers" e, para terminar o show, o próprio BAUHAUS, digo, o meio BAUHAUS que estava ali, reverencia o T-REX e DAVID BOWIE (este, talvez uma das maiores influências da banda) com covers de "Telegram Sam" e "Ziggy Stardust".

A festa de 40 anos foi relativamente curta. Além de sucessos como "All We Ever Wanted Was Everything", que nem chegaram ao setlist, "Boys", "Terror Couple Kill Colonel" e "Dark Entries", que deveriam ter feito parte do miolo da apresentação foram limadas. Não tem problema. A banda que tem nome de escola de arquitetura será sempre bem-vinda para comemorar seus aniversários todos os anos. A gente garante os "parabéns a você". Ao estilo gótico, claro.

Agradecimentos:

Free Pass, Heloisa Vidal e Suellen Domingues, pela atenção e credenciamento.
Fernado Yokota, pelas imagens que ilustram esta matéria.

Setlist

1. Double Dare
2. In the Flat Field
3. A God in an Alcove
4. Dive
5. Spy in the Cab
6. Small Talk Stinks
7. St. Vitus Dance
8. Stigmata Martyr
9. Nerves
10. Burning From the Inside
11. Silent Hedges
12. Bela Lugosi's Dead
13. She's in Parties
14. Kick in the Eye
15. The Passion of Lovers
16. Telegram Sam (T. Rex)
17. Ziggy Stardust (David Bowie)




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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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