Samsumg Best of Blues: Tom Morello e Convidados
Resenha - Samsumg Best of Blues (Anfiteatro Guaíba, Porto Alegre, 15/09/2018)
Por Pedro Lapinscki Jr.
Postado em 22 de setembro de 2018
É lugar comum dizer que a música brasileira carece de incentivadores e patrocinadores. Por essa razão é preciso iniciar essa resenha saudando a Samsung pela iniciativa anual de patrocinar um festival de música. Nesse formato, a inclusividade fica fortemente garantida, na medida que as pessoas que não dispõem de R$100 (no mínimo) para apreciar um festival desse porte podem se deleitar com o espetáculo.
E esse festival foi um espetáculo literal para o sensorial dos presentes. A começar pelas gratas surpresas tupiniquins recrutadas para o evento. Aqui em Porto Alegre a banda General BoniMores abriu a agradável tarde-noite na capital rio grandense com um rock instrumental digno do DNA gaúcho. Tocou apenas duas músicas, mas suficientes para mostrar que o espírito sulista rock & roll ainda respira.
Depois foi a vez da intrépida Isa Nielsen invadir o palco com sua banda. Destilou um excelente conjunto de músicas, que variavam desde o heavy melódico, com pitadas de prog e speed. Era absolutamente perceptível a influência de monstros da guitarra, como John Petrucci e Dave Murray, em suas frases instrumentais. Destaque para a música "Slide", primeiro single da guitarrista brasileira e que bebe fortemente em Dream Theater. Isso por si já dá o tom da ambição do projeto da simpática musicista brasileira.
Logo em seguida os potiguares da Orquestra Guitarrística Camarones adentraram o tablado à beira do rio Guaíba para incendiar os presentes com sua forte intensidade de palco e incontestável energia de suas composições. Riffs mais crus e arrastados, e ao mesmo tempo estrepitosos, alternados com uma bateria com bastante punch deram o tom da apresentação. Foi um show de tirar o fôlego. É imperioso citar a altivez da risonha Ana Morena, que durante toda apresentação do conjunto demonstrava o prazer com que estava manuseando seu baixo. Reitero as congratulações para a Samsung por escolher tão bem as bandas brasileiras.
Já era hora das atrações internacionais. E para minha surpresa, a apresentação de John5, ex-guitarrista do Marilyn Manson, foi a mais surpreendente da noite. Primeiro porque eu não conhecia seu trabalho solo. Segundo porque o show do Morello ficou um pouco aquém da expectativa geral(calma, falarei disso adiante). E terceiro porque ele apresentou o maior e melhor medley que Porto Alegre testemunhou em seus mais de 50 anos de rock tocados aqui.
Quando ele entrou no palco todo de branco, a imagem de um lobo branco da estepe veio imediatamente à minha retina. As músicas do disco novo foram satisfatoriamente executadas. A cozinha foi escolhida a dedo, pois tanto baixista como baterista estavam à altura do músico completo que John5 é. E permitiram que ele pudesse demonstrar todo sua balanceada fórmula de virtuosismo e feeling com bastante tranquilidade. Como se carregassem o piano para John tocar.
A apresentação deste rapaz também se notabilizou pelo personagem que ele apresentou durante o show, que se pautou por uma construção estética, evocando eras medievais. Havia um elemento teatral em seu show. Até um corcorã entrou no palco, sorrateiramente, com uma adaga na mão, para alvejar o grande Lobo Branco da Estepe. Antes do inesquecível medley, ainda tocou Enter Sadman, do Metallica, na íntegra. Sobre o medley, fomos agraciados com 10 minutos de variados riffs. Foi uma digressão temporal, pois ele tocou Sabbath, Led, Rush, Iron, Police, Rob Zombie, Metallica, Alice in Chains, Rage Against, só pra citar alguns. Mostrou respeito ao público ao tocar riffs de variadas épocas e bandas.
Enfim chegou a vez de Tom Morello. Todo o festival foi instrumental. E coube a Morello quebrar essa linha. Iniciou sua apresentação tocando 2 músicas autorais em que também interpretava a letra com apelo político e revolucionário, como é característica de suas manifestações durante sua carreira. Também tocou músicas do Audioslave e Rage Against, como Cochise e Your Time Has Come do Audio, e Guerrilla Radio e The Ghost of Tom Joad do Rage. Eu sei que ela é do Bruce Springsteen, mas O RATM imortalizou a composição com uma versão estridente e insinuante. Só que essas músicas foram executadas ao seu próprio modo. Com alterações de métrica e muito mais melódicas. Quem foi lá para se entreter com clássicos do Rage Against acabou ficando na vontade. Particularmente gostei das versões alternativas, mas confesso que fiquei com gosto de quero mais na boca.
O grand finale tinha que ter algo estrondoso. E Morello sabia disso ao brindar as 35 mil pessoas com Killing in the Name. Tocado no modo raiz. E nem preciso dizer que o delírio tomou conta da plateia de forma irrevogável. Foram 3 horas de absoluto regozijo sensorial proporcionados pelo Samsung Best of Blues. Que venham mais atrações em 2018!
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